Ele também sabia amar

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Para entendermos essa história, precisamos voltar alguns anos — para uma época onde eu ainda estava cursando o ensino médio e precisava urgente de um trabalho para pagar meu cursinho. Eu queria muito cursar medicina numa universidade federal, mas na época, todos os cursinhos eram muito caros e meus pais não tinham condições de me ajudar, então só tinha uma alternativa: aceitar o primeiro emprego que aparecesse. E, honestamente… hoje agradeço a Deus por ter feito essa escolha.

Meu nome é Nataly, hoje sou conhecida como Doutora Naty, mas nem sempre foi assim. Houve uma época da minha vida que eu estava tão perdida dentro de mim… Eu sabia que queria cursar medicina, mas não sabia exatamente o porquê. Talvez por causa da minha família, para ajudar meus pais, ou para ter uma boa renda financeira, poder viajar, comprar o carro e a casa dos meus sonhos… Eu não sabia exatamente a causa daquele sonho, mas uma coisa eu tinha certeza: faria o possível e o impossível para realizá-lo.

Agora vamos voltar para os meus dezesseis anos, quando iniciei o terceiro ano do ensino médio e precisava urgente de arrumar um trabalho — eu só não sabia quão difícil seria. Eu estudava pela manhã, então tinha a tarde e a noite livres, pensei que seria fácil arrumar um emprego nesses horários, ledo engano. E pra piorar, eu precisava começar naquele ano um cursinho, caso eu quisesse cursar medicina numa federal, então só me restaria o horário da tarde livre; o que reduzia drasticamente minhas chances de arrumar emprego.

Mas, eu sou conhecida por ser uma pessoa persistente, então todos os dias quando saía da escola, eu passava em casa rapidamente pra almoçar, isso é, quando tinha alguma coisa pronta. Na maioria das vezes eu só comia uma fruta, tomava um iogurte ou fazia um miojo. Daí, passava na lan house, imprimia uns vinte ou trinta currículos e ia entregando de porta em porta, na esperança de que logo eu estaria empregada. E assim passaram os meses… Agora eu já estava no meio do ano e sem perspectiva nenhuma de conseguir trabalho.

Todas as pessoas com quem eu convivia e compartilhavam o mesmo sonho de ingressar na faculdade de medicina, já estavam matriculadas em cursinhos, e eu havia ficado pra trás. Foi aí que comecei a tentar conseguir uma colocação no mercado em outras áreas. Comecei a procurar emprego como recepcionista, telemarketing e também babá… Pera, aí?! Babá?! Eu não suportava a ideia de ter que trocar a areia do gato, como poderia cuidar de uma criança… Além disso, eu era filha única, não sabia nada sobre crianças, como poderia ser babá de alguém? Eu estava decidida a cortar essa ideia da minha mente, até que o telefone tocou.

– Alô? Sim… é a Nataly. Hã?! Claro que posso, espera só um minutinho enquanto procuro uma caneta… Prontinho. Ah… sim, eu conheço esse lugar. Às 14h está ótimo para mim. Tudo bem, então… Até amanhã!

Era tudo que eu queria: havia conseguido a minha primeira entrevista de emprego. O salário não era nada mal para uma menina da minha idade. Eu teria que trabalhar só quatro horas por dia e ainda teria almoço e janta no local. Era como um sonho, exceto por um detalhe… eu seria uma babá.


– Você deve ser a Nataly, certo? Pode entrar! Eu sou a Viviane, a mãe do Arthur.

– Obrigada! É um prazer, Dona Viviane.

– Ah, por favor… Pode me chamar apenas de Viviane, sem esse “dona” (risos), ou se preferir, apenas Vivi.

– Tudo bem, Vivi.

– Sente-se, vou chamar meu esposo. Fique à vontade. Você aceita uma água ou um suco?

– Não, eu estou bem. Obrigada!

