A Grande Colheita

Tempo de leitura: 20 minutos

Os tratores se preparavam para o serviço. Havia pelo menos seis deles, de todas as formas, cores e tamanhos. Tinha até um em miniatura que era operado por Daniel, o filho caçula de Seu Eustáquio, dono da Fazenda Repolhos (não me pergunte por que a fazenda tinha esse nome, por mais que eu também tivesse muita curiosidade em saber, nunca cheguei a perguntar). Apesar desse nome, a fazenda produzia milho e trigo.

Essa época do ano era muito festejada na região — o tempo da colheita. Isso porque mais pessoas eram empregadas nas fazendas, uma vez que era necessária muita mão de obra para conseguirem colher tudo a tempo. Seu Eustáquio era o maior produtor da região, juntando sete ou oito fazendas vizinhas, ainda não dariam a quantidade de terra que a fazenda dele possuía.

Seu Eustáquio era pai solteiro. Ele criara os cinco filhos na base da enxada. Só conseguira vencer na vida depois de velho. Isso porque acertara todos os números da mega sena e havia sido o único ganhador. Mas não pense que isso fez dele uma pessoa ruim, pelo contrário, ele ajudou todos que podia com o dinheiro, inclusive pessoas que pisaram nele uma vida inteira.

Um pouco antes de comparar a fazenda Repolhos, ele havia enviado quatro dos cinco filhos para a capital, para estudarem, se formarem e para que pudessem ser alguém na vida. Só ficou com ele o mais moço, Daniel, de apenas dez anos. Mesmo assim, o garoto frequentava a escola regularmente e gostava de ajudar o pai nos serviços da fazenda, pelo menos no que ele dava conta.

Daniel estava mais ansioso por essa colheita do que todas as outras; ele tinha dois motivos para isso. Primeiro, o pai comparara um trator em miniatura para que ele pudesse o guiar e ajudar na colheita, e segundo, porque seu pai havia contratado para ajudar na colheita e na cozinha respectivamente o pai e a mãe de Clarice, a menina que ele gostava desde os sete anos.

Antes de Clarice chegar, ele tomou banho duas vezes, trocou de roupa algumas centenas, engraxou sua melhor bota, perguntou a todos os empregados qual seria o melhor chapéu para usar na ocasião e fez questão de usar o melhor perfume de seu pai. Além disso, ele ficou ensaiando na frente do espelho de que forma puxaria assunto com a Clarice. Talvez ele a levasse para dar uma volta no seu tratorzinho ou então elogiaria a comida de sua mãe, ou até mesmo, os serviços prestados por seu pai. Ele pensou em várias coisas diferentes, mas nenhuma delas parecia ser realmente relevante, até que teve uma ideia, uma brilhante ideia, nada poderia dar errado, pelo menos foi assim que ele pensou.

Quando a família de Clarice chegou, Seu Eustáquio foi pessoalmente recebe-la. Não porque ele gostava mais de sua família do que dos demais empregados, mas porque ele fazia questão de receber cada uma das pessoas que iria trabalhar com ele. Sempre com um matinho na boca, um chapéu de couro na cabeça e um olhar tão amoroso e fraterno que dava vontade de ficar olhando para ele o dia todo.

– Que bom que vieram!

– Eu queria agradecer pelo senhor permitir que eu e minha família possamos ajudar, mesmo depois de ter passado o prazo.

– Para mim é uma honra ter vocês aqui. Além disso, meu garoto gosta muito da sua filha.

– Faço muito gosto dessa amizade, Seu Eustáquio. Seu filho é um bom rapaz. Aliás, todos eles.

– Meus meninos são mesmo muito bons. Deus me agraciou com essas “crias”. Mas, vamos acabar de chegar… Pode deixar as crianças brincarem, sua esposa creio eu que já conhece o caminho da cozinha e você me ajuda a organizar e supervisionar os peões.

Seu Eustáquio saiu acompanhado de Seu Francisco e Dona Lourdes, pais de Clarice, e deixaram a filha na companhia de Daniel. Os dois ficaram se olhando por alguns segundos sem dizerem uma só palavra, até que Clarice tomou a iniciativa…

– A fazenda do seu pai é mesmo muito grande!

– Ah… É sim!

– E têm muitas pessoas trabalhando aqui.

