Vida Longa ao Rei

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– Como ele está?

– Posso ser sincero?

– Claro que pode, Doutor, aliás… deve!

– Certo… não há muito o que fazer. É melhor chamar a família e os amigos mais próximos para se despedirem.

– Mas… o senhor é o melhor do mundo, fizemos questão de trazê-lo aqui. Está me dizendo que não pode fazer nada?

– Olha, eu entendo sua preocupação e sua dor diante do fato. Mas, garanto que fiz tudo que estava ao meu alcance fazer, mas agora só um milagre poderá salvá-lo.

– Então vamos torcer por um milagre, pois não podemos perdê-lo. Nosso povo precisa dele!

– Então, meu jovem, é melhor começar suas orações… devido ao seu estado, temo que não passe dessa noite.


20 HORAS ANTES…

– Tem certeza que quer fazer isso?

– Assumir o reino do meu país e o servir com honras? É claro que quero!

– Sabe que não me refiro a isso. Eles assassinaram os três últimos Reis. Não pode garantir que será diferente com você.

– Vai ser, meu amor. Confie em mim. Temos o povo e o parlamento do nosso lado. O mais difícil já passou. Temos 83% de aprovação do parlamento e 79% de aprovação do povo. Amor, nós faremos história. Não quer que eu desista agora, ou quer?

– Na verdade, eu quero! Nós vamos ter nosso primeiro filho, não quero que ele cresça sem um pai.

– Está sendo egoísta e neurótica, Catarina. Nada vai acontecer a mim ou a nossa família, eu prometo. Agora precisamos ir, está na hora de assinar o documento de posse.

Henrique lançou um olhar sereno para sua esposa, ela por sua vez abaixou a cabeça e guiou a mão direita dele em direção à sua barriga que já estava bem grandinha devido ao sétimo mês de gestação. Henrique começou a passar a mão na barriga da esposa, e teve medo. “E se ela estiver certa?” — ele pensou. Henrique não permitiu que aqueles pensamentos continuassem em sua cabeça. Colocou uma das mãos no rosto da esposa e o acariciou; ela deu um último ajuste na gravata dele e o beijou, em seguida, ambos seguiram em direção ao gabinete do reino, onde pela primeira vez na história um cristão se sentaria na cadeira mais importante daquele país.

Lá fora os jornalistas faziam plantão para poderem registrar os primeiros cliques do já empossado Rei de Guárpade’s. As principais emissoras estavam cobrindo o evento e era também o assunto mais comentado em mídias alternativas. A polícia e o exército fizeram um cordão de isolamento onde o povo permanecia. Todos queriam prestigiar o Rei mais amado, o Rei do povo, ou como muitos diziam: “Um enviado de DEUS”.

O caminho até o gabinete do reino não era longo, no corredor era possível ver uma galeria com todos os chefes de estado desde a época do primeiro Rei deGuárpade’s. Mesmo andando rapidamente, Henrique observava cada um deles e tinha consigo que muito em breve iria tirar uma foto oficial que também iria adornar aquela parede. “Mas, e se minha esposa estiver certa? Não seria melhor aproveitar a imprensa para anunciar que não tomarei posse?” — esses pensamentos ainda o assombravam.

– É por aqui, senhor.

– Obrigado, Tenente…

– Cruz, senhor! Tenente Cruz.

– Obrigado, Tenente Cruz.

– A honra é toda minha, senhor.

Henrique abriu a porta do gabinete real. “Nossa, é muito maior do que na televisão” — ele se lembra de haver pensado. No gabinete estavam seu assessor pessoal, os líderes das forças armadas, o fotógrafo oficial do reino, o vice-rei, o chefe do parlamento, e sua esposa, carregando em seu ventre seu primeiro e futuro herdeiro.

Henrique cumprimentou um a um, a todos que estavam na sala, e deu um abraço caloroso no vice-rei. Antes de assinar o documento de posse, ele se ajoelhou e fez uma sincera oração a DEUS em agradecimento àquele momento. Logo em seguida, pegou a caneta tinteiro que só era usada para essa ocasião, debruçou-se sobre a mesa e assinou o documento que entraria para a história. O chefe do parlamento lhe passou a coroa real e ele sentou na cadeira para tirar a foto oficial como Rei de Guárpade’s.

Ao aparecer na porta do palácio real, uma multidão, vinda de todas as partes do país, gritava eufórica por seu nome. De crianças a idosos, ele era aclamado pela multidão que aguardava ansiosa por seu discurso de posse. As forças armadas se preparavam para a cerimônia cívica de posse. Um desfile com jipes, tanques, carros oficiais, a infantaria, cavalaria, os caças da força aérea, e vinte e quatro atiradores posicionados para saudar o novo Rei. O hino nacional começou a ser executado e ouviu-se a uníssono toda a multidão com a mão no peito naquele momento solene que marcaria não somente a história do Rei, mas de toda uma geração.