Aquela casa era linda, um sonho. “Vou ter uma casa assim quando eu me formar”, lembro-me de haver pensado isso. O sofá onde eu estava sentada era todo branco e com detalhes em dourado, parecia um daqueles sofás bem antigos que só se encontravam em residências de pessoas muito ricas ou famosas. Na parede à minha frente, existia um quadro muito bonito que retratava uma moça admirando seu rosto na beira do rio. Havia também um jarro de flores logo abaixo, com a aparência de serem recém-colhidas, e no teto, um belo lustre de cristal que muito se assemelhava àqueles candelabros rústicos. O chão era de madeira envernizada, e na escada que dava acesso ao segundo andar, era possível ver que o corrimão havia sido trabalhado minuciosamente à mão. Tudo era muito lindo e fino; na mesinha de centro havia alguns bibelôs e uma foto de um garoto que provavelmente seria o Arthur. Eu estava impressionada com o tamanho e beleza daquela casa. Estava tão perdida em meus pensamentos que só reparei que havia um cachorro perto de mim quando ele me lambeu.

– Ei? Quem é você, garotão? Tem alguma coisa escrita nessa coleira… John Kennedy? Como o ex-presidente dos Estados Unidos? Que engraçado, mas é um belo nome para um cachorro!

O cachorro presidente parece ter entendido o que eu disse — ele soltou um alto latido e depois saiu de fininho como se nada tivesse acontecido. Eu me ajeitei no sofá e fiquei pensando por que ela estava demorando tanto e também em quantos cômodos haviam naquela casa. Será que eles tinham piscina? Será que existia um espaço gourmet para festas? E o Arthur? Será que ele iria gostar de mim? Será que era uma criança boazinha ou uma daquelas chatas e birrentas? Só de pensar que ele poderia ser malcriado, já tive arrepios no corpo todo. Mas, ele era filho de um casal aparentemente ricos, deveria ser um daqueles engomadinhos que são obrigados a ter aulas de tênis, inglês, alemão, esgrima, hipismo e sabe lá Deus mais o quê!

– Voltei, Nataly. Desculpe a demora.

– Tudo bem. A senhora nem demorou.

– Já disse que pode me chamar de Vivi. Esse é o meu esposo, John Kennedy.

– John Kennedy? Como o ex-presidente Americano?

– Yes! John Kennedy. The former American president.

– Ele não fala português?

– Fala, sim! Ah, querido, pare de brincar com a moça!

– Perdão, Nataly, prazer em conhecê-la.

– Que susto! Eu pensei que iria perder o emprego agora, porque a única coisa que sei pronunciar em inglês é “The books on the table”.

– Fique tranquila, inglês não é requisito para a vaga. Quer começar, querida? Ou eu começo?

– Pode começar, meu amor.

– Pois, bem! Nataly, nós somos pais do Arthur, que é esse lindo garotinho da foto que está bem na sua frente. Nós chamamos você aqui porque precisamos de alguém de confiança para cuidar do nosso filho, enquanto estamos fora. Nós já temos uma babá que trabalha de manhã, coincidentemente, hoje, ela não veio, pois está doente. Mas, ela trabalha conosco há 29 anos. Antes de ser babá do Arthur, a função dela era lavar e passar nossas roupas. Conforme o Arthur foi crescendo, ele se apegou muito à Dolores, então tivemos que mudá-la de função e contratar uma nova passadeira. No período da tarde, minha avó cuidava dele para nós. Infelizmente, ela faleceu no mês passado e desde então, minha esposa e eu temos alternado os dias em casa para cuidar do Arthur.

– Meus pêsames por sua avó.

– Obrigado. Nós vimos no seu currículo que você nunca trabalhou na vida. Nem mesmo estagiou, o que é bem raro para alguém da sua idade.

– É verdade. Eu nunca estagiei e não tenho a carteira assinada. Mas, ajudava minha mãe a costurar para fora, e, às vezes, ia à feira com meu pai.

– Seu pai é feirante?