– Tem mesmo — Daniel se sentia um idiota por não saber o que dizer. Ele tinha ensaiado tanto, tinha um plano praticamente infalível na cabeça, mas não conseguia por para fora. Não frente a frente com Clarice, o grande amor da sua (pequena) vida.

– O que tem ali depois daquela cerca?

– Ali? É onde meu pai coloca as vacas que estão amamentando seus bezerros.

– Que legal! Eu amo bezerros, são tão fofos.

– São fofos mesmo.

Clarice ficou em silêncio esperando um convite de Daniel para que pudessem ir juntos ao curral para ver os bezerrinhos mamando, mas este por sua vez não fazia ideia novamente do que dizer. Sabendo que Daniel estava totalmente perdido no que dizer ou fazer, ela tomou a iniciativa novamente.

– Você poderia me levar lá uma hora dessas?

– Ah sim! Qualquer dia te levo lá.

– E… poderia ser agora?

– Ag… ago… agora?

– Sim, agora! Podemos?

– Bem… claro, podemos sim. Mas não vamos andando, espera um pouquinho que já volto.

– Tudo bem.

Daniel saiu para buscar o tratorzinho e Clarice ficou pensando o quanto ele era difícil de entender as coisas. De certa forma, ela o achou confuso e fofo, mais fofo do que confuso. Daniel não sabia, mas Clarice sempre gostou dele também, e isso muito antes do Seu Eustáquio sequer sonhar em ganhar na loteria. Ela gostava dele de verdade, daquele jeito inocente e infantil.

– Prontinho!

– Eu não vou subir aí não.

– Não precisa ter medo, Clarice. Eu cuido de você.

Clarice ficou corada quando escutou essa frase. Com muito medo de subir naquilo que ela chamou de “coisa”… mas, com mais medo ainda de perder aquela oportunidade, ela orou a DEUS baixinho e subiu no trator, dividindo meio a meio o banco do condutor com Daniel.

– É divertido aqui. Posso dirigir um pouco?

– Poder, pode, mas meu pai não pode ver. Quando chegarmos ao curral eu te ensino.

– Combinado!

Enquanto Clarice e Daniel se dirigiam ao curral, Seu Eustáquio e Seu Francisco supervisionavam os trabalhadores da colheita. Eles combinaram que cada um ficaria com uma determinada quantia de hectares. Dona Lourdes ajudava as demais cozinheiras, era dia de galinha caipira com pequi. Para a ocasião, haviam abatido vinte galinhas caipiras e Seu Eustáquio havia deixado três sacos de estopa com milho colhido pela manhã para que fosse preparado um delicioso curau de milho.

As cozinheiras estavam animadas com tamanha fartura de ingredientes para o preparo da refeição. Dona Ana era a mais experiente entre elas, com noventa e oito anos, ela era tia avó de Seu Eustáquio e foi morar com ele logo após ele comparar a Fazenda Repolhos. Era ela quem dava as ordens na cozinha; as ajudantes diziam que ninguém no mundo cozinhava melhor que Dona Ana — esta por sua vez orgulhava-se de ter servido uma refeição para o então presidente Juscelino Kubitschek.

Quando chegaram ao curral, e antes que Daniel pudesse desligar o motor do tratorzinho, Clarice já deu um pulo em direção à cerca, e foi logo passando a mão numa vaca que estava ali por perto.

– Cuidado! Quando elas estão de bezerro, podem avançar.

– Não se preocupe, Daniel, ela só quer carinho.

Daniel pensou em dizer que a vaca não era a única por ali que queria carinho, mas não teve coragem de colocar isso para fora. Ele ficou observando Clarice passando a mão na cabeça da vaca e do seu bezerrinho e sorrindo com o cantinho da boca. Clarice observava a cena “de rabo de olho”, como dizem na roça. E pensava que aquele era o menino mais fofo que conhecera.

– Então? Quer aprender a andar no trator agora?

– Que tal daqui a pouco? Vem cá, vem passar a mão neles também.

– Tudo bem.

Daniel se aproximou e começou a passar a mão no bezerrinho que agradeceu lançando para ele um olhar puro e fraterno. Sem que os dois se dessem conta, as mãos de ambos foram se aproximando uma da outra, quase como se fossem atraídas magneticamente e por fim se tocaram. Acontecendo isso, os dois se olharam assustados e Daniel puxou a mão rapidamente. Clarice espelhou seu gesto.

– Desculpe, eu fiz sem querer.

