Suzana

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Haviam tantas dores em seu olhar, como se ela carregasse todo o peso do mundo em seus ombros. Havia um semblante triste, desfalecido, abatido e angustiado. Sua fala não era percebida, na verdade ela sequer era notada, passava despercebida em meio há uma multidão de pessoas. Mesmo quando havia só ela numa sala ninguém a reparava, as pessoas olhavam o salão oval, os lustres no teto, as molduras nos quadros que ornamentavam a parede, os detalhes do corrimão da escada de madeira esculpido a mão, o vaso de porcelana que enfeitava a entrada da escada, o charuto recém acendido e colocado no cinzeiro, as velas que estavam apagadas no candelabro, os vitrais com formas angelicais, as paredes de cor carmesim e até mesmo sentiam um aroma de camomila vindo da chaleira sob a mesinha de centro, mas ela… ninguém a reparava, ninguém a sentia, ela era um verdadeiro fantasma naquele lugar.

Não que ela fosse uma figura horripilante interna ou exteriormente. Pelo contrário, ela era uma linda ruiva natural, com cabelos tão lisos como a crina de um mangalarga machador, sua face foi perfeitamente desenhada por Deus e esculpida por anjos, ela apresentava uma beleza uniforme, todo o seu rosto tinha uma perfeita simetria, ela tinha lábios carnudos e de um rosa vivo, nas suas bochechas eram visíveis as sardas que adornavam com perfeição sua maçã do rosto, um pouco abaixo era possível ver duas lindas covinhas que apareciam sempre que ela sorria, o problema era que ela já não sorria há bastante tempo.

Seu corpo era como apreciar montanhas no horizonte, suas curvas dariam inveja a qualquer donzela e fariam qualquer homem cair aos seus pés. Ela apresentava mãos delicadas, com unhas cuidadosamente feitas e pintadas no estilo francesinha. Ela usava um lindo vestido floral que apertava a sua cintura e de certa forma avantajava seu busto, em seus pés ela usava uma sapatilha estilo bailarina e todo seu corpo exalava um doce aroma de lavanda. Ela era perfeitamente linda e mesmo assim ninguém a notava.

Se ela era bela por fora, seu interior, isso é, sua personalidade não deixavam a desejar. Ela era considerada doce, meiga, educada, romântica, inteligente, caridosa, sincera e todos os adjetivos mais que existissem. Para ser sincero, talvez nem existissem adjetivos capazes de qualificá-la. Ela dividia seus dias entre colher flores no jardim pela manhã, ajudar os mais necessitados antes do almoço, preparar as refeições da família, sair a tarde para visitar os órfãos e viúvas e ensinar dança para as crianças de uma pequena escola.

Ao cair da noite, ficava olhando as estrelas em sua varanda e imaginando que um dia ela seria uma delas na vasta imensidão do céu, sempre que imaginava isso, um sorriso singelo brotava de um dos cantos de seus lábios. Ela gostava de pensar que no dia que deixasse a terra, viraria uma estrela e estaria em sua eterna morada olhando e iluminando a todos.

Suzana sempre sonhara com o espaço. Desde criança seu maior sonho era poder voar, subir o máximo que conseguisse para tocar as nuvens e quem sabe prová-las. Ela imaginava que as nuvens eram feitas de algodão doce, ou talvez que elas fossem o próprio maná descrito nos tempos antigos. Ela até pensava que se voasse muito alto poderia enxergar toda a terra lá de cima, como os astronautas fazem. Ela esperava um dia poder chegar a lua e testar se realmente ela poderia flutuar se estivesse lá. Mas, isso eram sonhos de criança, agora Suzana era uma mulher, uma mulher que havia sido obrigada a deixar pra trás o sonho de criança e acomodar-se com a vida monótona, triste e vazia dos habitantes de sua cidade.

Mesmo amando colher flores no jardim, ajudar os mais necessitados, preparar as refeições da família, visitar os órfãos e viúvas, ensinar dança para crianças de uma pequena escola, e olhar as estrelas de sua varanda, Suzana queria mais, ela queria ser livre, queria se sentir viva, e talvez voar. Porque não? Mas, nem sempre nossos sonhos se tornam reais, não é mesmo? Pelo menos, não se nos acomodarmos com a situação, não se ficarmos parados no mesmo lugar, plantados como árvores e esperando que o lenhador venha nos arrancar de lá. Suzana se sentia uma árvore prestes a ser cortada, mas ela não queria isso.

Um certo dia ela acordou pela manhã, vestiu sua melhor roupa, apanhou sua melhor sapatilha, passou seu perfume de lavanda em todo corpo, o perfume que era usado somente em ocasiões especiais, penteou bem seus cabelos ruivos desembaraçando cada fio, deu uma bela olhada no espelho e se sentiu linda, ao fazer isso ela sorriu e viu suas covinhas refletidas naquele grande espelho em sua penteadeira. E então ela saiu, com um rumo certo, focada numa direção que dividiria sua vida dali para frente.

Ao passar pelo jardim ela não colheu uma flor como de costume, mas saiu saltitando e cantando uma canção que só ela entendia. Naquele dia ela não ajudou os necessitados, não visitou os órfãos e nem as viúvas, não ensinou dança para as crianças da pequena escola, e não sentou-se em sua varanda para apreciar as estrelas. Ao sair de casa ela foi em direção ao centro da cidade, onde fora cumprimentada por todos os habitantes que lá estavam, os homens gentilmente lhe faziam reverências e as moças pegavam em ambas abas de seus vestidos e curvavam-se levemente para frente, as crianças que a encontravam a abraçavam e depois seguiam seu caminho, os anciões lhe ofereciam uma fruta ou um pão, mas ela recusou todos os presentes, estava determinada naquele dia, também pudera, ela tentaria realizar seu sonho de criança.