– Bem… não é isso. Eu ia à feira com meu pai com o carrinho de mão. Ele ia com um e eu com o outro, e nós perguntávamos se queriam que carregássemos as compras até o carro ou até a casa das pessoas. Como se fosse uma espécie de frete.

– E quanto ganhavam com isso?

– Não muito. Não tinha um preço fixo. Nós deixávamos que a bondade das pessoas as guiassem no valor justo pelo frete. As gorjetas variavam de vinte e cinco centavos a quatro reais por pessoa. Só teve um senhor que uma vez me deu dez reais, mas foi só essa vez.

– E você e seu pai ainda fazem isso?

– Não mais. Meu pai está doente, desenvolveu um desvio na coluna que o impede de pegar peso, agora ele fica mais em casa, de repouso. Nas raras vezes que sai de casa, é para comprar algum material para minha mãe costurar. Atualmente vivemos das costuras dela e da venda de alguns tapetes de crochê.

– E você tem irmãos?

– Não. Somos só eu, minha mãe, meu pai e um gato chamado Pompeu.

– Pompeu? Como o Cônsul Romano?

– Sim! Esse mesmo!

– Vimos no seu currículo que você quer cursar medicina. É por conta do problema do seu pai?

Essa pergunta verdadeiramente mexeu comigo. Como eu havia dito antes, eu não sabia ao certo o motivo que queria fazer medicina, eu apenas queria. Mas, não poderia responder assim ao Sr. Kennedy; o que ele iria pensar de mim? Eu já não tinha experiência nenhuma, fiquei lamentando as desventuras de minha família e agora nem sabia pra que queria fazer medicina. Mesmo suando frio e gaguejando, eu respirei fundo e respondi:

– S… Sim!

– Pois bem. Você quer fazer alguma colocação, querida?

– Não. Por mim, está tudo bem.

– Nataly…

– Eu?

– Está pronta?

– Estou!

Confesso que respondi “Estou” sem fazer a mínima ideia para quê. Apenas respondi aquilo, porque eu supus que seria a resposta que eles queriam ouvir. Mas, estava de fato curiosa para saber o que viria à seguir.

– Querida, vá chamá-lo.

Na última frase do Sr. Kennedy, eu, de fato, entendi do que se tratava. Eu iria, por fim, conhecer o Arthur.

– Estávamos perdendo as esperanças.

– Como disse?

– Eu disse que estávamos perdendo as esperanças. Entrevistamos cinquenta e duas babás. Você é a número cinquenta e três e em todas elas reparamos a mesma coisa. Elas não queriam trabalhar como babá porque amam cuidar de pessoas, elas queriam apenas porque oferecemos quatro vezes mais do que qualquer outra família oferece, além das duas refeições e trabalhar só quatro horas por dia. Mas, quando batemos o olho em você, tivemos certeza que você estava aqui por amor e quando nos contou sua história de vida e o fato de você querer cursar medicina para ajudar seu pai, isso nos trouxe a certeza que você era a escolha certa.

– Obrigada.

As palavras do Sr. Kennedy me cortaram a alma. Eu sabia que estava lá pelo dinheiro também, mas o que de fato ele tinha visto de diferente em mim? Eu nem sabia por que queria cursar medicina. E, de fato, aquele era o maior salário que eu já tinha visto em todas as ofertas de empregos que vi anunciada. Só para se ter uma ideia do montante, daria para pagar três meses de serviço da minha mãe e ainda sobrava dinheiro. Sendo assim, eu poderia pagar meu cursinho, ajudar meus pais e ainda sobrava dinheiro para poder comprar umas roupas, ou sair com as minhas amigas, mas para isso, ainda faltava uma coisa: o Arthur precisava gostar de mim.

– Voltei. Nataly, esse é o Arthur.

