Vivian de la Troni

Tempo de leitura: 13 minutos

Música… Não se trata de apenas notas, sons e embalos. Música é vida, é tão essencial como o ar que adentra em seus pulmões. Eu diria que música é a respiração da alma, é a expansão de todo sentimento do seu corpo e mente em cifras tão bem delineadas que muito se assemelham aos corais celestiais no espaço acima de nós.

Não consigo enxergar uma vida sem música, da mesma forma que não consigo enxergar uma vida sem um coração ali, batendo, pulsando, vibrante. Até o coração tem o seu próprio jeito de fazer música, ele bate em seu compasso quase infinito como se fosse um metrônomo que marcasse o tempo exato de sua existência e quando a música acaba, fecha-se as cortinas e você dá adeus ao espetáculo da vida.

Você deve estar se perguntando quem sou eu e porque eu amo tanto música, não é verdade? Bem… Eu sou Vivian De La Troni, uma musicista Ítalo-Brasileira, formada pela Berklee College of Music em BostonEstados Unidos. Eu toco violino desde meus quatro anos, venho de uma respeitada família de músicos, os “De La Troni”. Há uma história contada de geração em geração de que foi um “De La Troni” que inventou a palavra que hoje conhecemos como música. Se é verdade ou não, eu não saberia explicar. Mas o que sei de fato, é que minha família vive pela música, da hora que acordamos até a hora que vamos nos deitar, há uma música em cada momento, em cada passo, em cada nascer e por-do-sol, em cada flor que nasce ou morre, para nós, tudo é música.

Porque estou contando a minha história? Bem, hoje é o dia mais importante da minha vida. Trabalhei muitos e muitos anos para chegar até esse momentos. Vocês devem conhecer o maestro André Rieu, certo? Pois bem, eu estava em minha casa ensaiando para uma apresentação que faria num orfanato em Londres quando meu telefone tocou. Do outro lado da linha era ninguém mais ninguém menos do que a assessora do André Rieu me convidando para uma apresentação com ele, e o melhor, eu seria a solista no violino. Já imaginaram a minha alegria? Subir no mesmo palco de um dos maiores violonistas do mundo e ainda ser regida por ele e quem sabe fazer um dueto, mesmo que fosse de brincadeira. Aquela com certeza seria a melhor sensação da minha vida, só existia um problema… A apresentação com o maestro chocava com a apresentação para as crianças do orfanato em Londres.

E agora? Fiquei com esse dilema em minha mente. O que fazer? Como resolver isso? Eu tinha me comprometido com as crianças daquele orfanato. Não que eu fosse alguém muito famosa ou algo assim, mas tinha um motivo especial para eu tocar ali naquela noite, com o dinheiro arrecadado da venda dos ingressos, o orfanato iria poder reformar o teto de uma das alas que havia cedido depois de fortes chuvas na região. Eles dependiam de mim e da minha apresentação. Em contrapartida, subir no mesmo palco que André Rieu era a oportunidade pela qual em sempre sonhei em toda a minha vida.

Lembro-me de enquanto pensava abraçar o retrato do meu pai que estava posto sob a penteadeira do meu quarto. Ele com certeza saberia o que fazer e poderia me aconselhar naquele momento. Eu estava totalmente perdida, não poderia decepcionar nenhum dos lados. Até pensei em ligar para alguma amiga me substituir no orfanato, mas aquelas crianças pareciam me querer tão bem no dia que fui conhecer o espaço, algumas delas foram tão carinhosas comigo, me abraçavam, faziam carinho em minha cabeça e uma delas, de uns três ou quatro anos até estendeu os bracinhos para que eu pudesse pegá-la no colo. Como eu poderia decepcionar aquelas crianças?!

Mas, por outro lado, era André Rieu! Você entende? André Rieu!!! Tocar com ele era o sonho de qualquer violinista, eu diria mais, é o sonho de qualquer músico ou musicista. Certamente, se eu perdesse tal oportunidade, se eu não subisse naquele dia, naquele palco, nunca mais teria uma outra oportunidade. E é como sempre digo, os “De La Troni” não perdem uma oportunidade, mas agora eu tinha duas e não queria perder nenhuma delas. Mas, era impossível comparecer as duas, estavam a milhas de distância, uma em Londres e outra em Seattle, com apenas 40 minutos de diferença entre uma apresentação e outra, mesmo que eu tivesse um avião supersônico não conseguiria chegar a tempo. Eu realmente tinha que decidir e o tinha que fazer me menos de vinte e quatro horas.

