Felicidade com Canela

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Todo dia eu acordava pontualmente às cinco e quarenta e cinco da manhã para observar os pássaros. Eles voavam alegres para o pé de mangueira que ficava em frente à minha janela. Eu gostava de os observar bailando no céu, livres, felizes e cantarolando suas belas canções.

Quando enfim sossegavam e cada um repousava em seu galho, eu caminhava em direção a cozinha para preparar o café. Ela gostava do dela com canela, engraçado que só me dei conta agora que nunca perguntei o porquê para ela. Eu simplesmente preparava o café e na xícara dela acrescentava um pouquinho de canela.

Como de costume também, eu ia até a garagem ver como Bob; nosso cachorro, estava se sentindo. Bob estava na família há muitos anos, mais do que eu me lembro e eu tinha medo de acordar pela manhã e ele não estar mais lá, apenas seu corpo repousando sobre a caminha que comparamos um natal qualquer.

Sempre que me via ele tentava se levantar para me dar um “oi”, a maioria das vezes sem sucesso. Com as poucas forças que lhe restavam, ele abanava o rabo de um lado para o outro enquanto eu massageava sua cabeça e costas. Eu poderia jurar que as vezes o via sorrindo para mim, como se dissesse: “Não precisa se preocupar, eu ainda estou aqui amigão. ”

 

Após lavar as mãos eu retirava o café da cafeteira e o dividia em duas xícaras com a mesma quantidade. Como eu mencionei anteriormente, na xícara dela eu colocava um punhado de canela, enquanto na minha eu colocava um pequeno pedaço de chocolate, seguido de um pouco de leite. Abria um pacote de biscoitos e em seguida caminhava em direção ao quarto.

Meus passos já não eram tão rápido como da primeira vez que fiz isso, a idade também pesava em meus ombros e honestamente eu ficava me perguntando se o Bob também tinha medo de acordar e eu não estar mais ali para afagar suas costas. Mas, para um velho de oitenta anos, até que estou em forma. Após o café da manhã, enquanto minha amada cuida de nosso jardim, eu costumo dar uma volta na quadra e quase sempre levo o Bob, acredito que é ele quem me mantém em forme, pois quase sempre sou obrigado a carrega-lo no colo, Bob já não aguenta uma boa corrida há anos, mas mesmo assim ele é o melhor companheiro de caminhada que alguém poderia ter.

Ultimamente tenho pensado sobre o significado de ser feliz. Quando se é jovem, temos a estranha impressão que a felicidade está ligada ao dinheiro ou a bens materiais. Mas, quando se tem a minha idade, você entende que o que o dinheiro ou os bens realmente proporcionam, são pequenos momentos de prazer, tão pequenos que eu costumo os comparar como gotas de orvalho escorrendo de uma folha, que ao caírem na terra se dissipam rapidamente, evaporando e desaparecendo por completo de nossas vistas.

Mas felicidade, a verdadeira felicidade, é algo duradouro. Ela não está relacionada com o prazer ou a alegria de um momento. Ela é um misto de sentimentos e sensações únicas, que te levam ao êxtase mesmo que não esteja vivendo o melhor de seus dias. De uns anos para cá, eu defino a felicidade como a junção de todos os elementos que compõem essa minha rotina. Desde observar os pássaros em minha janela, olhar minha esposa dormindo profundamente, preparar o seu café da manhã, acariciar meu cachorro, olhar o retrato dos casamentos de meus filhos e netos no rack da sala, sair para dar uma volta e cumprimentar meus vizinhos, tentar ler o jornal, almoçar com meus filhos e netos num sábado, ir com minha esposa à igreja e lhe dar um beijo de boa noite. Se isso não for a definição perfeita de felicidade, creio que nós humanos nunca seremos capazes de entende-la.

O que aprendi duramente ao longo dos anos, me tornaram o homem que sou. Esposo, pai, avô e daqui alguns meses bisavô. Eu oro para que Deus nos conceda a graça de conhecer a nossa já tão amada Lunna, a primeira bisneta e talvez a única que veremos. Mas, de certa forma essa é a vida e eu não tenho o que reclamar dela. Eu fui o homem de uma única mulher e a amei desde o primeiro dia que a conheci e a amarei até o último da minha vida.

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