– Tá tudo bem. Não foi nada.

– Mas, sua mão é muito macia…

Daniel até hoje não sabe como teve coragem de dizer essa última frase, mas agradece a DEUS por ter tido coragem de dizer. Essa singela frase foi a fagulha que precisavam para que o amor de ambos aflorasse ali, naquele momento, e por mais que algumas pessoas não acreditem nisso, Clarice e Daniel se apaixonaram à primeira vista. E não me refiro ao episódio na fazenda, mas sim ao primeiro dia que se viram, quando tinham ainda sete anos.

– Ob… obr… obri… obrigada!

– Não há de que. Esse é o Golias, ele é o pai de todos esses bezerros.

– Golias? Por que ele tem esse nome?

– Porque meu pai diz que ele é forte e invencível.

– Mas, Golias foi vencido por Davi.

– É mesmo! Eu nunca tinha pensado nisso. Você tem razão! Vou falar para o meu pai trocar o nome dele.

Ao terminar de dizer isso, Golias soltou uma bufada em direção aos dois e ficou rondando de um lado para o outro, e toda vez que ficava de frente para Daniel, soltava uma nova bufada.

– Acho que ele não gostou da ideia de trocar de nome, Daniel.

– É, parece que não gostou mesmo. É melhor a gente sair daqui, aonde quer ir agora?

– Hum… deixe-me ver… onde tem um lugar que você possa me ensinar à dirigir o trator?

– Perto da antiga sede, é um pouquinho longe daqui. Mas de trator acho que podemos chegar lá em cinco ou sete minutos. Lá tem um bom espaço aberto para eu poder te ensinar.

– Que legal! Então é para lá que quero ir!

Os dois subiram no trator, e assim que Daniel deu a partida, Golias soltou uma última bufada em sua direção. Daniel deu de ombros e saiu com Clarice em direção à antiga sede da fazenda. Enquanto isso, não muito longe dali, Seu Eustáquio supervisionava os trabalhadores quando viu um correndo em sua direção.

– Seu Eustáquio, o senhor precisa ver isso!

– O que houve rapaz?

– Encontrei isso perto do lugar onde estou colhendo milho, e não é a única. Alguns trabalhadores ali perto também acharam outras semelhantes à essa.

– Quantas ao todo?

– Até agora umas vinte, mas pode haver mais. O ideal seria concentrar a colheita naquele ponto e limpar a área, assim poderemos vasculhar melhor em busca de outras.

– Muito bem, garoto! Volte e avise aos demais trabalhadores. Vou passar um rádio para o Francisco e pedir para que a turma dele venha para cá também. Faremos do jeito que você sugeriu. – O rapaz já estava correndo de volta quando Seu Eustáquio gritou: – Qual é o seu nome rapaz?

– Heitor!

O Jovem Heitor tinha pouco mais de dezoito anos, e além de forte, aparentava ser bem inteligente. Pelo pouco que Seu Eustáquio sabia sobre ele, o rapaz estava juntando dinheiro para pagar a faculdade e namorava uma linda moça chamada Nicole. Eustáquio era um primo distante do pai do rapaz: Otávio. E provavelmente aquele seria o último ano que veria o jovem de novo naquela fazenda. Isso porque no ano seguinte ele iria à capital estudar, antes mesmo de o rapaz vir até ele, já sabendo que aquela seria a última colheita em que veria o primo distante. Eustáquio havia preparado um presente para entregar ao rapaz, e agora, diante do acontecido, tinha certeza que tinha feito a coisa certa.

– Francisco, está na escuta?

– Sim, Seu Eustáquio, prossiga.

– Preciso que você reúna todos os trabalhadores e venha para esse lado. Um dos trabalhadores encontrou algo que requer a ajuda de vocês. Aproveita e chama meu filho e sua filha, quero que eles vejam também.

– Positivo! Já estou a caminho. Mas, já faz um tempinho que não vejo as crianças.

– Tudo bem. De certo, estão brincando por aí, logo devem aparecer.

– Vou reunir os homens e encontro o senhor em alguns minutos.

– Certo, estou aguardando.

Francisco reuniu os trabalhadores que estavam sob sua supervisão e deu uma volta na redondeza para ver se encontrava Clarice e Daniel. Sem sucesso, ele e seus homens partiram para irem de encontro ao patrão. Enquanto isso, Seu Eustáquio aproximava-se do lugar onde Heitor havia dito que acharia a tal coisa que ele havia lhe mostrado. Perto da antiga sede, Clarice estava tendo suas primeiras aulas de tratorista e para ser sincero, ela não estava se saindo muito bem.

