A Gravata da Princesa

Tempo de leitura: 5 minutos

—  Mas eu quero ir de gravata!

—  Mas, minha filha, você não pode ir de gravata, você é uma menina. Além disso, olha no espelho, você está vestida como uma princesa e princesas não usam gravata.

—  Mas eu quero ir de gravata. Senão, eu não vou.

—  Poliana, obedeça sua mãe!

—  Mas ela não quer deixar eu ir de gravata, papai.

—  É que meninas não usam gravata, minha filha.

—  Usam, sim. A mãe da minha coleguinha usa gravata.

—  Tá, meninas usam gravatas especiais. Não são como as gravatas do papai.

—  Então eu quero uma gravata espacial.

— Não é espacial, e sim, especial, Poliana, e não foi isso que o papai quis dizer. Você precisa tirar essa gravata ou vamos chegar atrasados.

—  Sem gravata eu não vou.

—  Camila, melhor deixar ela ir. Você conhece sua filha.

—  Minha filha? Agora ela é minha filha, Guga? Ela deve ter puxado esse gênio ruim do seu lado da família.

—  Meu lado? Você é a pessoa mais teimosa que eu conheço e vem falar que a culpa é minha?

—  Dá para vocês dois pararem de brigar? Estamos atrasados.

—  Vai para o carro, Poliana. Te encontramos lá embaixo.

—  Eu dirijo! – falaram em coro.

—  Tudo bem, você dirige — falaram em coro.

—  Eu dirijo — falaram em coro.

— Camila, você dirige, ok?

—  Tudo bem, vamos antes que você estrague mais um baile.

—  Aquilo foi um acidente, Camila, eu tinha dezesseis anos.

—  Acidente? Você derramou cerveja no meu vestido de formatura e diz que foi um acidente?! Você fez aquilo de propósito porque eu não quis ir ao baile com você. Sei que um dia vai assumir isso.

—  Você sabe que foi um acidente. Mas, não me arrependo. Por causa desse incidente começamos à namorar, nos casamos e hoje temos uma linda filha esperando no carro para o seu baile de formatura da primeira série.

—  Tudo bem! Só preciso ir no banheiro.

—  Mulheres… sempre inventam uma coisa para fazer na hora de sair.

—  O que você disse, Guga?

— Eu disse que te espero no carro, meu amor.

Guga abriu a porta traseira do carro para checar o cinto de segurança da sua filha e nem se deu conta de que ela ainda estava usando a tal gravata. Antes de fechar a porta, deu um beijo na testa da filha e acariciou seus cabelos. Ele estava nitidamente estressado, odiava discutir com a esposa, principalmente na frente da filha. Após fechar a porta do carro, e enquanto esperava a esposa descer, Guga começou a lembrar o quanto ele era sortudo por ter reencontrado o amor da sua vida, e o quanto sua vida havia mudado nos últimos dez anos.

Mesmo que por causa de uma discussão boba, ele se lembrara do dia em que derramou cerveja no vestido de formatura de Camila e do tanto que ela ficou nervosa, o chamando de idiota e algumas outras palavras que nem podem ser mencionadas. E mesmo que ela estivesse tremendamente nervosa em tal ocasião, ele não pôde deixar de reparar o quanto ela era linda e como ela conseguia levantar somente uma das sobrancelhas quando estava nervosa. Ele se recordara da primeira, segunda e terceira vez que namoraram, e de como todos os relacionamentos acabaram pelo mesmo motivo… filhos.

Ao se lembrar de como ele se gabava que não queria ser pai, só queria se divertir e nada de relacionamento sério, Guga sentiu até vontade de dar um soco em si mesmo. E pensar que dentro daquele carro estava a garotinha que conquistou seu coração antes mesmo de nascer… A menininha que mudou a vida daquele cara irresponsável, que gastava o que tinha e o que não tinha com bebedeiras, farras e mulheres, aquele cara que via as mulheres com que saía apenas como um objeto para satisfazer seus desejos… O anjinho que conseguiu transformar aquele cara nesse homem honesto, responsável e trabalhador, que se sacrifica para oferecer o melhor que existe à família. Ele só se arrepende de não ter tido a Poliana antes, mas passou a acreditar que tudo acontece no tempo certo.

—  E aí? Vamos?

— O… oi… oi? Q… qu… quê? Ah, sim, vamos!

—  Tá tudo bem com você?

—  Sim, estou… Eu já te disse que eu te amo hoje e que você é linda?

— O que você quer, Guga?

—  Eu? Nada! Só quero que você saiba disso… eu amo vocês duas mais do que a minha própria vida.

—  Eu também amo você. E também amo essa mocinha que está nos espiando pela janela do carro.

Os dois se beijaram longamente enquanto Poliana observava quietinha. Quando pararam o beijo, os dois ainda se olharam por alguns segundos até que Guga olhou para baixo e reparou algo diferente na sua esposa e entendeu por que ela pedira para ir ao banheiro um pouco antes de sair.

—  Pode me dizer o que significa isso, dona Camila?

—  Claro! Fui buscar minha gravata espacial. Está preparado para embarcar na minha espaçonave Chewbacca?

—Ei? Por que eu não posso ser o Han Solo?

—  Simples, você é o co-piloto.

— E você está mais para Darth Vader. Vamos iniciar logo a viagem.

— Assim que eu gosto! Você não vai querer ver o meu lado negro da força, vai?

Os dois entraram no carro gargalhando e perceberam um sorriso puro de Poliana ao ver sua mãe de gravata. Camila olhou para Guga de canto de olho e em seguida deu uma piscadinha para o esposo; esse, por sua vez, riu da situação. Mais tarde, naquela noite, um pouco antes de dormir, ele agradeceu a Deus por aquele dia e pensou como Deus era realmente perfeito. Por causa de uma gravata e uma princesa, Guga viveu um dos momentos mais lindos de sua vida e por mais que fosse apenas um baile de criança, ele surpreendeu a todos quando pediu para tocarem a mesma música que marcou o casal no baile de formatura, e, agachando-se, segurou na mão da esposa e pediu que esta lhe concedesse uma dança.

“São momentos assim que fazem a vida valer a pena” — ele pensou, e, em seguida, adormeceu.

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