Após a execução do hino, um púlpito foi rapidamente montado em frente ao Rei e os telões ao lado projetaram sua imagem. A multidão foi ao delírio novamente. Enquanto a estrutura de som estava sendo finalizada, o Rei olhou para sua esposa e disse baixinho, quase que inaudível: “Eu amo você”.

– Está tudo pronto, senhor.

– Eu já estou indo. Deseje-me boa sorte… – disse Henrique à esposa.

– Boa sorte, meu amor.

O Rei levantou-se, suspirou fundo, olhou para o relógio, em seguida para a esposa e novamente para o relógio. Deu um sorriso com o canto da boca para o vice-rei, contemplou a multidão à sua frente e começou…

– Povo de Guárpade’s. É com uma imensa alegria no coração que hoje me torno o primeiro Rei cristão a governar essa nação. Somos um povo antigo, que subsiste desde os tempos em que Guárpade’s e Monera eram uma só nação. Essa nação sobreviveu a guerras civis e militares, invasões, pestes, desastres naturais e tantas outras coisas, pois o povo de Guárpade’s é forte, é guerreiro e unido; sempre conseguiu extirpar todo o mal que sobreveio a essa nação.

Mas nos últimos anos, essa nação se mergulhou na bruxaria e no ocultismo de tal forma que até nossas crianças foram envolvidas nestes atos de crueldade. E infelizmente, esse período durou mais de cem anos, onde homens que se levantaram para fazer a diferença foram brutalmente assassinados. Há exatos trinta anos, nosso povo vem lutando com fé para colocar um representante cristão para acabar com essa tirania e com esses bruxos e feiticeiros que fizeram de Guárpade’s uma terra assolada e tenebrosa.

E com a ajuda do povo nós vencemos. E vencemos mais de uma vez. Mas, essa corja que dominou esse país por anos se recusa a entregar o poder e assassinou os Reis que vieram antes de mim — estes não chegaram nem a tomar posse, muito menos chegar diante de vocês para esse discurso. Eles sequer tiveram a oportunidade que estou tendo hoje de estar perante vocês, não somente como Rei, e, sim, como Rei coroado.

Hoje, amado povo de Guárpade’s, nós começamos uma nova história para essa nação, onde os altares levantados a deuses estranhos, serão derrubados, onde não mais serão sacrificados animais e nem crianças em rituais sombrios, e onde o mal não triunfará. Hoje, como Rei de Guárpade’s, como autoridade máxima desse país, eu declaro que está proibido a prática de bruxaria e feitiçaria em Guárpade’s.

Ao terminar essas palavras, o Rei foi ovacionado pela multidão. Todos gritavam em coro o nome do Rei, pessoas estouravam fogos de artifício, e davam brados de vitória. A artilharia das forças armadas se preparava para dar seu show enquanto a esquadrilha da fumaça fazia lindas acrobacias no céu, até as nuvens se ocultaram para dar espaço ao espetáculo que se apresentava da posse do Rei.

A artilharia preparava-se para o primeiro tiro, quando o Rei sentou-se ao lado da primeira dama. Seriam dados três sequências de tiros em cada uma das vinte e quatro armas utilizadas pela artilharia, com pausa para recarregá-las. O general deu sinal para que a primeira sequência de tiros fosse disparada. A multidão que antes bradava enlouquecida fez silêncio para o ato solene. Quando se ouviu o primeiro tiro de cada uma das armas, e enquanto as mesmas eram recarregadas, a multidão foi ao delírio mais uma vez, ovacionando o Rei.

A artilharia aguardava ordens do vice-rei para dar o próximo tiro. Enquanto a multidão gritava cada vez mais forte o nome do Rei, os telões colocados estrategicamente apresentavam a tela dividida ao meio, onde era possível ver os rostos do Rei e vice. O vice-rei olhou rapidamente para o companheiro e fez o sinal com as mãos autorizando a segunda sequência de disparos e em seguida se sentou, então o Rei levantou-se e se dirigiu até o local onde daria ordem para o disparo da sequência final.


– O que está acontecendo?

– Não se explicar, a bala emperrou.

– Tome, pega essa no lugar.

– De onde saiu essa arma?

– Não importa, o Rei já dará a ordem, fique atento.


Antes de autorizar a sequência final de disparos, Henrique se lembrou de toda a sua trajetória para chegar até ali. Lembrou de sua esposa lhe revelando que estava grávida no mesmo dia que ele anunciou a candidatura, das ameaças, de ser olhado torto pelos amigos, do sonho de restaurar Guárpade’s à sua antiga glória, das reuniões estratégicas em sua casa… E enquanto subia a mão direita em direção a artilharia, com o sinal de positivo, lembrou-se do momento mais difícil de todos vividos até aquele segundo: da sua esposa lhe pedindo para desistir de tomar posse. Mesmo com todos esses pensamentos e reflexões, ele ergueu o braço direito e autorizou os disparos, mas o povo escutou um único tiro, e a voz de alguém que dizia:

– Fechem as portas. Detenham-no! Chamem uma ambulância, o Rei foi baleado.