– Você não precisa correr tanto, Clarice.

– Mas não sou eu. Ele tá meio doido.

– Acontece que você está apertando o acelerador muito forte.

– Mas se eu apertar devagar ele não sai do lugar.

– Troca de lugar comigo, vou te ensinar de novo.

– Você vai ter que ter um pouquinho mais de paciência comigo, eu nunca andei nessa coisa.

– Tudo bem, eu vou ser bem paciente com você. Olha aqui como eu faço, você aperta o acelerador bem devagar e conforme o trator for andando, você vai pisando mais forte ou não. E outra coisa, Clarice, você precisa olhar para frente, não pode ficar olhando para os seus pés.

– É que é mais fácil olhar para os meus pés.

– É mais fácil e mais perigoso também. Se não olhar para frente, você pode atropelar algum bicho ou pior ainda, pode atropelar alguma pessoa.

– Tá, vou ter mais cuidado. Minha vez, chega para lá.

– Tudo bem, mas pisa com cuidado e olha para frente!

Ao chegarem ao local combinado, Eustáquio e Francisco reuniram os homens em círculo próximo ao local onde acharam as tais coisas. Eustáquio deu um passo à frente, diante de todos, convidou o jovem Heitor para perto dele, trocou o matinho que estava em sua boca de lado e começou a falar:

– É certo que alguns de vocês, trabalhadores, encontraram algo em minhas terras. Pelo que eu soube, mais ou menos, umas vinte dessas coisas e pode haver mais. É certo também, que de todos os trabalhadores que estavam sob a minha supervisão, apenas meu primo Heitor foi me avisar que haviam achado essas coisas. Não sei o que os outros dezenove fariam se ele não tivesse me avisado. Mas, é certo também a fama que corre de que sou um homem justo e generoso, portanto amigos, eu os trouxe aqui para anunciar algo que é do interesse de todos.

Seu Eustáquio suspirou fundo, ajeitou a fivela com as mãos, olhou para Francisco e em seguida foi olhando nos olhos de cada trabalhador que ali estava, colocou a mão direita sobre os ombros de Heitor e continuou:

– Quero que saibam que o que farei agora não é devido a este jovem ser filho de um primo distante, mas sim pela sua honestidade, coragem e trabalho. Hoje, nestas terras foram encontradas vinte pepitas de ouro no solo onde vocês estão pisando. E de acordo com meu primo Heitor, pode haver muito mais. Então daremos um tempo na colheita de milho e a partir de agora colheremos ouro nesta terra. Mas para isso irei colocar algumas regras. A primeira delas, eu não quero nada que for encontrado aqui, o ouro ficará com vocês. Já tenho muito dinheiro e honestamente eu não saberia o que fazer com mais. A segunda regra é que, pela honestidade de Heitor, metade do ouro que for encontrado aqui ficará com ele, a outra metade será distribuída em partes iguais com todos os trabalhadores que aqui estão e também com todas as mulheres que estão na cozinha e também com a Clarice, filha do Francisco. E, por último, eu irei pessoalmente fiscalizar este trabalho. Se algum de vocês for pego tentando trapacear, além de ser expulso da fazenda, tomarei as devidas providências judiciais e pode ter certeza que vocês perderão muitas vezes mais o valor de uma pepita de ouro. Vocês entenderam?

– Sim — responderam em coro.

– Estão todos de acordo?

– Sim — responderam em coro.

– Mais uma coisa: além do ouro encontrado, pagarei o dia de serviço de cada um de vocês, normalmente.

Eustáquio estava terminando de falar quando ouviu o barulho da buzina do tratorzinho do seu filho, mas ao virar para trás teve uma surpresa. Clarice estava na direção e como ele mesmo disse, a menina levava jeito para coisa. Sem descer do trator, Clarice já gritou:

– O almoço está servido — em seguida saiu pilotando o tratorzinho.

– Vocês ouviram, rapazes, não vamos deixar estas mulheres esperando.

Os trabalhadores foram deixando o local um a um até só restar Seu Eustáquio e Heitor. O rapaz tímido com a situação permanecia de cabeça baixa desde o momento que ouviu seu nome sendo citado pela primeira vez. Seu Eustáquio olhou para aquele rapaz em sua frente e disse:

– Você fez um bom trabalho aqui hoje, rapaz!

