O Palhaço Camarão

Tempo de leitura: 67 minutos

– Respeitável público! Está começando agora o inigualável, o inimaginável, o incomparável, maior e melhor show da face da terra no Circo Del Castro!!!

A plateia vai a loucura com o anúncio do locutor que veste um smoking preto com detalhes em vermelho sangue e uma gravata borboleta de cor púrpura. O locutor não tem muita altura, mas destaca-se ao subir numa especie de palanque muito bem posicionado antes do início do show.

A casa está lotada, também pudera, o maior fenômeno da atualidade fará seu derradeiro show para crianças e adultos que enfrentaram filas e filas para comprar seus ingressos meses antes do show. A turnê que põe fim a carreira do palhaço havia deixado marcas, choros e risos em várias capitais do país e até mesmo no exterior, ninguém queria perder tal show e todos queriam uma oportunidade para se despedirem do seu ídolo, afinal de contas, o Palhaço Camarão era o mais antigo em atividade, e praticamente divertia a vida de duas ou três gerações. Dado a problemas de saúde devido sua idade, o intérprete original do palhaço sairia em sua última turnê antes que seu sucessor assumisse o seu manto.

Quem ele era? Bom, quase ninguém o conhecia pelo seu verdadeiro nome, alguns achavam que ele se chamava José, outros Augusto e outros ainda afirmavam veemente que seu nome era Tadeu, mas ninguém sabia ao certo, e ele também não fazia questão, queria ser lembrado apenas como o Palhaço Camarão.

A ideia de passar o manto adiante surgiu dele, não queria que o legado fosse apenas seu. Como nunca conheceu o único filho que teve e nunca soube de seu paradeiro, treinou dois de seus afilhados para assumirem o posto quando ele não mais desse conta, mas chegando perto da fase adulta, os dois decidiram seguir por outros rumos, um virou locutor de rodeio e o outro resolveu se aventurar como advogado.

Frustrado, mas não vencido, aos oitenta e seis anos iniciou novamente a busca por um sucessor, ele queria manter vivo no olhar, coração e lábios das crianças que o assistiam, a alegria de poder ver de perto o tão amado palhaço. Ele entrevistou centenas de candidatos, embora seus afilhados não quisessem assumir o manto, o que não faltava eram candidatos a vaga. Alguns por puro ego, pela importância e relevância que o palhaço tinha no âmbito nacional, ele atraia todos os tipos de mídias e raramente alguém o criticava, era elogiado até por aqueles que declaravam-se seus inimigos, em seus mais de setenta anos de picadeiro, ele acumulara muitos amigos e o respeito de gerações.

Achar um substituto não foi nada fácil, alguns queriam fama, outro dinheiro, outros ainda mulheres, prestígio, poder, a maioria dos candidatos quando perguntados porque queriam se tornar o palhaço Camarão, respondiam de forma egoísta, e para seu criador, o palhaço tinha que colocar o amor e a felicidade das crianças em primeiro lugar, antes mesmo de sua própria felicidade, essa era a resposta que ele tanto buscava nos candidatos que entrevistava, mas nunca a encontrava.


02 SEMANAS ANTES DO SHOW

Faltando duas semanas para a última apresentação da turnê de despedida, um jovem rapaz pediu abrigo no circo. Ele disse que tinha saído de casa após os abusos de seu padrasto que o açoitava quase todos os dias. O tal padrasto era seu único parente vivo, após a mãe, duas tias e um primo morrerem tragicamente num acidente de carro. Ele contou que o padrasto não era agressivo antes do acidente, mas que passou a culpar o garoto pela morte da esposa, já que a mesma havia saído para buscá-lo num shopping, infelizmente ela nunca chegou ao tal destino, numa ultrapassagem perigosa o carro onde estavam chocou-se frente a frente com uma carreta que vinha na direção oposta, todos os ocupantes do carro morreram na hora, o motorista da carreta teve apenas ferimentos leves.

O rapaz contava a história muito abalado e chorando, ele implorava que não o mandassem de volta para o padrasto pois não aguentava mais apanhar. Disse que estava sem comer faziam três dias e cogitou revirar o lixo de alguma família rica para ver se encontrava alimento. Todos do circo se compadeceram com aquela história, alguns cogitaram chamar a polícia e entregar o rapaz aos cuidados do estado, mas sabiam que se fizessem isso, certamente procurariam o parente mais próximo e o rapaz iria acabar voltando para a casa do padrasto, após uma votação que durou aproximadamente trinta minutos, voltaram com um  veredito.

– Olá, eu sou a Alice, sou trapezista. Qual é mesmo seu nome?

– Afonso! Meu nome é Afonso!

– Muito prazer Afonso, bonito nome, um pouco fora de moda talvez, mas um bonito nome.

Afonso que até então estava de cabeça baixa, levantou os olhos para ver quem falava com ele e sentiu seu coração bater no mesmo instante, não que ele não tivesse batendo antes, mas ele não tinha tido percepção até aquele momento. Alice era uma linda jovem que aparentava ter uns catorze anos, mas que na verdade tinha dezessete, ela era filha caçula do dono do circo. Na ocasião, ela vestia um maiô prata cravejado de pedrinhas que simulavam diamantes, ela era um tanto quanto magra e tinha suas curvas bem delineadas, tinha lábios de um tom bem rosa e cabelos cacheados na altura dos ombros, usava uma maquiagem forte que combinava com sua roupa e sapatilhas como aquelas usadas pelas bailarinas. Ao escutar as últimas palavras de Alice, Afonso sorriu, pela primeira vez em todo o drama, ele sorriu.

– Obrigado, eu acho. Não sei se foi um elogio, mas se foi, obrigado.

– Foi um elogio sim. Como eu ia dizendo, meu nome é Alice e eu sou trapezista, aqueles dois são Pit e Pot os gêmeos, aquele ali com cara de bravo é o meu pai, ele não gosta muito que eu converse com rapazes, mas como sou a porta voz do grupo, dessa vez ele teve que abrir mão. Ali do outro lado estão o Tony e o André, eles entram no globo da morte, mas ao fundo você vê o Eduardo e a Sophia que também são trapezistas, esqueci de falar, os gêmeos entram no canhão humano, aquele rapaz que está olhando na nossa direção é o…

– Deixa que eu me apresento! Sou o Makkoo! E eu acho que você deixou cair essa moeda.

– Co… Com…. Como…. Como você chegou aqui tão rápido?

– Não aprendeu nada da vida rapaz? Um mágico nunca revela seus truques.

– Bom, ele é o Marcos, nosso mágico.

– Makkoo! Eu já te disse Alice, Makkoo!

– Tá bom, Makkoo!

– Prazer em conhecer a todos.

– Então, todos nós nos reunimos e votamos sobre você ficar…

– Espera! E quem é aquele senhor ali encostado na parede, acho que esqueceu de apresentá-lo.

– Na verdade eu não esqueci, eu pulei de propósito. Como eu ia dizendo, nós votamos e por nove votos a favor e um contra, decidimos te adotar. Parabéns, bem-vindo à família Del Castro, agora você é um de nós.

Todos aplaudiram o jovem rapaz que se mostrava feliz e ao mesmo tempo preocupado, principalmente quando vira o senhor que estava encostado na parede deixar aquela reunião com uma cara de insatisfeito. Mas, por hora ele não queria saber daquilo, só queria curtir aquele momento, principalmente depois de ter escutado a palavra família, termo que não era usado direcionado a ele por muito tempo. Afonso ficou por um pouco de tempo pensando naquele velho, mas depois acabou se rendendo a festa, ele tinha vários motivos para comemorar, mas o principal deles era não ter que voltar mais para as agressões do padrasto.


– Você não está na festa!

– Você sabe que isso é um grande erro, não sabe Raul?

– É erro acolher alguém que está precisando? É um erro ajudar uma pobre criança?

– Ora por favor Raul, ele não é uma criança. Já é quase um adulto. Você pelo menos checou a história para ver se é verdadeira?

– Acha que ele inventaria tudo aquilo a troco de que?

– Não sei, talvez para ficar perto do Palhaço Camarão ou para substituí-lo.

– Por favor! O mundo não gira em torno de você. Acha que o garoto criou a história só para se aproveitar?