Meu coração gelou naquele instante. De fato, o Arthur não era uma criança como as outras. Pra começar, ele estava se escondendo atrás da mãe e só dava pra ver a pontinha dos dedos dele que seguravam o vestido dela, ele ficava mexendo os pés pra lá e pra cá e a cada três segundos, soltava um grito muito, muito alto! Ele tentava correr, mas a mãe o impedia e aí ele gritava mais alto. Com muito esforço, o casal conseguiu se sentar e Arthur foi para o colo do pai. Ele era um lindo rapaz ariano com cabelos cacheados, como esses anjinhos que vemos retratados em alguma pintura. Tinha os olhos de um verde tão puro como as esmeraldas e suas bochechas eram coradas, seus lábios eram de um vermelho vivo e bem carnudos. Ele aparentava ter uns doze anos pelo tamanho, mas se comportava como uma criança de três ou quatro. Como se lesse a minha mente, Vivi falou:

– O Arthur tem um tipo raro de autismo. Ele não fala, mas se comunica por gestos e emite alguns sons. Ele não gosta muito de ficar perto de pessoas que não conhece, por isso ele deu aqueles gritos; estava com medo de você. Ele é um bom menino, não costuma dar trabalho. Só quando está realmente assustado. Quando ele gosta de alguém, faz de tudo por essa pessoa, ele a protege, a ama, dedica-se à ela, e nós cremos que ele agirá assim com você. O Arthur pode não saber se expressar da melhor forma, mas ele é capaz de identificar o caráter como ninguém. Quando ele gosta de uma pessoa, nós logo nos afeiçoamos por ela também, mas se ele não gostar de alguém, isso serve de um alerta para nós também. Meu esposo e eu entendemos que é o seu primeiro contato com o Arthur, mas já vimos ele gostar de pessoas instantaneamente, como também já vimos o oposto. Nós vamos deixá-la a sós com o Arthur por cinco minutos, basta nos chamar se precisar de algo. Ele não gosta que a gente fique por perto quando está conhecendo alguém. Assim que voltarmos, te daremos uma posição, tudo bem?

– Tudo bem.

Assim que eles saíram, o Arthur ficou me encarando. Eu não sabia muito bem o que fazer. Tentei fazer uns bichinhos com as mãos, mas não adiantou. Tentei um daqueles joguinhos que tampamos os olhos com as mãos e então descobrimos e falamos: “achou”! Mas ele não expressou reação alguma. Tentei puxar assunto, mas ele fez pouco caso e os minutos estavam se passando. Bati palma, puxei meu cabelo, cantarolei, contei uma piada, mas nada adiantava. Faltando menos de trinta segundos para o meu prazo acabar. Eu me sentei no sofá, enchi minhas bochechas de ar e depois joguei tudo pra fora, fazendo um barulho esquisito, então o Arthur sorriu. Sorriu não, ele gargalhou. Então eu refiz o processo e ele soltou uma gargalhada ainda maior, quando os pais deles chegaram, encontraram nós dois deitados no chão, um de frente para o outro e o Arthur imitando meu gesto de encher as bochechas de ar e soltar de uma vez, produzindo um som engraçado. Quando eles viram àquela cena, seus olhos encheram-se de lágrimas e eu fui contratada na mesma hora.


– Dez anos se passaram desde aquele dia, e hoje estou aqui, uma Doutora formada, reconhecida nacionalmente, inaugurando a primeira clínica no Brasil com a mesma tecnologia empregada lá fora, para tratamento de crianças com autismo. Naquela época eu não sabia ao certo porque queria fazer medicina, mas o Arthur me fez entender o motivo. Eu tinha que me formar em pediatria, eu tinha que fazer especialização lá fora e tinha que voltar para o Brasil para que pudesse ajudar outros “Arthur’s” que existem por aí. É uma pena meu amigo não ter vivido para ver esse feito, mas sinto-me honrada que seus pais estejam aqui me prestigiando nesse dia tão especial. Senhoras e senhores, conheçam agora o Centro de Pesquisa e Apoio ao Autismo Infantil Arthur Lins Kennedy.


MÚSICA TEMA: I’M SAM – BLACKBIRD

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