– Obrigado, Seu Eustáquio.

– Seus pais devem estar muito orgulhosos do homem que você se tornou. Eu me lembro de tê-lo visto quando você tinha mais ou menos a idade do meu filho caçula, talvez um pouco mais novo do que ele é hoje.

– O senhor vai me desculpar, mas eu não me lembro muito do senhor. Só me lembro de algumas histórias que minha vó contava.

– Sua vó… grande mulher; uma sábia mulher. Sinto falta dela.

– O senhor a conheceu bem?

– Sim, a conheci. Minha mãe ia sempre à casa dela. Ela contava muitas histórias mesmo. Pena que já se foi. Seu avô também era um grande homem… Seu Carlos. Eu me lembro de tê-lo conhecido também.

– Sim, ele era. Eu me lembro muito pouco dele, mas as lembranças que tenho são as melhores. Prometi ao meu pai, que no dia que eu tiver um filho, colocarei o nome dele de Carlos, assim como o meu avô.

– Tenho certeza que onde quer que ele esteja ficará muito feliz. Escute, filho, eu tenho uma coisa para você. Seu pai havia me dito que você vai à capital ano que vem, estudar medicina e que também está com planos de se casar.

– Sim, é verdade. Eu tenho uma linda namorada e provavelmente iremos nos casar ano que vem, e o senhor será convidado.

– Fico agradecido. Olha, eu guardei isso o dia todo e estava pensando em lhe entregar apenas quando fosse acertar o seu dia de trabalho. Mas depois do que você fez, acredito que este é o melhor momento — Seu Eustáquio entregou um cheque nas mãos de Heitor.

– Eu fico agradecido, Seu Eustáquio, mas são muitos zeros, não posso aceitar tal quantia.

– Pode sim, meu filho, não seja orgulhoso. Pense na sua faculdade, na sua futura esposa e no seu futuro filho, Carlinhos. Esse dinheiro vai ajudá-los, com certeza.

– Sei que sim, Seu Eustáquio. Aqui tem muito mais do que eu conseguiria ganhar como médico em pelo menos trinta anos de serviço, por isso mesmo que não posso aceitar.

– Façamos o seguinte, então. Finja que estou comparando a sua parte do ouro. Podemos fazer dessa forma?

– Seu Eustáquio?! Eu já nem queria aceitar essa história do ouro. Eu não fiz nada além do certo… o ouro está em suas terras, portanto pertence ao senhor. Não posso aceitar dinheiro por fazer a coisa certa.

– Não é por isso que dei a você metade do ouro.

– Não? E por que, então?

– Porque você incentivou esses homens com seu exemplo a serem honestos. Eles aprenderam hoje que honestidade sempre nos leva mais longe. Vamos rapaz, pegue o cheque, já que não o quer aceitar por bem, eu estou pagando sua parte no ouro.

Heitor aceitou o cheque como pagamento da compara de sua parte no ouro. Quando os dois chegaram para a refeição repararam todos os trabalhadores rindo e brincando, ele percebera que fizera a coisa certa. Seu Eustáquio anunciara aos demais trabalhadores que acabara de comparar a parte do ouro de Heitor, portanto, o ouro encontrado seria repartido em partes iguais com cada um deles e se quisessem sair de lá com o dinheiro em mãos, ele faria questão de comparar cada pepita de ouro acima do valor de mercado.

Aquela foi a maior festança que a Fazenda Repolhos já conhecera. Os motivos eram diversos: agradecimentos pela grande colheita, pela vida do Heitor, pela amizade, pelo achado em suas terras, enfim… A fama de Eustáquio aumentou ainda mais depois desse episódio e todos os anos iniciava uma nova busca pelo ouro em suas terras. Muitos dos trabalhadores tornaram-se amigos de Seu Eustáquio — nem preciso dizer que Clarice e Daniel se casaram, não é mesmo?! Heitor e Nicole também, e o casamento dos dois foi inteiramente bancado por Seu Eustáquio, que foi convidado para ser padrinho. A Fazenda Repolhos foi palco de muitos outros amores. Alguns anos depois, ela trocou o seu nome para Fazenda Felicidade, nome que permanece até hoje. Dizem que todos ali são felizes, menos o Touro Golias, que agora se chamava Davi.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *