O Mistério da Rua 15

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Era noite e as primeiras estrelas pontilhavam o céu. Um frio estarrecedor desencorajava quem quisesse sair de casa, tudo estava deserto, parece que nem os gatos e cachorros de rua aventuravam-se em buscar a sua refeição noturna. Tudo estava em completo silêncio, um silêncio raro, único e sombrio.

Mas como num passe de mágica, ele apareceu, apitando aos quatro cantos da terra, e seu barulho fazia tremer o chão. Imediatamente, luzes foram se acendendo nos mais variados pontos da cidade, e alguém gritou:

– É na Rua 15! Esses barulhos vêm da Rua 15!

Imediatamente, uma multidão que não se podia contar, começou a seguir o dono da voz. Conforme se aproximava, o barulho ficava ainda mais forte. Era uma espécie de sinos tocando com quebrar de correntes, um barulho novo, totalmente novo… um som desconhecido.

A Rua 15 era famosa por outrora ter abrigado a estação de trem da cidade, mas já não era usada há pelo menos quatro décadas. Outra voz gritou:

– É um trem! Tenho certeza que é um trem!

– Impossível! – alguém respondeu. — Já não passa trem nesses trilhos.

– Sim, é um trem. É um trem!…

E eles estavam certos. Estava bem ali, parado, fumaçando e apitando com um som ensurdecedor. Muitos não acreditavam no que seus olhos contemplavam. Um trem completo com seus 12 vagões. Além da locomotiva, em sua lateral, a escrita 1932. A locomotiva era de um preto bem vivo e seus vagões mesclavam preto, vinho e vermelho formando uma espécie de degradê.

Não havia maquinista e muito menos passageiros, mesmo assim, o trem apitava sozinho e era possível ver a fumaça saindo como se alguém estivesse colocando lenha na fornalha. As janelas dos vagões estavam entreabertas e era possível sentir um doce aroma de camomila, como se em pouco tempo a camareira tivesse servido chá.

A população da cidade ficou perplexa olhando para o trem, ninguém, nem mesmo em sonho, poderia imaginar aquela cena. O trem soltou um forte apito, mais forte do que os anteriores, e todos viram quando alguém da multidão se dirigia à porta de embarque do trem.

– Dona Augusta, não entre aí… pode ser perigoso.

– Eu esperei por esse dia durante os últimos cinco anos, eu preciso ir. Meu amado Jorge me espera.

– Dona Augusta, não faça uma besteira dessas.

Quando tentaram segurar Dona Augusta, perceberam que suas mãos passavam por entre o corpo da senhora. Dona Augusta era uma senhora de oitenta e poucos anos, tinha os cabelos grisalhos, era muito bondosa e sempre que fazia uma torta ou salgado chamava alguém da vizinhança para prová-los. Ela era muito querida por todos. Morava desde que nasceu naquela pequena cidade rural e aos vinte anos casou-se com Seu Jorge, filho de um fazendeiro produtor de gado de corte.

Não tiveram filhos. Ela nunca pôde segurar um bebê após o terceiro mês de gestação. Mas nunca estavam sozinhos, os vizinhos sempre levavam seus filhos para serem batizados pelos dois. Além disso, era só saírem na rua que escutavam por todo lado as palavras “Vô” e “Vó”. Quando Seu Jorge faleceu, os vizinhos se revezaram por mais de quatro meses para ajudar nos afazeres domésticos e também em lhe fazer companhia para que não se sentisse tão sozinha.

Dona Augusta havia recebido há pouco mais de um ano, numa cerimônia honrosa, a chave da cidade. Fato que ela contava com um enorme sorriso nos lábios. Desde que seu amado esposo se foi, vez por outra, alguém a escutava dizer que ele viria buscá-la quando ela estivesse pronta, mas as pessoas não davam muita importância por acreditar que devido à idade, ela poderia estar começando a caducar.

– A minha mão passou direto, não consigo segurá-la!

– Não pode ser! O que significa isso?!

– Provavelmente ela se foi, ou estamos em alguma espécie de sonho coletivo.

– Quem é aquela pessoa parada na escada da locomotiva?

– Esse é meu amado Jorge! – respondeu Dona Augusta. – Eu já estou indo, meu amor.

– Não pode ser, Seu Jorge já tinha mais de noventa anos quando se foi, e esse homem na escada não deve ter mais do que vinte.

Ao terminar de dizer essa frase, todos viram o rosto e corpo de Dona Augusta perder suas rugas, seus cabelos passarem de grisalhos a um castanho tão vivo quanto os de uma jovem de vinte e poucos anos, e suas roupas tornarem-se como as que ela usava quando não passava de uma adolescente. Ela virou-se para a multidão como se quisesse se despedir, deu um último sorriso, daqueles que parece que estamos sendo abraçados por essa pessoa, embarcou na locomotiva ao lado do seu grande amor, e sumiu, simplesmente, sumiu…

A locomotiva apitou e começou a andar. A fumaça que antes era de um cinza bem escuro, agora estava branca e fazia desenhos no ar antes de se dissipar. A locomotiva andou por uns quinze metros antes de desaparecer à vista de todos os presentes. Já faz mais de cinquenta anos que isso aconteceu e essa história é passada de pai para filho e do filho para o neto. Conta-se que ainda é possível, de tempos em tempos, ver a locomotiva na Rua 15 vindo buscar alguém. Muitos acreditam de fato na existência de tais acontecimentos, para outros, é conhecido apenas como o mistério da rua 15.

 

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