AGORA… 

– Senhora… você precisa ser forte. O médico disse que não há muito o que fazer.

– Nããããããããoooooooooo! Nãããããoooo… Por quê?!…. Meu marido, nããããaããõoo!

– Acalme-se, senhora!

– Não me peça calma! É o meu marido ali naquele leito! É o pai do meu filho! Vocês já pegaram o desgraçado que fez isso?

– Não, senhora, o vice-rei escapou. Nós acreditamos que o crime foi premeditado e que ele teve ajuda de pessoas do alto escalão.

– Vocês precisam pegá-lo! Ele tem que pagar!

– Ele vai pagar, senhora. Agora, temo que a senhora não tenha muito tempo. É melhor se despedir. Vou deixá-la a sós com seu esposo. Se precisar de mim, basta tocar a campainha.

O soldado se retirou e deixou Catarina a sós com o esposo. Este, encheu os olhos de lágrimas quando viu a esposa se aproximando, sabendo que não lhe restava muito tempo, ele reuniu todo ar de seus pulmões para falar, mas ela o interrompeu:

– Deve ser difícil para você, não é? Saber que você era a esperança do povo, que chegou a tomar posse, que foi ovacionado por uma multidão enlouquecida, que teve 99% das aprovações nas urnas, que seu vice-rei, que também era seu melhor amigo de infância, te traiu, e que você não vai ver nascer seu primeiro filho… deve estar sendo muito difícil, não é?! — ela enxugou as lágrimas e tirou da bolsa um batom vermelho escarlate, passou nos lábios e continuou: — Se serve de consolo, o filho não é seu, e fui eu quem armei tudo para que o vice-rei levasse a culpa. Eu só não esperava que ele conseguisse fugir. Sabe por que você ganhou? Porque minha família é poderosa e comprou muita gente para te colocar nessa posição. Sabe aquele povo lá fora? Eles não vieram assistir sua posse, eles vieram assistir sua morte. E sabe por que fiz isso? Porque eu sou da mais antiga família de feiticeiros de Guárpade’s. Herdeira direta de Nizíria, e a primeira bruxa. Eu só permiti que você chegasse até aqui para poder olhar para ti uma única vez e falar… Guárpade’s nunca será governada por um cristão, nem nessa, nem em outra vida. Agora, acho que você não precisa mais desse oxigênio, não é mesmo?!

A primeira dama se preparava para desligar o oxigênio do Rei quando viu as portas do quarto se abrirem e adentrarem o general, o vice-rei, e o chefe do parlamento. Quando viu a cena, ela começou imediatamente a chorar, gritar, e dizer:

– Vocês o acharam! Prendam esse homem! Façam justiça ao meu esposo que está enfermo e não passará dessa noite! Por sua culpa, meu filho crescerá sem pai!

– Cale-se, Catarina! Chega de encenações! — disse o Rei, levantando-se da maca e se desprendendo dos aparelhos.

– Mas, como isso é possível? E… eu… eu…v…. eu vi vo…. voc…. você… levar um tiro no peito.

– Já ouviu falar em bala de festim? Ou sangue artificial? O general descobriu que você estava por trás de uma conspiração para me matar assim que eu tomasse posse. Ele, então, contou ao vice-rei porque sabia que eu iria escutá-lo e nós armamos um bom plano para pegar você, e o melhor de tudo foi que você colaborou bastante quando resolveu jogar a culpa no meu amigo. E nesse exato momento, toda essa nossa conversa está sendo transmitida em rede nacional para todo o povo de Guárpade’s e também todas as nações do mundo. Você e sua família não poderão pedir asilo político em nenhum lugar desse planeta.

– M… mas… eu… é mentira, meu amor. Como pode acredita neles? Eu sou sua esposa, a mãe dos seus filhos, eu amo você.

– Para com essa farsa, Catarina. Não se lembra que um pouco antes deles chegarem, estava prestes à desligar meu oxigênio?

– Era para te poupar do sofrimento, meu amor.

– Chega, não quero mais ouvir suas mentiras. Tirem-na daqui.

Catarina foi levada aos berros pelos guardas e Henrique sentou-se na maca onde estava.

– A guerra acabou, meu amigo — disse o vice-rei.

– Aí que você se engana. A guerra está apenas começando. Mas, não vamos falar disso hoje. É tempo de comemorar, pois, juntos, faremos de Guárpade’s uma nova nação.

– Que assim seja! Viva o Rei!

– Viva Guárpade’s!

 

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