– Se for esse o caso, pelo visto deu certo, como sua filha disse Raul, agora ele é um de nós.

Raul pode até não ter acreditado nos argumentos do palhaço Camarão, mas certamente aquela conversa o deixou com uma pulga atrás da orelha. E se de fato aquilo fosse só uma história para se aproximar do famoso palhaço. Não era segredo pra ninguém que o palhaço procurava um substituto e que ainda não tinha encontrado, e se tudo aquilo não passasse de um engenhoso plano para ganhar a confiança de todos até receber o convite para assumir o manto do palhaço.


– Precisamos encontrar um lugar para você?

– Desculpe, o que disse?

– Eu disse que precisamos encontrar um lugar para você. Se quer ficar com o circo, vai precisar trabalhar e se trabalhar vai precisar de um lugar, um camarim. O que você sabe fazer garoto?

– Não muita coisa. Mas, eu ajudava meus pais nos afazeres do lar.

– Seus pais? Pensei ter ouvido você dizer que sua mãe havia falecido e que morava com seu padrasto.

– Sim, isso… Mas, antes dela morrer nós éramos como uma família, ele não me tratava com arrogância e eu o tratava como pai.

– Entendo.

– Não fomos devidamente apresentados. Eu sou o Afonso.

– Eu sei quem você é. – O velho se levantou e começou a sair

– E o senhor, não vai me dizer quem é?

– Me chame de Camarão, ou como todos me chamam, de Palhaço Camarão.



O garoto lembra de haver pensado “Estive frente a frente com o Palhaço Camarão? E o melhor, sem toda aquela maquiagem, sem aquela roupa engraçada, e por falar nisso, ele não parece ser nem um pouco engraçado, pelo contrário, tem aquela cara ranzinza, parece estar sempre de mau humor.” Mas, aquilo não importava muito, mesmo que tenha se surpreendido ao conhecer o homem por trás do mito, nada tirava dele a alegria de ter conhecido aquele que por muitos anos foi a sua babá digital. As apresentações Brasil a fora do palhaço eram gravadas e disponibilizadas em fitas VHS, depois em DVD e por fim era possível ver o palhaço no Youtube, e Afonso lembra de ter acompanhado tudo isso, e ainda guardava com carinho a fita K7 que sua mãe havia comprado para ele no seu aniversário de seis anos. Ele sabia de cor todas as músicas e coreografias do palhaço, também pudera, assistira aquela fita centenas de milhares de vezes, até o videocassete da família estragar e ser substituído por um DVD meses depois.

Como não sabia fazer quase nada e muito menos ser um artista circense, Afonso começou pelo mais básico. Era responsável por lavar os banheiros, as louças, pregar panfletos na cidade e sair com o carro de som anunciando a última apresentação do famoso palhaço, e quando sobrava tempo ele procurava aprender de tudo um pouco, ele tentou pilotar uma moto no globo da morte, tentou se atirar do canhão, tentou subir no trapézio, tentou aprender alguns truques com cartas, tentou entonar a voz para parecer um locutor, mas em tudo ele falhou, só havia uma coisa que ele ainda não havia tentado, mas para isso, precisava da ajuda da única pessoa que não o queria por perto.


01 SEMANA ANTES DO SHOW

– Oi, posso entrar?

– Já entrou!

– Desculpa, a porta estava entreaberta.

– E por isso você se achou no direito de entrar?!

– Eu já pedi desculpas. O senhor quer que eu saia?

– Tanto faz.

Afonso se preparava para descer os dois degraus da escada do pequeno trailer de cor branco desbotado no qual a maior atração do circo Del Castro morava. O lugar por dentro cheirava tutti frutti, e tinha cortinas coloridas nas janelas. Na pia havia um bocado de louças sujas, parece que não eram lavadas há semanas. O velho não se misturava muito. Gostava de fazer sua própria comida e sempre fazia suas refeições sozinho em seu trailer. Embora fosse uma verdadeira celebridade, gostava da vida simples, doava quase tudo que ganhava para orfanatos, creches e hospitais que cuidavam de crianças com câncer. Raramente se permitia algum luxo, a última vez havia sido em 92 quando adquiriu para si um Fusca 79 que era sonho de infância.

O garoto encontrou o velho moribundo assistindo um programa qualquer na TV, ou pelo menos tentando assistir já que mudava de canal a cada dez segundos. Ele estava jogado de forma transversal na cama e num dos lados havia uma garrafa de café, o velho não bebia álcool há bastante tempo, nem fumava, mas tomava mais café do que qualquer outro ser vivo antes ou depois dele, ao lado da TV num cabide estava o manto do palhaço Camarão, a roupa colorida com o chapéu engraçado, e logo abaixo os sapatos enormes. Afonso ficou surpreso de se lembrar de tantos detalhes no pouco tempo de diálogo que teve com o velho antes de começar a descer os dois degraus do trailer.

– Ah garoto! Já que entrou me diga o que quer?

– Eu não quero incomodar, volto outra hora.

– Se era pra voltar outra hora, então porque veio?

– Desculpe senhor.

– Você já pediu inúmeras desculpas, vai me falar o que quer ou não.

– Sim, senhor. Lembra a primeira conversa que tivemos, quando o senhor disse que eu precisaria de um lugar?

– O que tem isso? Quer ficar no meu trailer? Aqui não tem espaço pra você garoto.

– Não, não é isso senhor.

– Então o que é?

– Eu fiquei pensando no que o senhor me disse. Que se eu quisesse morar no circo precisaria trabalhar. Eu venho ajudando o pessoal com os banheiros, louças, e tentei aprender todas as atividades do circo, todas menos uma.

Afonso reparou que em sua última frase uma gota de suor escorreu sobre a face do velho. Ele não tocou para sentir, mas lembra-se de haver pensado que era um suor frio. Os dois sabiam como aquela frase terminaria. Embora o velho o observasse de longe durante aquele tempo para ver se não era um impostor, esperava ter mais tempo para preparar o garoto para assumir o seu manto.

Embora não quisesse demonstrar, o velho também havia se afeiçoado ao garoto ao ver sua determinação e força de vontade. Ele vivera muitos anos e por mais que sua mente tivesse lhe pregado uma peça de início, ele soube reconhecer que o garoto tinha um bom coração e que realmente estava ali para ajudar, mas não queria revelar isso antes, achou que poderia criar expectativas demais no garoto e talvez uma certa pressão e por fim ser abandonado por ele como foi por seus afilhados, mas ele não tinha mais tempo, a apresentação final era dali três dias e toda a imprensa estava ciente que junto com a despedida do intérprete original do Palhaço Camarão, seria apresentado ao mundo aquele que seria seu sucessor.

– Você quer ser o novo Palhaço Camarão?

– Como… Como disse senhor?

– Você ouviu o que eu disse, não me faça perguntar de novo.

– Sim, eu ouvi o que o senhor disse, só não consigo acreditar. Desde criança eu sempre amei o Palhaço Camarão. Acho que ele traz vida e alegria para as nossas crianças. É um símbolo de amor, fé e felicidade. Eu não sei se sou digno de vestir essa roupa, ela representa muito para mim e para a maioria das crianças, a pessoa que vestir esse manto deverá colocar a felicidade das crianças em primeiro lugar, abrir mão da sua vida e vontades para servir a um bem maior. É muita responsabilidade, não sei se sou a pessoa certa.

– Não é.

A resposta do intérprete do palhaço chocou Afonso. No fim ele esperava alguma palavra de consolo por parte do velho, algo que o fizesse trocar de ideia, algo que o fizesse acreditar em si mesmo. Mas, o máximo que escutou foi uma resposta decepcionante que concordara com o que ele havia acabado de dizer. Embora tenha dito aquilo, Afonso acreditava que ele seria um ótimo Palhaço Camarão se tivesse a chance, e ele tinha, ou pelo menos teve, mas deixou escapar.

– Mas, pode ser. – Continuou o palhaço.

– O senhor acha mesmo?

– Não, mas eu não tenho muito tempo para treinar um substituto, então você tem que servir. Você já almoçou?

– Ainda não senhor.

– Pegue meu carro, vá até a cidade e traga duas marmitas, uma pra você e outra para mim, depois do almoço iniciaremos o nosso treino.

– Sim senhor, mas onde está o dinheiro?

– Dinheiro? – O velho sorriu. – Diga que é para o Palhaço Camarão.


– Deveria falar com ele papai.

– Eu? Eles que se resolvam pra lá.

– Mas, o senhor é o dono do circo, é sua obrigação fazer isso.

– Minha obrigação? A ideia dele ficar foi sua.

– Mas, todos nós votamos, ou o senhor esqueceu?

– Não, eu não esqueci. Mas, deveríamos ter checado a história para ver se era verídica, bem que o Camarão me alertou quanto a isso.

– A história pode não é falsa papai.

– Mas, também não é toda verdadeira.

– Eles estavam se dando tão bem, não é justo estragarmos tudo.

– Então é simples, não falamos nada e deixamos como está.

– Mas papai, o Camarão está no circo desde que foi fundado pelo vovô. Não falar para ele é quase uma traição.

– Minha filha, existe uma coisa em jogo, veja bem, ele ficaria arrasado. Primeiro por saber da criança e depois por saber daquele que já se foi.

– Mas, ele tem o direito de saber papai, afinal de contas, nada acontece por acaso.

– Minha filha, vamos esperar esse dia passar, já estamos com muita coisa na cabeça, amanhã ou depois falamos com ele, vamos esperar essa poeira baixar, até lá, nenhum comentário mocinha, estamos entendidos?

– Tá!

– Estamos entendidos Alice?

– Sim, papai.



– Você demorou garoto.

– Estava um caos na cidade. E olha, você é bem famoso por lá, para todo lado que eu ia só se falava no palhaço Camarão.

– As pessoas gostam mesmo desse palhaço.

– Desse palhaço?

– Sim, o palhaço Camarão é só um personagem, ou você acha que eu me visto assim no dia a dia e meu nome é Camarão?

– Não, claro que não senhor. A propósito, porque “Palhaço Camarão” ?

– Palhaço acho que é óbvio, certo? E Camarão porque falam que sou muito vermelho, mesmo sem maquiagem, que pareço um Camarão. Quando eu comecei, há muitos anos atrás, eu me apresentava como Palhaço Pangaré, ao lado do meu irmão que fazia o Palhaço Alazão.

– Nossa, eu nem sabia que o senhor tinha um irmão.

– Isso foi há muito tempo, nós perdemos contato depois que ele me traiu.

– Traiu? O que ele fez?

– Por acaso você é algum repórter garoto? Você veio aqui para conversar ou para aprender a ser palhaço?

– Na verdade eu vim aqui para fugir do meu padrasto.

– Sim, verdade. Anda, entra, vamos comer, depois você pode me ajudar a lavar as louças e aí começamos.



– Eu não acho justo Sophia, o papai quer esconder isso dele.

– O papai sabe o que faz Alice, se ele acha melhor não contar, é melhor não contar.

– Mas, ele tem o direito de saber, afinal de contas…

– Afinal de contas o que Alice, eu não te pedi para não comentar esse assunto?

– Desculpa papai, mas eu estou comentando com a minha irmã, ela não vai falar nada.

– Mesmo assim, pedi para não falar com ninguém e isso inclui a sua irmã.

– O senhor não confia em mim papai.

– Você sabe muito bem que não se trata disso.

– E se trata de que papai? O senhor até hoje me culpa pela mamãe ter ido embora. Eu era uma criança papai, eu tinha apenas nove anos, eu não sabia que se contasse pra ela que o senhor se encontrava escondido com a domadora de leões que isso acabaria com o casamento de vocês. Ou o senhor acha que foi fácil pra mim crescer sem mãe e com o senhor me julgando o tempo inteiro.

– Eu não quis dizer isso Sophia, mas esse é um segredo que não deve ser revelado, pelo menos não antes do show.

– É só nisso que o senhor pensa não é papai? No show, no dinheiro, na fama, provavelmente o senhor irá arrumar um jeito de explorar esse segredo para ganhar mais dinheiro.

Até aquele momento, Raul não havia pensado nessa possibilidade. Ele queria apenas guardar o segredo para garantir o show, mas sua filha Sophia, mesmo sem querer havia lhe dado uma ideia espetacular. Porque não revelar esse segredo no último show do intérprete original do Palhaço Camarão. Como ele dividia os direitos comerciais do palhaço, pensou em quanto dinheiro poderia faturar ao revelar esse segredo.

72 HORAS ANTES DO SHOW

No dia seguinte, logo pela manhã, tratou de mandar Eduardo a cidade para confeccionar e colar cartazes que diziam: “VENHAM PARA A ÚLTIMA APRESENTAÇÃO DO INTÉRPRETE ORIGINAL DO PALHAÇO CAMARÃO E NÃO PERCAM A REVELAÇÃO DE UM SEGREDO QUE FICOU GUARDADO POR DÉCADAS!!!”

É claro que o cartaz fez um alvoroço na cidade, principalmente porque foram colocados a venda novos ingressos, isso porque Raul conseguiu de última hora com o prefeito da cidade dois telões que seriam colocados do lado de fora da lona numa segunda tenda improvisada, onde os demais espectadores poderiam acompanhar o show.

 



– Está certo?

– Você não foi criança não garoto? Nunca aprendeu a dar estrelinha e cambalhota?

– Na verdade não. Quando eu era criança quebrei meu braço brincando, depois disso minha mãe passou a ser super protetora, então ela nunca me deixava brincar de coisas que poderiam me machucar, é por isso que eu nunca aprendi a dar estrelinha, cambalhota e até mesmo jogar futebol.

– Você não sabe jogar futebol?

– Não, quer dizer, sei.

– Sabe ou não sabe.

– Geralmente eu jogo como reserva do gandula.

Pela primeira vez desde que tinham se tornado amigos o palhaços riu. Riu não, ele gargalhou, bem alto, bem forte, até quase perder o fôlego. Ele riu até que seus olhos começassem a lacrimejar. O garoto sem entender muita coisa, começou a rir também e quando se deram conta os dois não estavam mais rindo da piada em si, mas um da risada do outro. Eles treinaram até o fim do dia, tirando as cambalhotas e estrelinhas, Afonso tirou o resto de letra, isso porque como ele mesmo disse, havia passado uma vida inteira aprendendo as músicas e coreografias do palhaço Camarão.


24 HORAS ANTES DO SHOW

– Pronto pai, já colei tudo.

– Obrigado meu filho.

– De nada pai.

– E o que disseram na cidade filho?

– Muitas coisas. As pessoas estão por aí criando teorias. Uns acreditam que o segredo vai ser o palhaço limpar a maquiagem no meio da apresentação revelando seu verdadeiro rosto.

– Isso é uma ótima ideia e pode ser a desculpa perfeita para quando o Camarão me questionar que segredo é esse que ficou guardado por décadas. O que mais disseram meu filho?

– Outros acreditam que ele de fato vai dizer o seu nome e se apresentar para todos, e algumas pessoas falam que não deve ser nada demais, que deve ser só sensacionalismo para vender mais ingressos.

– Na verdade, esse será o maior segredo já visto num picadeiro. Você acredita que até a imprensa me telefonou e pediram uma coletiva?

– Sério papai? Mas, isso será ótimo para os negócios.

– Sim meu filho. As vezes eu não entendo porque suas irmãs não se parecem nada com você Eduardo. Você realmente entendo de negócios meu filho.

– Não esquenta pai, tenho certeza que amanhã será um estouro.

– Você nem imagina o quanto meu filho.


– Foi você!

– Não, foi você.

– Eu não, foi você.

– Menino, meninos, parem de brigar. O que foi agora?

– O Pit comeu o pedaço de bolo que sua irmã deixou pra mim.

– Não é verdade Alice, o pedaço de bolo era meu e foi o Pot que comeu.

– Foi você!

– Não, foi você.

– Eu não, foi você.

– Ei, parem os dois. Vocês brigam por tudo, parecem crianças.

– Foi ele quem começou.

– Não, foi ele.

– Não, foi você.

– Mentira, foi você.

– Ei, parem os dois! Não foi o Pot que comeu o pedaço de bolo.

– Não falei, eu sabia que tinha sido você Pit, eu vou te pegar, você não me escapa.

– Para agora Pot! Também não foi o Pit que comeu o pedaço de bolo.

– Não?!

– Não!

– Então quem foi?

– Fui eu. Eu comi o pedaço de bolo, eu não sabia de quem era, estava com fome, então eu comi.

– Desculpa Alice.

– Desculpa Alice.

– Não precisam pedir desculpas, eu que devo pedir a vocês. Mais tarde meu pai vai a cidade, eu vou pedir para ele trazer um novo pedaço de bolo.

– Ebaaaaaa!

– Porque você está comemorando? O pedaço de bolo era meu.

– Não, era meu.

– Mentira, era meu.

– Não era, era meu.

– Chega! Pra não ter mais briga eu vou pedi para o papai trazer um bolo inteiro, assim fica metade pra cada um, ok?

– Ok, mas a metade maior é minha.

– Não existe metade maior Pot, metade é metade.

– Tudo bem Alice.

– Agora, se não se importam, eu preciso conversar com o Afonso a sós.

– Tudo bem Alice.

Pit e Pot saíram brigando, como sempre. Um dava um cascudo na cabeça do outro que revidava com um murro no braço. Depois o primeiro dava um chute na canela e o outro revidava com um pontapé na poupança, e assim os dois saíram. Quem via os dois brigando daquela forma por um pedaço de bolo nem poderia imaginar que os dois eram os melhores amigos um do outro. Sabe aquela coisa de gêmeos de um sentir o que o outro está sentindo. Parecia que com Pit e Pot essa conexão era ainda mais forte. Se o Pot ficava gripado, o Pit amanhecia de cama. Se o Pit comia alguma coisa que não fazia bem, o Pot passava a noite inteira você sabe onde, e vice e versa, apesar de sempre estarem implicando um com o outro por alguma coisa boba, os dois se amavam, respeitavam e se protegiam o tempo todo.

– Como sabia que eu estava aqui?

– Eu sou uma trapezista.

– E o que isso tem a ver?

– Tem tudo a ver. Como trapezista eu preciso estar sempre atenta e treinar minha percepção, por isso, mesmo que você tenha chegado de mansinho eu vi você chegando.

– Uau, você é boa mesmo.

– Obrigada.

– A propósito, obrigado por me proteger.

– Não foi nada. Se os dois desconfiassem que foi você quem comeu o bolo deles, a essa altura você estaria dentro daquele canhão com direção a marte.

– Eles não podem ser tão maldosos assim, podem?

– Se eu fosse você, não pagaria pra ver.

– Vou seguir seu conselho.

– É bom mesmo. Ei, você não deveria estar treinando?

– Eu estava, mas seu pai chegou lá e pediu para conversar com o Camarão a sós.

– A sós? E você sabe do que se trata?

– Não. Você conhece o velho né? Ele nem precisou pedir, só me deu uma encarada e eu soube que era hora de sair fora.

– Você fez bem.

– E você, o que faz quando não está treinando ou separando briga de anões?

Alice riu.

– Ah, eu saio por aí, vou dar uma volta.

– Uma volta? Dentro do circo? Porque até onde eu sei, seu pai não te deixa colocar os pés para fora do circo.

– E quem disse que eu só faço o que ele deixa? Agora mesmo eu estou com vontade de dar uma volta, você vem?

– Claro.


– Ah, eu não sei Raul. Não acho que seja uma boa ideia.

– Ah vamos Camarão, não existe uma maneira melhor de encerrar o show.

– Mas, eu guardei esse segredo tantos anos, porque haveria de revelar agora?

– Porque essa é a maneira de encerrar sua carreira com chave de ouro.

– Eu preciso pensar a respeito.

– Acho que você não tem muito tempo, o show é amanhã a noite e outra, já mandei colar cartazes por toda cidade.

– Você não deveria ter feito isso sem antes me consultar Raul.

– Eu sou o dono do circo Camarão.

– Mas sem mim, não existiria mais circo Raul, ou você esqueceu de antes de mim o seu pai estava praticamente falido.

– Não, desculpa. Eu não deveria ter falado dessa forma. O que eu quis dizer é que o público está louco para te ver. Vendemos mais ingressos, estão todos querendo conhecer ou ver pela última vez o Palhaço Camarão.

– Não será a última vez.

– Eu sei, mas sem você não será a mesma coisa. E todos sabem disso também.

– Como venderam mais ingressos se já estávamos com lotação esgotada há muitos meses? Você não vai abrir mais uma sessão não é Raul? Eu me recuso a fazer uma sessão a mais, esse não é o nosso combinado.

– Fique tranquilo, não vamos abrir uma nova sessão.

– Ah não? E como pretende colocar toda essa gente para assistir o show? De pé?

– Não, claro que não Camarão. Eu conversei com o prefeito da cidade e ele me cedeu dois telões de cinema que serão acoplados a lona principal e estenderemos uma segunda lona, aquela nossa lona antiga.

– A que tinha uma foto minha e do meu irmão?

– Essa mesma.

– Me recuso a fazer o show assim.

– Por favor não comece Camarão, fazem tantos anos, achei que já o tivesse perdoado.

– Perdoado? Ele fugiu com a mulher que eu amava e com o filho que eu jamais conheci, jamais tive a chance de segurar nos braços. O que você faria em meu lugar.

– Eu não sei Camarão. Mas, como você mesmo disse. Esse palhaço representa alegria e esperança para essas crianças. E a alegria delas deve ser colocado em primeiro lugar, antes mesmo de suas próprias vontades, essas sempre foram as suas palavras meu amigo.

– É muito baixo da sua parte usar minhas palavras contra mim Raul, mas você não deixa de estar certo.

– Então fará o show.

– Sim, farei. Mas, não por você, e sim pelas crianças.

– Que seja. Agora vou chamar o garoto para vocês continuarem.


– Esse foi meu primeiro beijo.

– O meu também.

– Você não precisa mentir pra mim só pra me agradar Afonso.

– Não, não é mentira. Eu sempre tive vergonha de me aproximar das garotas, quando minha mãe era viva, eu acreditava que só ela me achava bonito, e porque ela tinha que achar, afinal de contas era minha mãe. E depois que ela se foi, eu não chegava perto das garotas porque eu sempre estava cheio de marcas vermelhas e roxas em todo corpo.

– Eu não sei nem o que dizer. Mas, gostaria de perguntar uma coisa.

– O que quiser Alice.

– Existe alguma parte dessa história que você não me contou? Ou, tudo que você nos falou é verdade ou você inventou  ou ocultou alguma parte?

– Porque você está perguntando isso agora?

– Eu não deveria te contar, mas meu pai sabe sobre você e…

– Afonso?! Afonso?

– Estou aqui senhor Raul.

– Até que enfim te encontrei rapaz, e veja só, na companhia de minha filha.

– Desculpa senhor, ela só estava me mostrando como se deve escolher o melhor terreno para se montar o circo.

– Ah sim, ela sempre foi muito cuidadosa com isso mesmo. É melhor você ir andando, o Camarão está te esperando para reiniciar o treinamento.

– Já estou indo senhor.

Enquanto Afonso caminhava rumo ao trailer do Palhaço Camarão, refletia sobre as palavras de Alice. O que será que o pai dela sabia, será que ele havia descoberto toda a verdade, ou será que ele apenas desconfiava de alguma coisa. O rapaz pensou em fugir, mas afinal de contas, fugir pra onde, ele não tinha pra onde ir, não tinha pra onde voltar, só restava confiar e esperar pelo que viria a seguir.

– Você não contou nada, contou Alice?

– Não papai, eu não contei nada.

– Tem certeza?

– Sim papai.

– Tudo bem, acredito em você. Que tal ajudar a sua irmã a preparar o jantar?

– Claro papai, já estou indo.

– Espere, porque está com esse sorriso?

– Sor… Sorri…. Sorriso? Co…. Como…. Como assim sorriso?

– Esse sorriso estampado no rosto.

– Ué, é meu sorriso de sempre papai.

– Não é não Alice. O que você e aquele rapaz aprontaram?

– Nada papai, nós só conversamos. Eu vou indo papai, preciso ajudar Sophia com o jantar, lembra.

– Sim, lembro. Pode ir.



– Demorou garoto.

– Estava me despedindo da Alice.

– É melhor se despedir mesmo.

– O que? Como assim?

– Aquela garota é encrenca.

– Encrenca?

– Sim, ela é filha do Raul e ele não gosta que os jovens se engracem para o lado da filha dele.

– Ah sim, entendi. E então, podemos continuar o treinamento?

– Claro. Quer experimentar agora?

– Experimentar o que?

– Lasanha.

– Lasanha? Quero.

– Não seja bobo garoto! Não tem lasanha nenhuma.

– Mas, você me perguntou se eu queria.

– Você precisa saber identificar sarcasmo. Minha pergunta é se você queria experimentar agora a roupa do Palhaço Camarão?

– Posso?

– Não!

– Então pra que pergunta?

– Vou ter que te ensinar muito sobre sarcasmo. É claro que pode, se te ofereci, é por que pode.

– Então eu quero.


– Mandou me chamar senhor?

– Na verdade eu mandei chamar o Pit.

– Eu sou o Pit.

– Então, porque está vestido como Pot?

– É uma longa história, tudo começou quando…

– Ah, não importa. Trouxe o que eu te pedi?

– Trouxe, está bem aqui.

– E quanto foi?

– Nada.

– Nada?

– Nada.

– Como conseguiu isso?

– Digamos que eu tenha dito que era um presente para o Palhaço Camarão.

– Pit, você é um gênio.

– Obrigado senhor.

– Agora vá andando antes que alguém veja você aqui.

– Já estou indo senhor.


12 HORAS ANTES DO SHOW

– Essa maquiagem coça.

– Ora, fique quieto garoto. Assim eu não termino a maquiagem e vai coçar mais.

– Como o senhor aguenta isso?

– Já me acostumei, agora fique quieto, estou quase acabando, falta só o retoque na boca e… Pronto. Pode olhar no espelho agora.

Afonso ficou boquiaberto quando se viu vestido e maquiado a primeira vez como Palhaço Camarão. Para ele, aquilo era uma honra sem igual, não somente por vestir aquela roupa, mas por ter sido treinado pelo Palhaço Camarão em pessoa. Nada poderia dar errado, a menos que de fato alguém tivesse descoberto seu segredo, mas ele preferiu não dar vazão a esses pensamentos. Dali 12 horas ele subiria ao palco e seria anunciado para o mundo inteiro como o novo Palhaço Camarão, honra que ele jamais sonhou alcançar, na verdade, ele sempre sonhou com aquele encontro, estar frente a frente com o Palhaço Camarão, mas nem em sonho ele poderia imaginar que ele mesmo se tornaria o tal palhaço.

– E então, como estou?

– Você se parece comigo.

– Isso quer dizer que estou bem?

– Olhe para mim garoto, não passo de um velho moribundo. Você acha que se parecer comigo é estar bem?

– Acho.

A resposta do garoto quebrou o Palhaço Camarão, ele não esperava por aquilo e segurou quando as lágrimas se aglomeraram em seus olhos. Ele deu uma tosse falsa e foi para o banheiro, não queria chorar na frente do garoto. Lá dentro, deu mais algumas tosses falsas para disfarçar o choro, limpou os olhos, e quando se preparava para sair, abriu a porta do espelho do banheiro e pegou uma correntinha que estava lá dentro.

– Quero que fique com isto.

– E o que é?

– Uma correntinha, foi da minha esposa. Eu pretendia passar para o meu filho que nunca conheci, ela fugiu quando estava grávida, mas como já perdi as esperanças de encontrá-lo, decidi que era melhor ficar contigo.

– É uma honra senhor, mas não sei se posso aceitá-lo.

– E vai fazer o que garoto? Rejeitar o presente desse velho moribundo?

– Não senhor.

– Então coloque logo isso. Ela me deu essa correntinha no dia que me tornei o Palhaço Camarão, disse que me daria sorte, e de certa forma ela estava certa. Pena que ela fugiu com meu irmão alguns meses depois, e levou consigo o filho que eu nunca conheci, na verdade, eu nem sei se aquele filho era meu, poderia ser do meu irmão.

– Era seu!

– Como pode saber garoto, você nem a conheceu.

– Na verdade, eu conheci.

– Como assim, o que está dizendo garoto?

– Vou me apresentar. Eu me chamo Afonso Henrique de Padilha Dantas.

– Henrique Padilha Dantas?

– Sim! Afonso era o nome do meu pai e Henrique de Padilha Dantas o nome do meu avô, ou como é conhecido, Palhaço Camarão.

– Isso é uma mentira! Você é um farsante, eu disse ao Raul, sempre desconfiei de você garoto. Tire logo essa roupa e essa maquiagem, saia da minha frente, saia!

– Mas vovô.

– Não me chame assim. Você não é meu neto. E eu não tenho filho.

– O senhor está nervoso, quer que eu lhe prepare uma água com açúcar.

– A única coisa que quero é que você saia da minha frente seu farsante.

– Mas, eu não sou farsante, estou te contando a verdade. Eu sou mesmo seu neto.

– Você não é meu neto e se repetir isso mais uma vez eu mato você.

O Palhaço Camarão começou a apertar o pescoço de Afonso com as duas mãos e enquanto o fazia, preferia xingamentos e palavrões em direção ao garoto que parecia estar bastante amedrontado. Era possível escutar os gritos do palhaço de longe, não demorou muito até que todos se aglomerassem em volta do seu trailer, mas ninguém ousava entrar, nem mesmo Raul ou Alice.

– Ele deve ter contado a verdade papai.

– Óh não, isso pode colocar tudo a perder.

– O Camarão está quase matando o garoto e você só pensa no show papai.

– Cale-se Sophia. Se acha tão ruim o show, porque não vai embora?

– Pois é isso mesmo que vou fazer papai, aliás, sr. Raul, porque você nunca foi mesmo meu pai. Você não vai interferir porque não sabe de fato o que é uma família.

A menina preparava-se para sair quando Alice lançou um olhar de condenação em direção ao pai. Esse, por sua vez, entendeu o recado e foi atrás de Sophia na tentativa de fazer a filha ficar. Enquanto os dois conversavam, Alice se aproximou mais e mais do trailer, até entrar sorrateiramente.

– Parem agora! Solta ele Camarão, ele está falando a verdade.

– Saia daqui Alice.

– Não saio.

– Estou mandando.

– O senhor não manda em mim, além disso, o circo é meu.

– O circo não é seu, é do seu pai.

– Mas, está no meu nome. Eu estou falando, solta ele agora Camarão.

– A sua princesinha veio te defender foi farsante?

Afonso tentava falar, mas a essa altura já estava perdendo totalmente o fôlego. Suas mãos tremiam, suas pernas estavam ficando dormente e ele fazia força para conseguir puxar o ar pelas narinas ou pela boca, ele estava vivendo momentos de uma verdadeira agonia, no começo ele até poderia ter tentado lutar ou resistir, mas em respeito ao avô, apenas deixou-se ser dominado por ele.

– Pare agora mesmo Camarão. Ele já sofreu demais, deveria se envergonhar, não é você que sempre fala pra colocar as crianças em primeiro lugar? E agora está maltratando um adolescente, e não somente isso, está quase matando seu próprio neto.

Ao ouvir as palavras de Alice, Camarão foi afrouxando as mãos no pescoço do garoto, até libertá-lo de vez. O garoto caiu no chão já inconsciente e Alice correu para socorrê-lo. Após uma massagem cardíaca e respiração boca a boca, o garoto voltou a si, um pouco atordoado, mas ao ver o palhaço em pé na sua frente, ele só sabia chorar. Além de ter passado por momentos angustiantes, o garoto também se lembrara de todas as surras que levara de seu padrasto e naquele momento temeu pela própria vida.

– E… Eu… Eu… N… Nã… Não… S… Sou… Fars… Farsante – O garoto se esforçava para falar.

– Não diga nada Afonso, nada que disser vai fazê-lo mudar de ideia. Eu acredito em você, meu pai acredita, minha irmã acredita, nós sabemos que você fala a verdade.

– Então quer dizer que todos sabiam disso menos eu?

– Não. Meu pai descobriu e me contou e eu contei para a minha irmã.

– E como seu pai descobriu?

– Ele se encontrou com seu irmão.

– Aquele miserável ainda está vivo?

– Sim. Vivo e arrependido do que fez com você.

– Eu duvido.

– Ele criou o seu filho como se fosse dele e não te procurou porque sabia que um escândalo como esse poderia manchar sua carreira.

– Mas, eu tinha o direito.

– Sim, ele sabe. Mas, nunca escondeu do seu filho ou do seu neto a verdade.

– E onde está meu filho? Por que ele não veio também.

– El… Ele… Mor… Morreu.

Quando Afonso terminou essas palavras, o Palhaço Camarão desabou de vez. Ele sentou-se no chão ao lado do neto (que num primeiro momento reuniu suas últimas forças para se arrastar para longe do palhaço) o abraçou, e começou a implorar pelo seu perdão. Alice achou melhor deixar os dois a sós, e não pode deixar de chorar enquanto descia as escadas. Eles tem muito para conversar e resolver Pensou ela.

– Acho melhor cancelarmos o show.

– Porque papai.

– Não está vendo o que está acontecendo Eduardo?

– Sim, mas o circo é bem mais do que o Palhaço Camarão.

– A decisão não é só minha. Vou deixar sua irmã decidir, até porque, esse circo é dela.

– Pensei que o circo fosse de todos nós papai.

– Como hoje é dia de revelar segredos, vou lhes contar o que eu e Alice guardamos há anos.

– Segredo? – Sophia e Eduardo falaram quase em coro.

– Sim. Quando Alice tinha dez anos de idade, ela ganhou do Palhaço Camarão um colar de diamantes caríssimo. Eu quis vendê-lo na mesma hora, até porque o circo estava passando por dificuldades.

– Dificuldades? Mas, o senhor sempre disse que o Palhaço Camarão era a nossa galinha dos ovos de ouro.

– Mas, nem sempre foi assim. Ele passou a ser quando adquirimos metade dos direitos comerciais e de uso da imagem, antes disso, o Palhaço Camarão só estava conosco pela gratidão que tinha ao seu avô, o lucro dele não vinha para o circo.

– E como conseguiu os direitos do palhaço Papai?

– Acho que não precisamos falar disso Alice.

– Você disse que contaria seus segredos.

– Pois bem. Um dia, após a esposa do Camarão ter fugido com seu irmão, eu vi que ele estava bebendo muito e resolvi ir até lá para oferecer um ombro amigo. Mas, quando cheguei lá ele me mandou sair, praticamente me expulsou e disse que desistiria de tudo, que deixaria de ser o Palhaço Camarão. E já naquela época, as pessoas estavam perdendo o interesso pelo circo, muitas delas só vinham para ver o palhaço. Perder o Camarão era praticamente decretar a falência do circo. Foi aí que eu fiz uma coisa que me arrependo até hoje, eu peguei minha velha máquina de escrever e redigi um documento onde o Camarão abria mão de metade dos direitos do palhaço e os cedia a mim e ao Circo Del Castro. No outro dia pela manhã, fui no cartório da cidade onde estávamos e reconheci firma da minha assinatura e da dele, quando ele se recuperou da ressaca, quis sair do circo e desistir do palhaço, mas eu mostrei a ele o documento e disse que ele estava amarrado a mim e que se ele não quisesse ser o palhaço, eu iria contratar o primeiro idiota que aparecesse só para vestir aquela roupa. Como Camarão sempre colocava as crianças em primeiro lugar, ele me disse que cumpriria o que estava escrito naquele contrato até ele mesmo ser capaz de achar e treinar um substituto.

– Mas isso é terrível papai. Você sabia disso Alice?

– Não, me sinto enojada ao saber.

– Ah corta essa Alice, o papai sempre te conta tudo.

– Mas, dessa vez eu não contei. Eu me sentia tão envergonhado com tudo isso que não tive coragem de contar.

– Mas, o que isso tem a ver com o fato da Alice ser dona do circo?

– Quando o circo estava a beira da falência, o Camarão comprou esse presente para sua irmã. Isso aconteceu um pouco antes da mãe de vocês nos deixar. Nós discutimos bastante sobre o que fazer com aquele presente, ela achava que o colar deveria ficar com sua irmã e já eu achava que deveríamos vender para pagar as dívidas do circo. A discussão durou a noite toda, e quando amanheceu eu percebi que ela havia ido embora. No outro dia bem cedo eu fui a loja de penhores e acabei vendendo o colar e pagando as dívidas do circo. Quando a irmã de vocês fez quinze anos, eu contei a ela toda a verdade e disse que compraria outro colar para colocar no lugar. Ela me disse que não precisava, mas eu me senti tão mal com aquilo que fiz um documento com meus advogados transferindo para sua irmã em vida o circo e todo o patrimônio da nossa família. Eu sei que deveria ter pensando em vocês dois também Eduardo e Sophia, mas a sua irmã é uma menina doce e honesta, tenho certeza que quando eu me for, a parte de vocês estará garantida.

– Você é um monstro papai, esses anos todos me fez acreditar que a mamãe havia ido embora por minha causa. Eu não aguento mais ficar no mesmo ambiente que você. – Sophia saiu nervosa e chorando, o pai tentou ir atrás mas foi impedido por Alice.

– Deixa, ela precisa ficar só por um tempo.

Dita essas palavras, todos puderam ver Afonso e Henrique saírem do trailer abraçados e sorrindo. A maquiagem de Afonso estava toda borrada e as mãos de Henrique sujas de tinta e também manchas de tinta por toda sua camisa.

– O que aconteceu aqui? Tá todo mundo com cara de velório. Eu não morri gente, na verdade eu e meu avô nos entendemos, não é mesmo vovô?

– É sim garoto, digo, é sim meu neto.

Os dois se abraçaram enquanto Alice corria ao encontro deles para explicar-lhes o que havia ocorrido, faltando menos de dez horas para o show, ninguém ali de fato sabia se o espetáculo daquela noite iria ou não acontecer, mas uma coisa tinham certeza, muita água havia corrido naquele dia e muito roupa suja havia sido lavada, e junto com ela, a alma de muitos que estavam ali presente.



02 HORAS PARA O SHOW

Após um longo dia de conversas, discussões, brigas, pedidos de perdão, choros e risos, o maior impasse estava a frente. Continuar ou não com o show, embora todos aparentassem terem se perdoado mutualmente, havia um clima estranho e pesado do Circo Del Castro. Alice havia convocado uma votação para duas horas antes do show, era o tempo que todos precisavam para se arrumarem e entregarem o melhor espetáculo de todos e também o encerramento de uma era.

A votação havia dado empate, a decisão iria recair sobre o novato, o avô havia votado contra o show continuar, Alice a favor do show. Ele não queria decepcionar nenhum dos dois, tentou abdicar do direito de voto, mas como não deixaram, ele teve que votar. Mas, antes que anunciasse seu voto, exigiu que Raul rasgasse o documento que mantinha preso o Palhaço Camarão ao Circo Del Castro e ao próprio Raul. Mesmo relutante, mas convencido pela filha, Raul entregou o documento na mão de Afonso que o tornou em picadinhos.

Afonso sabia o peso que estava sobre si, e sabia que qual fosse sua decisão, uma das duas pessoas que ele gostava, sairia machucada. Depois que rasgou o documento e antes de anunciar sua decisão, passaram-se apenas dez segundos, mas aquilo parecia uma eternidade, ele encarou a roupa do palhaço que estava sobre a mesa, olhou para todos naquela reunião, mas fixamente para Camarão e Alice e em seguida começou:

– Não é simples anunciar meu voto. Mas, se preciso fazê-lo, quero primeiro explicar as razões que me levaram a essa decisão. Eu sempre vi no Palhaço Camarão um exemplo de amor, bondade, fé e esperança. E isso, quando era bem pequenininho, antes mesmo de saber que ele era meu avô. Quando vim pra cá, vocês me deram amor, carinho e um lar. Me acolheram como um dos seus, vocês cuidaram de mim e me incentivaram a ser melhor. Hoje posso dizer que sou uma pessoa melhor e devo isso a cada um de vocês. Esse palhaço representa muito mais que uma pessoa, representa a fé de cada um, o amor que o ser humano há muito perdeu. Não continuar esse show seria dizer aquelas crianças que o exemplo delas de amor e bondade acabou. Mas, continuar da forma como estamos, com esse clima pesado, é oferecer a elas apenas uma parte do que temos e somos, e elas não merecem isso, elas merecem o nosso melhor. Por isso, eu darei meu voto dessa forma, estamos empatados meio a meio, eu só continuo esse show se formos uma unidade, uma unanimidade, ou estão todos dentro ou todos fora, então o que vai ser?

– Eu achei linda suas palavras garoto, embora eu não acredite mais nesse circo ou no Raul, estou com você e com essas crianças, meu neto. Eu quero fazer esse show.

– Obrigado vovô. Pot, sua vez.

– Se o Camarão vai eu também vou.

– Puxa-Saco.

– Não é hora disso Pit, o Pot tem direito de se manifestar.

– Desculpa Alice.

– Tony, André?

– Estamos contigo nessa Afonso, nós topamos fazer o show.

– Obrigado rapazes. Bom, agora só falta você Sophia. Eu te deixei por último de propósito, sei que você mais do que ninguém sofreu anos e anos por segredos do passado. Sei que você foi muito machucada, mas também sei que você tem um coração maior do que todos nessa sala. E sei que o amor que você tem por esse circo, pela sua família e por essas crianças, mal cabe nesse coração. Mas, como eu disse, seremos todos ou nenhum, eu vou te apoiar seja qual for sua decisão, pode ficar tranquila, você tem um amigo aqui, ninguém vai te recriminar ou brigar com você se quiser parar com o show, antes disso, vão ter que passar por cima de mim, eu a protejo Sophia, a decisão é sua, quer continuar com o show ou não?

– Pelo papai eu jamais faria esse show. Eu o perdoei, mas não acho que ele deve continuar com isso. Mas, por você e pelas crianças eu também farei.

– Pois bem, se estão todos de acordo, eu também estou. Então, mãos a obra, temos um show para fazer.


HORA DO SHOW

– Respeitável público! Está começando agora o inigualável, o inimaginável, o incomparável, maior e melhor show da face da terra no Circo Del Castro!!! Desafiando todos os limites da segurança, estão eles, os motociclistas do globo da morte.

O show transcorria naturalmente, a plateia estava delirando acompanhando os motociclistas com suas manobras radicais dentro do globo da morte. As vezes parecia que as motocicletas iriam se chocar, mas os pilotos experientes tinham tudo sobre controle. Nos bastidores, Raul e Henrique acertavam os últimos detalhes da apresentação.

– Quer mesmo fazer isso?

– Agora que sei toda verdade, quero sim Raul. Mas, não consigo acreditar que você ia me enganar dessa forma.

– Me perdoe, eu pensei que se dissesse a verdade você não iria querer colaborar.

– Mas, foi traição o que você fez. Inventar uma histórias dessas para mim e no picadeiro fazer algo completamente diferente.

– Eu sei, mas quando pedi a você que tirasse sua maquiagem ao vivo revelando o homem por trás do palhaço, eu sabia que iria ser um grande espetáculo.

– Mas, o verdadeiro espetáculo estaria por trás, não é? Você queria revelar a todos que Afonso é meu neto e assim expor eu e o garoto. Isso foi baixo, até mesmo pra você Raul.

– Eu sei, me perdoe Henrique, tem todo direito de ficar magoado comigo.

– Não, não tenho. Mesmo que você tenha pisado na bola feio comigo, o garoto me ensinou muito sobre o perdão. Mesmo eu tendo esganado ele, ainda assim ele me perdoou, esse garoto tem um coração de ouro, vai dar muito certo com sua filha.

– Com minha filha, como assim, que história é essa Camarão?

– É melhor deixar pra lá, temos um show a fazer. Não está na hora de você anunciar o Pit e o Pot não?

– Sim, é mesmo, mas essa conversa não acabou, quero saber que negócio é esse da minha filha com seu neto.



– Foi muito legal o que você fez lá dentro hoje.

– Ah, obrigado. Aquilo não foi nada.

– Foi sim, minha irmã precisava daquilo, você foi um verdadeiro herói para ela.

– Talvez ela nunca tivesse tido alguém para defendê-la.

– Posso te confessar uma coisa?

– Claro.

– Eu fiquei até com um pouquinho de ciúmes.

– Não precisa, você é forte o bastante pra se defender sozinha.

– Você entendeu seu bobo.

– Entendi sim. Mas, não precisa se preocupar mesmo, eu só tenho olhos para você.

Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, enquanto seus rostos se aproximavam um do outro. Afonso, agora vestido como Palhaço Camarão, tocou o rosto de Alice com suas luvas brancas e começou a acariciá-la. Faz cosquinha Ela pensou, mas não quis comentar. Ela por sua vez entrelaçou uma de suas mãos com a do palhaço e ficou lhe acariciando com o polegar, até que lentamente os lábios se tocaram, ela deu uma leve mordida no lábio inferior do palhaço e em seguida abriu seus lábios enquanto o palhaço repetia o movimento, e mesmo sem se preocuparem com a maquiagem de ambos, os dois se renderam a um beijo ardente e demorado.



– Respeitável Público!!! Voltem seus olhos agora para esses dois homens corajosos, arriscando suas próprias vidas, eles serão balas humanas num desafio perigosíssimo. Eles terão que atravessar todo o circo e mergulharem naquela piscina de bolinhas, mas muita atenção, todo cuidado é pouco, um descuido e tudo pode ir por água abaixo, uma salva de palmas para os irmãos Pit e Pot!


Enquanto a plateia ovacionava os irmãos, Raul entrou nos bastidores para beber água e pode ver Alice e Afonso se beijando, ao contrário do que pensava, ele não sentiu raiva, pelo contrário, um sorriso de orelha a orelha brotou do seu rosto e mesmo sem vontade de atrapalhar os dois, teve que interrompê-los.

– Querida, você é a próxima.

– papai?! Ah, claro… Já estou indo.

Alice saiu, mas não sem antes soprar um beijinho na direção do garoto vestido de palhaço. Ele por sua vez, pegou o beijinho no ar com uma das mãos e o guardou no coração, meio sem graça e não querendo olhar para Raul, o jovem falou:

– Nós iríamos contar.

– Não se preocupe rapaz. Faço muito gosto de vocês dois juntos.

– Obrigado senhor.

– Não precisa agradecer. Acho melhor você falar com seu avô, é a última apresentação dele, ele pode estar precisando de um apoio. Além disso, ele entra após o trapézio.

– Ah sim, obrigado, irei falar com ele.

Afonso preparava-se para sair quando Raul o segurou pelo braço.

– Palhaço Camarão?

– Senhor?

– Boa sorte hoje.

– Obrigado!

Raul saiu para anunciar a próxima atração, enquanto Afonso se dirigia em direção ao avô.



– Respeitável público! Agora os três irmãos mais queridos no mundo circense, tenho o prazer de apresentar, meus filhos, os trapezistas Del Castro.


– Está tudo bem vovô?

– Está sim garoto. Obrigado por perguntar. Vovô, ainda é estranho ouvir você me chamando assim.

– O senhor quer que eu pare?

– Quero.

– Ah, é sarcasmo, né?

– É sim, você aprendeu hein garoto. – Na verdade, não era sarcasmo daquela vez, mas Henrique não queria estragar as coisas com o garoto.

– Aprendi sim. Aliás, não somente isso, aprendi muita coisa com o senhor nesses dias, obrigado por tudo.

– Ah pare com isso garoto, quer me fazer chorar antes do show. Não dá tempo de retocar a maquiagem. E você, está nervoso?

– Muito, mas sei que vou me sair bem.

– Ah é, e como sabe?

– Simples, aprendi com o melhor.

– Você quer mesmo me fazer chorar não é.

– Talvez eu queira.

– Como assim?

– Me perdoe por isso vovô, mas tem alguém aqui que quer muito vê-lo, vou deixá-los a sós por um instante.

Afonso havia chamando Geovane, irmão de Henrique e que havia feito dupla com ele no início da carreira, quando os dois se apresentavam como Palhaço Pangaré e Palhaço Alazão. Quando viu o irmão o palhaço encheu-se de ira, ele não queria ter aquele encontro, principalmente naquele momento, faltavam apenas alguns minutos para o seu último show, ele precisava estar concentrado e em paz para entregar o melhor de si uma última vez para aquelas crianças. Com uma voz bem grossa e nervosa, Camarão gritou:

– Você não tinha o direito de estar aqui.