Ninguém sabe ao certo porque Suzana decidiu fazer aquilo naquela manhã, vasculharam seu quarto atrás de uma resposta, mas nada encontraram além de alguns rabiscos de criança, na verdade vários rabiscos que reproduziam vez após vez aquela cena. E em todos esses rabiscos, ela conseguia realizar sua façanha, nenhum deles previa o fatídico fim, talvez porque uma criança não poderia prever o que estava para acontecer, afinal de contas, tudo é muito belo e mágico num sonho de criança.

Quando Suzana chegou na biblioteca da cidade, pediu permissão para chegar ao sino e assim foi concedida. Ela fazia isso vez por outra, gostava de um lugar calmo para ler, um lugar longe de tudo e de todos, sua única companhia era o sino de bronze que de tão antigo não era mais usado, ele havia sido substituído por um alarme digital há muitos anos atrás e mesmo esse último já não era mais usado depois que a cidade construiu sua prefeitura e parou de usar a biblioteca para suas assembleias.

Chegando ao topo da torre onde ficara o sino ela deu-lhe um abraço e o sino fez um pequeno e quase inaudível barulho, como se de alguma forma ele estivesse retribuindo aquele abraço. Para ela, aquilo bastou, ela sorriu e preparou-se para realizar seu plano. Antes que prosseguisse ela pegou uma caneta tinteiro e um pedaço de papel e escreveu uma mensagem que só seria lido alguns dias depois do acontecido. Então, sem pensar duas vezes e crendo que de alguma forma mágica e misteriosa o seu plano daria certo, ela subiu no parapeito da torre e pulou.

Suzana queria voar. Ela queria ser livre. Ela queria uma vida diferente e não caminhar num ciclo sem começo e nem fim. Talvez ela sempre soubesse que não conseguiria, mas ela tinha que tentar, mas por precaução, ela escreveu um bilhete um pouco antes de pular que dizia:

“Eu sempre aprendi que devemos seguir nossos sonhos. Mesmo que eles pareçam impossíveis. Desde pequena eu queria poder voar como os pássaros, eu queria subir o mais alto que pudesse e provar das nuvens de algodão doce. Eu queria poder ir o mais longe que conseguisse e romper os limites da terra. Mas, eu deixei meu sonho de criança apenas nas páginas já amareladas do meu diário. Mas, essa manhã eu decidi que seria diferente, que eu iria pelo menos tentar ser livre, que eu iria acreditar no impossível e que se eu acreditasse de todo meu coração e com toda a minha vontade, eu seria capaz de voar. E, se você está lendo esse bilhete, é porque meu plano deu errado. Então, aqui vão algumas instruções:

Se eu morri, não quero uma cerimônia grande, nem que se gaste muito dinheiro comigo. Prefiro que gastem o dinheiro do meu ofício fúnebre com os órfão e viúvas e que me enterrem debaixo do carvalho da entrada da cidade.

Agora, se eu não morri mas estou num estado vegetativo ou semi-vegetativo. Eu quero que me deixem com essa roupa que escolhi para realizar meu sonho de criança.  Construam um quarto com paredes carmesim e cercado de vitrais com figuras angelicais, a porta desse quarto deve dar de frente para o sino da biblioteca, porque eu quero contemplá-lo todos os dias enquanto estiver viva. Coloquem um lustre acima de mim e ornem as paredes com os quadros e molduras feitos pelos órfãos e viúvas que eu visito todos os dias, tragam as crianças para dançarem para mim sempre que for meu aniversário. Peçam autorização ao prefeito para construírem esse espaço, tenho certeza que ele irá conceder o meu pedido.

Peçam para que meu pai acenda um charuto e coloque sobre o cinzeiro, eu quero poder sentir o cheiro que ele deixava lá em casa todas as manhãs. Façam uma escada para um terraço onde seja possível observar as estrelas, e que o corrimão dessa escada seja esculpido a mão pelo melhor artesão que encontrarem, coloquem uma mesinha de centro perto de mim com um candelabro com velas sempre apagadas e uma chaleira que exale um aroma de camomila todas as manhãs, façam com que esse salão tenha um formato oval e que ele contenha um grande e belo vaso de porcelana na entrada da escada.

É nesse lugar que quero passar todos os dias que me restarem. Não sintam pena de mim, mas por favor, visitem o lugar todos os dias, não quero me sentir sozinha. Passeiem por esse lugar sem se importarem com a minha presença, na verdade sem me notar, finjam que sou um fantasma ali, eu só quero saber que vocês estão perto e que não se esqueceram de mim e da mesma forma, mesmo que eu não possa falar ou me mexer, vocês vão sentir em meus olhos o quanto eu amo cada um de vocês.”

E assim, desde aquele triste dia até hoje já se passaram treze anos. Treze anos sem que Suzana colha as flores em seu jardim todas as manhãs, treze anos sem que ela ajude os mais necessitados, treze anos sem que ela visite os órfãos e as viúvas, treze anos sem que ela ensine um novo passo de dança para as crianças da escola, treze anos sem que ela se sente em sua varanda para apreciar as estrelas. E treze anos que ela está ali, na sua prisão oval, de paredes cor carmesim, com vitrais com figuras de anjos e um candelabro que nunca se acende. Sem ser vista, sem ser notada, apenas com um olhar triste que está sempre voltado e focado na mesma direção, o velho sino da torre da biblioteca, mas é assim que Suzana escolheu passar os dias que lhe restam, talvez ela não tenha conseguido voar ao pular daquela torre, mas ninguém sabe de fato por onde sua mente voa todos os dias enquanto ela olha fixamente sempre para a mesma direção.

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