Somente o Tempo

Tempo de leitura: 4 minutos

Esse conto é inspirado numa linda jovem que conheci, mas ela não mora aqui, mora num lugar distante do outro lado do oceano. Eu não escutei sua voz, mas tenho impressão que ela tem uma daquelas vozes doces que nos dá vontade de escutar o dia inteiro sem parar. Mas, eu vi seu sorriso, eu vi duas fases do seu sorriso; uma de agora e outra de dois anos e seis meses antes de conhecê-la, que é por onde nossa história começa…



Portugal, 20 de junho de 2014

Amanda é uma menina alegre, sorridente, dessas que se vê em comerciais de TV. Está sempre iluminando o ambiente com seu sorriso, e onde quer que vá é sempre notada. É uma menina educada, de classe, cheia de vida. Ela tem muitos sonhos; dentre eles, viajar o mundo, ou pelo menos, parte da Europa. Ela pensa de qualquer dia desses sair por aí, sem rumo, sem direção, apenas com a mochila nas costas e uma vontade imensa de seguir rumo ao desconhecido.

Amanda é jovem, e como todo jovem, ela pensa em conhecer um rapaz que irá mudar completamente a sua vida. Alguém que a complete e a faça perder o fôlego, alguém por quem ela chamaria quando estivesse se sentindo sozinha, ou até mesmo, aquele que iria abraçá-la quando ela estivesse se sentindo com medo. A vida inteira ela sonhou em encontrar alguém assim, mas talvez esse tenha sido o erro de Amanda: acreditar em contos de fadas.

Nas idas e vindas da vida de Amanda, ela conheceu alguém. Imediatamente, seus olhos brilharam, seu coração palpitou, e ela sentiu algo dentro de si como se dissesse: “É ele!”. Mas às vezes, nosso coração nos cega, e não damos atenção aos imensos sinais que Deus ou o universo envia para tentar nos impedir de cair no erro. Amanda não percebeu esses sinais. Pelo contrário, ela se envolveu, se deixou levar por esse rapaz, e acreditou cegamente que ele era de fato o seu príncipe encantado, seu prometido, o seu amor para toda vida. E, infelizmente, as consequências de não perceber os sinais são arrasadoras.

Amanda era muito feliz quando conheceu esse rapaz, mas… quase que do dia para a noite, ela mudou. E mudou sem perceber, sem se notar — ela simplesmente mudou. Ao invés de sorrisos radiantes, sua face mostrava um sorriso singelo e sem graça, bem parecido com aquele que Da Vinci retratou em “Monalisa“. Você já deve ter percebido o que estou falando, não é?


Brasil, 30 de janeiro de 2017

Sua feição não era mais a mesma. Antes Amanda era uma menina sonhadora que acreditava ser capaz de mudar o mundo, mas agora… ela não conseguia mudar nem a si mesma. Via-se presa numa relação de sofrimento, dor e decepção. Decepção, não… decepções, uma atrás da outra. Aquela menina que antes tinha vontade de colocar uma mochila nas costas e viajar o mundo, agora mal saia de casa. Mal podia ir ao mercado ou apenas sair para tomar um café. Ela estava presa numa jaula da qual havia jogado a chave fora, e sua única esperança era de fato encontrar alguém que a tirasse de lá, e ela conheceu…

Certo dia, um bom rapaz se aproximou, viu Amanda naquele estado e percebeu que ela era muito mais do que aparentava ser. Ele enxergou o anjo por trás da menina ferida, ele viu o que nem mesmo ela era capaz de perceber. Instintivamente, ele juntou todas as suas forças para arrombar a porta daquela jaula e libertar Amanda lá de dentro. Mas sabem o que ela fez como gesto de agradecimento? Ela o mandou embora e decidiu por livre espontânea vontade retomar a jaula, porque, para ela, o mundo aqui fora havia deixado de ser alegre e se transformara num lugar de trevas e ilusão onde ela estava sempre à moldar sua própria verdade.

Aquele rapaz de coração partido saiu sem olhar para trás. Sem entender como alguém aceitaria viver naquela condição, e o pior, por que Amanda não queria se libertar? Por que ela não queria assumir o controle de sua vida? Foram tantas indagações no caminho de volta até que ele parou de se questionar, pois percebeu que só quem podia dar as respostas, escolhera se trancafiar numa jaula sem vontade de sair de lá. Então, ele simplesmente esqueceu-se daquele dia, e viveu.

Enquanto isso, nossa protagonista estava experimentando novamente o doce veneno de seu capataz, o homem que ela julgou ser um príncipe, mas que retirou sua alegria de viver. Aquele que não a trancou numa jaula física, mas, sim, numa mental. Ele a aprisionou de tal forma, que ela não se sente inteira longe dele, ela não se sente capaz, tem medo de tudo e acredita estar cheia de limitações. Mal sabe ela que só quem pode verdadeiramente romper os lacres daquela prisão é ela mesma, e que no dia que o fizer ela voltará a sorrir novamente. Não esse sorriso sem graça e singelo, mas, sim, aquele sorriso radiante da verdadeira Amanda. Se ela fará isso um dia ou não; somente o tempo

 

Deixe seu comentário