Você pode achar que foi egoísmo da minha parte por pensar assim. Mas, existiam outras crianças em outros orfanatos espalhados por aí. Mas, só existia um André Rieu e apenas uma oportunidade de estar com ele e aquela era a minha e os “De La Troni” não perdem uma oportunidade. O mais perto que alguém da minha família chegou do grande maestro foi estar na quinta fila de uma de suas apresentações e mesmo assim, não conseguimos chegar perto o bastante para falar com ele ou tirar uma foto, mas aquele foi sem dúvida um dia memorável. E eu não perderia esse dia por nada.

Comecei a arrumar as malas rumo à Seattle, fui colocando as coisas de forma que as que fossem mais essenciais ficassem por cima, assim eu não teria que revirar a minha mala para achar algo que eu precisasse muito. As últimas coisas que coloquei foram o passaporte e uma foto das crianças do orfanato, eu não sei porque, mas sinto que eu precisava levá-las comigo naquela viagem. E pensar que eu nem tive coragem de telefonar para lá para informar que eu não iria a apresentação. Fico só imaginando aqueles rostinhos decepcionados pela minha ausência, e todas as pessoas que compraram ingresso para a minha apresentação. E o teto do orfanato, eram várias coisas atormentando a minha mente, mas agora já estava feito, não tinha como voltar atrás, a passagem para Seattle estava na minha mão e era para lá que eu iria.

Quando o aeroporto anunciou a última chamada no portão dois para Seattle, confesso que meu coração gelou. Era agora ou nunca, aquela era a oportunidade da minha vida e os “De La Troni” jamais perdem uma oportunidade, eu respirei fundo, peguei minha mala de mão e caminhei para a ala de embarque.

Quando cheguei no hotel eu nem pude relaxar. Aqueles pensamentos ficavam rondando a minha mente. Será que sou uma pessoa ruim por querer realizar meu sonho? Será que sou um monstro por preferir minha carreira do que as crianças daquele orfanato? Porque eu estava me sentindo daquela forma? Era tarde demais para voltar atrás e fazer diferente? Estávamos apenas quatro horas da apresentação. Será que eu poderia me arriscar pegar um voo de última hora e atravessar o oceano? Não… Seria arriscado demais e por mais que minha mente e meu coração estivessem brigando, no fundo eu sabia que tinha tomado a decisão certa.

Faltando dez minutos para subir ao palco cá estou eu com minhas indagações. Lutando comigo mesma para tirar os pensamentos que me impedem de subir lá e dar o meu melhor. Até porque aquela platéia foi lá para me ver também, eles merecem que a música flua de mim, de cada célula do meu corpo, eles merecem que eu derrame a minha alma ali na frente deles em forma de lindas canções. E eu não posso fazer menos que isso.

– Vivian? Cinco minutos para o show.

– Tudo bem, já estou subindo. Tem muita gente lá fora?

– Mais do que podemos contar. Será um ótimo show.

– Obrigada. Só vou tomar um gole de água e estou subindo.

Agora era pra valer. Eu precisava esvaziar minha mente e dar o meu melhor. Me dirigi até o espelho enquanto bebia um copo de água, reparei que as lágrimas que aglomeravam nos meus olhos, mas eu não poderia chorar, além de borrar toda a minha maquiagem e ser impossível retocar a tempo, eu estava certa em ter feito a escolha que fiz. Não tinha motivos para chorar, para ficar nervosa ou triste, aquela era a minha vida e era eu quem decidia o que era melhor para ela. Infelizmente, por um acaso do destino eu recebi dois maravilhoso convites no mesmo dia, mas eu tinha que optar por um deles e sei que fiz a melhor escolha possível. Estou pronta!

Ladies and gentlemen, welcome to the stage Vivian De La Troni (Senhoras e senhores, recebam ao placo Vivian De La Troni)

Thank you thank you! I wanted to say that it’s a great honor for me to be on that stage tonight. Last week was very difficult for me because I received two wonderful invitations to play. One of the great conductor and violinist André Rieu and another from the Piece of Heaven orphanage. My heart and my mind were divided as to where I should go, playing with Adré Rieu was the opportunity of my life and as we say in my family, De La Troni “never miss an opportunity. But at the same time, playing for the children of the orphanage and knowing that through the music that flows from my heart I will be able to help in rebuilding the ward that gave in to the rains, it is something that nothing in this world can afford. So, ladies, gentlemen, members of the board and children, this is for you and for you, I will do my best this evening because you deserve only the best of me. Let the show begin!

(Obrigada, obrigada! Eu queria dizer que é uma grande honra para mim estar nesse palco nessa noite. A última semana foi muito difícil para mim, pois recebi dois convites maravilhosos para tocar. Um do grande maestro e violinista André Rieu e outro do orfanato Pedaço do Céu. Meu coração e minha mente ficaram divididos quanto para onde eu deveria ir, tocar com o André Rieu era a oportunidade da minha vida e como dizemos na minha família, os “De La Troni” jamais perdem uma oportunidade. Mas, ao mesmo tempo, tocar para as crianças do orfanato e saber que através da música que flui do meu coração eu vou poder ajudar na reconstrução da ala que cedeu pelas chuvas, é algo que nada nesse mundo poderá pagar. Por isso, senhoras, senhores, membros da direção e crianças, isso é por vocês e para vocês, darei o meu melhor nessa noite porque vocês merecem apenas o melhor de mim. Que comece o show!)

Foi uma oportunidade maravilhosa tocar, naquele dia, para aquelas crianças. O dinheiro arrecadado foi muito maior do que precisavam para reformar a área que cedeu, devido as fortes chuvas. Ainda foi possível comprar um mini ônibus para o orfanato transportar as crianças para os momentos de lazer fora daquelas paredes. Eu me senti muito honrada de ter sido capaz de dar a eles o melhor que tinha em mim. Não há nada no mundo que pague a sensação que senti naquele dia ao ver aqueles rostinhos tão grudados em mim, muitas daquelas crianças tiveram pela primeira vez o seu contato com a música. E isso me marcou bastante, tanto que estou me mudando para lá ano que vem para ensinar música aos pequeninos.

Você deve estar se perguntando como eu fiz isso, não é? Bem, lembram-se que eu lhes disse que coloquei as coisas essenciais na minha mala por cima? Bom, eu incluí a passagem que o orfanato tinha mandado alguns meses antes para a minha apresentação. Quando ouvi a última chamada para Seattle, eu tive a certeza que deveria ir para Londres. Ao entrar no avião eu dei um sorriso para as aeromoças que lá estavam e sentei-me em minha poltrona e sem muitas cerimônias eu passei uma mensagem para a assessora do André Rieu e expliquei o acontecido. Ela me agradeceu e disse que não faltariam oportunidades, confesso que eu não tinha certeza daquelas palavras. Minha mente e meu coração lutavam entre si, e a briga durou todo o voo, e também o caminho do aeroporto até o hotel que eu ficaria hospedada antes da apresentação.

Mas, uma semana depois, o telefone tocou novamente, reconheci o número na hora, era da assessoria do maestro André Rieu, mas dessa vez, era o próprio Rieu quem estava ao telefone. Ele me disse que tinha ficado muito emocionado e sensibilizado com minha história e que soube pelo orfanato que eu estava me mudando para lá para ensinar música as crianças, então ele se comprometeu a estar conosco no final do próximo ano para que possamos junto com as crianças dar a Londres o melhor natal de todos os tempo.

Eu mal podia acreditar naquelas palavras. Ele não somente perdoou eu ter avisado de última hora que não iria, como também se comprometeu a dividir o palco comigo e aquelas crianças em prol do orfanato. Com o dinheiro arrecadado com a venda dos ingressos poderemos fazer tantas coisas, como ampliar os dormitórios, comprar novas camas, roupas, alimentos, eu não vejo a hora disso acontecer, estou extremamente feliz e grata por essa oportunidade. Agradeço a Deus e a música, sem eles nada disso seria real, nada disso seria possível. A música pode transformar pessoas, valores, caráter e vidas. Não permita que ela morra dentro de você, olhe ao seu redor, ou melhor, escute ao seu redor, o mundo inteiro é uma bela canção, você só precisa parar para ouvir.


MÚSICA TEMA: CRYSTALIZE – LINDSEY STIRLING

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *