O Passado de Augusta

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Brasil, 24 de fevereiro de 1932      

Ela não poderia estar mais feliz. O Presidente Getúlio Vargas acabara de aprovar o primeiro código eleitoral, que instituía o voto feminino e criava a Justiça Eleitoral do Brasil. Mas qual era o motivo de tal felicidade para Augusta? Simplesmente porque poderia votar? Não, claro que não! Poder votar era um direito conquistado, sim, mas sua real felicidade tinha nome, não qualquer nome, tinha nome de santo.

Jorge estava voltando de umas de suas incursões pelo interior do Brasil, havia rumores de contrabando de animais e ele fora investigar. Já Augusta, o esperava ansiosamente junto com Ana Clara, que ainda estava na barriga. Seu regresso estava marcado às 15:00, e Augusta já se encontrava na estação de trem, aguardando a locomotiva preta que traria seu amado Jorge ao seu encontro.

Acontece que… a locomotiva não chegou. A princípio, pensavam que poderia ser um atraso ocasionado por algum contratempo e só mais tarde naquele mesmo dia chegaria a notícia, eles haviam sido emboscados por militantes opositores ao governo Getúlio Vargas; Augusta temeu pelo pior. As notícias chegavam desencontradas, alguns afirmavam que estavam todos bem e que as negociações com o governo já estavam avançadas, outros afirmavam que o trem seguia sob posse dos criminosos e que o governo ainda nem tentara qualquer tipo de negociação, até que chegou uma notícia que abalou a todos, a pior notícia, daquelas que ninguém quer ser o portador ou receptor.

– Estão mortos! Eu vi… estão todos mortos!

Augusta gritou tão alto e tão forte que parecia que estava explodindo de dentro para fora, e de certa forma estava. Devido ao choque e aos constantes movimentos se debatendo de um lado para o outro, Augusta perdeu a criança que estava em seu ventre. Clarinha não teve nenhuma chance diante da possibilidade de seu futuro pai estar morto. O choque foi demais para sua mãe, e essa sem ter a intenção de fazê-lo, acabou com a vida da própria filha.

Augusta desmaiou e precisou ser levada às pressas para o hospital local. Fizeram de tudo para salvar o bebê, mas era tarde demais. Essa foi a última vez que Augusta sentiu uma criança crescer em seu ventre, já havia tentado outras duas vezes, mas sem sucesso. Clarinha é quem tinha chegado mais longe, mesmo assim ela não chegou a conhecer os pais. Aos 35 anos e numa medicina não muito avançada, nem se cogitava mais pensar em filhos, principalmente pelos abortos sofridos anteriormente. Augusta sabia que teria que aguentar aquela dor de não ter uma criança em sua vida e o pior, teria que aguentar a dor de não ter seu amado Jorge também.

Às 02:00 da manhã, a cidade inteira é acordada por um barulho incomum para aquele horário; alguns sabiam exatamente o que era, mas não podiam crer. Mesmo sem forças, Augusta levantou de sua maca e correu até a janela do hospital que ficava a poucos metros da estação de trem. A cena que ela viu então a fez chorar copiosamente, Augusta viu a locomotiva preta parar na estação de trem e naquela hora desabou novamente. Pensou que num daqueles vagões estaria o corpo de seu amado Jorge e que a qualquer momento alguém viria lhe dar a notícia. Ela não estava de um todo errada.

Às 02:15 da manhã, uma enfermeira entra em seu quarto…

– Como se sente?

– Eu não sei ao certo, só tenho vontade de chorar.

– É natural pela sua perda, está mais calma? Quer que eu lhe aplique um sedativo?

– Não… não será preciso.

– Você precisa ser forte, trago notícias da estação de trem…

Nessa hora, os olhos de Augusta se encheram de lágrimas, lágrimas tão pesadas que não eram capazes de se conterem em seus olhos. Elas rolavam em seu rosto formando torrentes que desciam ao encontro do lençol em que estava envolvida, o deixando completamente molhado.

– Serei forte.

– Tudo bem… pode entrar!

– Augusta?

– Jorge?! Ah… Jorge, meu amado Jorge… é você mesmo? Disseram-me que… ah, Jorge, me perdoa! Eu, eu…

– Calma, Augusta. Está tudo bem. Eu sei o que houve, não foi culpa sua.

– Mas como?

– A locomotiva que foi emboscada estava na nossa frente. Por isso houve um atraso em nossa viagem. É uma pena… perdemos bons homens hoje.

– E também nossa filha, eu sinto tanto…

– Não é sua culpa, Augusta, não é sua culpa…

Jorge a abraçou bem forte, enquanto ela chorava em seus braços. Ambos sabiam que o sonho de serem pais estava morto, juntamente com Clarinha, mas embora com o coração em pedaços, eles estavam felizes por estarem ali, juntinhos… e por pertencerem um ao outro. Isso nem a morte conseguiria arrancar dos dois, ambos estavam incertos quanto ao futuro que haviam de ter, mas sabiam que o amor que sentiam um pelo outro enfrentaria qualquer circunstância, até mesmo a morte. Augusta adormeceu nos braços de Jorge e só soube no dia seguinte que naquele mesmo hospital, horas depois de todo o acontecido, nascera uma criança que foi batizada pelo nome de Ana Clara em homenagem a filha de Augusta e Jorge. Aquela seria a primeira de muitas crianças que ainda haveriam de ser batizadas por aqueles dois. Há tantas histórias sobre o passado de Augusta que creio que não caberiam nessas páginas, talvez não caberiam nas páginas de todos os livros do mundo. Mas, de alguma forma, sua vida, essência e os efeitos de sua existência estão espalhados por aí, no olhar amoroso de cada idoso e no sorriso inocente de cada criança.

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