Sua Música, Nosso Passado

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A velha vitrola tocava na sala, ao som da melodia de “Maksim – Somewhere in Time“, enquanto ela degustava o mais puro néctar que lentamente descia em direção à sua garganta. Ao fundo era possível notar uma lareira acesa, e no seu interior, as últimas fotos, amargas fotos que ela jogou ao fogo na esperança que ele também queimasse e transformasse em cinzas toda saudade que invadia seu peito.

Já haviam-se passado cinco anos desde a última vez que ela o tinha visto. Ela guardava em sua mente a lembrança do último beijo, o último afago e o último desejo ardente de ambos os corpos, a última noite de entrega total…

Em seus olhos, devaneios daquela noite, ela já não sabia diferenciar o que era mentira do que era verdade. Ela só se lembra que foi de fato a última vez que sentiu seu coração bater. A taça de vinho, já pela metade, mostrava um vermelho tão vivo como aquele que estampava seus lábios; única cor que contrastava com seus cabelos negros como o mais profundo abismo e sua pele branca quase que transparente como pequenos flocos de gelo. Ela quis gritar, mas sua voz não saiu.

Enquanto o fogo queimava, ela procurou de alguma forma esquecê-lo, mas tudo era em vão… pois, sentada à sua frente, estava aquela que jamais lhe permitiria esquecer-se daquele tão cruel amor. Sua pequena Annie de apenas quatro anos, de cabelos cacheados e um olhar tão puro como as pinturas de Michelangelo, uma face tão doce como se fosse um anjo e olhos tão azuis que praticamente brilhavam no escuro, Annie era a mais linda lembrança daqueles dias e daquela noite — quem sabe a única boa lembrança.

Ela deu um último gole em seu vinho e se virou para lareira que estava à queimar a última foto em que poderia dava para ver os dois abraçados e sorrindo. Seus olhos se voltaram para a pequena Annie, que adormecia abraçada ao suéter da mãe e parecia estar sonhando um sonho tão lindo que ela não a quis acordar. Caminhou em direção à vitrola, abaixou seu volume, tirou o batom vermelho do bolso, retocou sua maquiagem e após beijar sua filha, aumentou o volume da vitrola, onde segundo ela, tocava a música dele e a história dos dois, ela então deu uma última tragada em seu cigarro e suspirou.

 

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