– Eu sei meu irmão.

– Então por que veio?

– Vim a pedido do Afonso e também porque queria resolver isso contigo de uma vez por todas.

– Eu não quero resolver nada. Eu só quero que você suma daqui, preciso me preparar para o meu show.

– Se você quer que eu vá, eu irei, só peço que me escute por cinco minutos antes.

– Não te darei cinco minutos do meu tempo, você não merece.

– Eu sei disso, então me dê apenas três minutos.

– Dois e cinquenta e nove, dois e cinquenta e oito, dois e cinquenta e sete…

– Eu fui um covarde e um traidor. Eu traí você, traí nossa família, nosso sangue. Mas, não tem um só dia dos últimos quarenta anos que eu não me arrependa disso. Eu me apaixonei pela sua esposa e ela se apaixonou por mim e isso foi uma fatalidade, mas nós éramos jovens e inconsequentes. Nós fugimos para longe e lá descobrimos que a Tereza estava grávida de quatro meses, ela ainda quis voltar, mas eu a impedi. Conhecendo você como conheço, dificilmente você acreditaria que o filho era seu. Por isso ficamos por lá. Mas, desde que o menino começou a entender da vida, explicamos para ele que eu era tio dele e que você era o verdadeiro pai. Nós sempre o levamos disfarçado para os seus shows e compramos para ele todas as fitas k7 que saiam suas, ele sempre esteve perto de você.

– E… C… Com… Como ele morreu?

– Foi um pouco depois do Afonso nascer, ele foi vitima de uma bala perdida. Foi socorrido, mas morreu a caminho do hospital. Depois daquele dia, nos mudamos para a mesma rua onde Afonso morava para dar um apoio melhor a mãe dele, e quando ela se casou novamente, decidimos que era hora de deixar a família dele seguir sua vida.

– E você sabia que o garoto era espancado pelo padrasto?

– Claro que não. Quando a mãe dele morreu, o padrasto se mudou com ele e nós perdemos o contato. O garoto me achou quando já estava morando aqui com vocês.

– Porque você fez isso? Você era meu irmão. Ela era só uma mulher, mas você era meu irmão, sangue do meu sangue.

– Eu fiz porque fui fraco, porque estava apaixonado, por amor. Mas, eu sempre quis te encontrar e pedir perdão pelo que eu fiz, você sempre foi meu herói e me doía bastante ficar afastado de você. Só quero que me perdoe meu irmão.

– Seu tempo acabou. Eu preciso ir.

– Tudo bem irmão, o Afonso tem meu endereço caso você queira me visitar.

– Não. Fique, assista o show. Conversamos no final.

– Por você eu fico meu irmão.


– Você estava linda lá em cima.

– Você me viu?

– Sim, eu fiquei escondido atrás das cortinas. Não podia deixar ninguém ver o outro Palhaço Camarão.

– Você não é o outro Palhaço Camarão, você é o Palhaço Camarão. Falando nisso, seu avô já deve estar quase entrando, tomara que ele quebre a perna.

– Que isso Alice. O que meu avô te fez para desejar isso pra ele.

– Não, não é isso que está pensando seu bobo. Quebrar a perna na linguagem do circo, significa desejar boa sorte.

– Ah bom, aí sim. Tomara mesmo que ele quebre a perna.


Respeitável Público!!! Agora a atração mais esperada da noite, o palhaço mais querido do mundo, em sua última apresentação e revelando a todos um segredo que ele guarda há muito tempo e um que acaba de descobrir, com vocês o Palhaço Camarão!

A plateia aplaudiu de pé a entrada do palhaço, logo que chegou ele pegou o microfone das mãos do apresentador e começou a cantar uma de suas músicas. Enquanto cantava ele fazia coreografias e brincava com a plateia. Beijava a face de bebês, apertava o nariz das crianças, roubava pipoca dos adultos, fazia cambalhotas no picadeiro, contava piadas, corria atrás dos irmãos Pit e Pot, tirava coelhos das cartolas de Makkoo que não havia se apresentado após torcer o tornozelo, e recomeçava tudo outra vez ao iniciar uma nova música. Ao todo o palhaço cantou treze músicas e colocou todo mundo pra dançar com ele as coreografias, foi um verdadeiro show, após finalizar a última música, o palhaço pediu que a plateia se sentasse e que se possível ficassem em silêncio, pois ele faria duas revelações que deixaria todos os presentes surpresos. É claro que a plateia o obedeceu no mesmo instante.


– É agora

– Agora?

– Sim, seu avô vai tirar a maquiagem ao vivo e em seguida vai te chamar. Você não estava sabendo?

– Eu sabia que seria ele quem me chamaria, mas não sabia que ele iria tirar a maquiagem para todos verem.

– Então prepare-se garotão, você é o próximo.

– Eu estava preparado até você dizer isso.


– Primeiramente eu gostaria de me apresentar, como vocês sabem, eu tenho um nome e não é Camarão.

A platéia riu.

– Meu nome verdadeiro é Henrique de Padilha Dantas. Eu sou palhaço desde que nasci, mas profissionalmente desde os meus treze anos. Eu nem sempre fui o Palhaço Camarão, antes eu era o palhaço Pangaré e meu irmão que aqui está essa noite era o palhaço Alazão. Nós dois éramos simples palhaços até sermos descobertos pelo senhor Elias Del Castro, fundador desse circo. O senhor Elias estava em apuros quando nos descobriu, mas mesmo assim ele nos acolheu e nos transformou em grandes atrações, e assim foi, viajamos todo o Brasil e alguns países vizinhos, até que por uma briga em família, meu irmão e eu nos separamos e eu criei o Palhaço Camarão. Na época, todos já me chamavam de Camarão porque eu sou muito vermelho, como vocês poderão ver (Henrique tira um lenço do bolso e começa a limpar a maquiagem). Hoje é um dia muito importante pra mim, não somente por ser meu último show. Mas, hoje eu pude fazer as pazes com meu irmão e soube também que eu tenho um neto, um rapaz bonito, esperto e com um coração de ouro. Um rapaz que eu tenho a honra de chamar aqui no palco e apresentar a vocês como o novo e único PALHAÇO CAMARÃO!!!


– Ele está te chamando! Quebre a perna!

– Vou quebrar.

Quando estava saindo de perto de Alice, Afonso tropeçou e caiu no chão.

– Eu disse pra quebrar a perna, mas não literalmente.

– Engraçadinha.


A plateia se levantou e aplaudiu a entrada de Afonso vestido de Palhaço Camarão, a entrada do rapaz foi acompanhada pela música de maior sucesso do avô: Meu joelho mingau A música que estava na boca de todas as crianças e adultos ali presentes. Fazendo jus ao seu nome e a família, Afonso encantou a todos interpretando o Palhaço Camarão e quando terminou a apresentação  foi ovacionado por todos os presentes.


Após o fim do espetáculo, Raul reuniu todos no picadeiro para anunciar que seguindo o exemplo de Henrique ele também se aposentaria e que deixaria a apresentação do circo para seu filho Eduardo. Aproveitou para lembrar do pai que tocara o circo antes dele e agradecer a Henrique por tantos anos de parceria e amizade. Após dizer essas palavras, ele e Henrique se abraçaram e saíram juntos com o irmão do ex-palhaço no seu Fusca 79.

Alice e Afonso casaram-se no ano seguinte e continuaram a tocar o circo juntamente com Eduardo e Sophia. O Palhaço Camarão criou um canal no Youtube e postava vídeos de suas apresentações pelo Brasil toda semana. Além de ter criado o quadro “Diário de um Palhaço” onde entrevistava palhaços aposentados e ajudava aqueles que precisavam.

Henrique e seu irmão vez por outra reprisavam seus papéis de Pangaré e Alazão em alguma confraternização em família. Quem diria que a história do Palhaço Camarão sofreria tantas reviravoltas assim, mas esse é o espetáculo da vida, quando você nasce, está de frente a um picadeiro e a cortina acabou de se abrir, resta a você dar o melhor e oferecer um ótimo espetáculo para todos os seus espectadores.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *