O Menino Emanuel

Tempo de leitura: 11 minutos

– O que está lendo, meu filho?

– Aquela história de como vocês escolheram meu nome.

– É uma boa história, quer que a mamãe leia para você?

– Dessa vez não, mamãe. Eu quero ler sozinho.

– Tudo bem, meu coração. Eu estou bem ali na cozinha se precisar.

– Tudo bem, mamãe, e obrigado!

Maria beijou seu rosto e saiu. O menino Emanuel era uma doce criança; em seus olhos era possível perceber a mais tenra pureza, em seus lábios sempre existia um largo e brilhante sorriso, e ele estava sempre à correr pela casa, mas não nesse dia, como se pressentisse que algo estava para acontecer.

Emanuel era muito jovem, mas já carregava sozinho o peso de ser uma criança especial. Diferente de seus irmãos e também das outras crianças da comunidade. Mas isso não o impedia de brincar ou sorrir com os demais, pelo contrário, isso fazia com que ele sempre se destacasse e que seus amiguinhos o seguissem por onde quer que andasse.

Sempre que possível, ele gostava de ver seu pai trabalhando. Ele trabalhava ali mesmo, no quintal de sua casa. Seu pai era muito habilidoso com as mãos e poderia reproduzir em madeira qualquer coisa, qualquer coisa mesmo; uma simples mesa e até mesmo uma águia construindo o seu ninho. Essa habilidade que seu pai tinha, fazia com que o mesmo estivesse sempre ocupado, de maneira que nunca faltasse serviço.

– Emanuel? Emanuel?

– Estou aqui! Já estou indo!

O menino largou o pedaço de papel que estava segurando e foi em direção ao seu primo que o chamava. Emanuel e seu primo João sempre brincavam juntos. João era mais velho, mas somente alguns meses. Ele costumava dizer que preparava o caminho onde Emanuel iria passar.

– Nossa, quanta demora. O que estava fazendo?

– Estava lendo aquela história que a mamãe me contou sobre por que meu nome é Emanuel.

– Ah sim! Você não se cansa de ouvir isso, né?

– Na verdade, não. Eu amo saber dessa história.

– Está certo… Vamos brincar? Chamei PedroLucas e Mateus também. Nós vamos contar os barcos de pesca, quer vir conosco?

– Quero muito, mas preciso pedir à minha mãe… me espera.

– Claro que espero! Se eu não te esperar, quem é que vai preparar o caminho onde você deve passar?

– Verdade, primo. Você sempre prepara o caminho.

Após a autorização de Maria, os dois partiram. Passaram na casa dos meninos para buscá-los e saíram em carreata. Tinham tantas histórias para compartilhar, parecia que não se viam há anos, mas, na verdade, estiveram juntos no dia anterior, e no anterior antes desse. Estavam sempre juntos, eram inseparáveis, um cuidando, ajudando e protegendo o outro. Emanuel, nessa hora, se destacava. Por várias vezes, ele até se machucou para salvar um amiguinho de algum bicho ou qualquer outro perigo.

– Já chegamos?

– Quando chegarmos você saberá, Pedro.

– Mas eu quero contar logo os barcos… vejam! Aqui já tem muitos barcos para contar, por que temos que ir sempre onde você quer, João?

– Porque eu sempre preparo o melhor caminho para que vocês possam seguir, principalmente o meu primo Emanuel. Vocês sabem que eu devo protegê-lo!

– Mas eu quero pelo menos uma vez escolher o caminho, e se não for dessa forma, hoje eu não vou.

– Ora, deixe disso, Pedro. João sempre prepara o caminho e nos deixa seguros.

– Não se meta, Mateus. Ninguém te chamou na conversa. Você só está aqui porque sabe contar melhor do que todos nós.

– Não ligue para isso, Mateus. O Pedro só está nervoso.
João, e se hoje… somente hoje, Pedro escolhesse o caminho?

– Não sei, Emanuel…

– Por favor, por mim. Apesar de Pedro ser um pouco agressivo às vezes, ele sempre está conosco e nunca negou nossa amizade e olha que ele já poderia ter feito isso três vezes.

– Tudo bem! Mas só hoje. Todos nós sabemos que sou eu quem prepara o caminho.

– Obrigado, João! E aonde iremos então, Pedro?

– Deixe-me ver… o que fazer? Para onde ir? Não sei ao certo, mas acho que poderíamos ir por ali, perto daquelas rochas.

– Rochas? Rochas?! É muito perigoso, e ali costumam ter crianças malvadas que batem nas outras. Eu não recomendo.

– Ora, cale-se, João. Hoje é o meu dia de escolher o caminho e eu digo que iremos por ali.

– Acalmem-se, meninos. João, nós concordamos que Pedro escolheria o caminho, então vamos segui-lo. Se a gente perceber alguma movimentação estranha, nós voltamos. O que acha?

– Tudo bem, Lucas. Façamos desse modo.

As crianças partiram em direção às rochas; um lugar desconhecido para eles, até então. Eles nunca haviam ido tão longe. Sempre ouviam histórias de meninos maus que batiam nas outras crianças e roubavam seus pertences. Mas Pedro era a criança mais destemida. Ele nunca apresentava estar com medo, pelo contrário, ele gostava do desafio. Estava sempre com um pedaço de pau na mão como se simulasse a espada de algum soldado. Como aqueles soldados que vemos em filmes, estilo os soldados romanos. Vez por outra era possível ver Pedro travando suas batalhas imaginárias e gladiando com algum malfeitor, mas isso era em seu imaginário.

Quando chegaram ao local, avistaram de longe uma figura alta e forte. Pedro logo percebeu que se tratava de uma criança, mas que talvez ela fosse uns três ou quatro anos mais velha do que eles. Os meninos ficaram com medo, estavam se lembrando das histórias dos garotos maus, mas Pedro… ah… Pedro, não! Ele tinha que se mostrar forte, então caminhou na direção daquela silhueta.

– Ei… meu nome é Pedro. Como você se chama?

– Por que quer saber?

– Eu e meus amigos estamos indo brincar. Vamos contar barcos. Quer vir conosco?

– Contar barcos… Quem inventou essa brincadeira idiota?

– Na verdade, é mesmo uma brincadeira idiota. Sugere algo melhor?

Lucas nessa hora sentiu-se bastante ofendido, era dele a ideia de contar barcos. E Pedro até pouco antes de encontrar aquele jovem desconhecido, era o campeão da contagem de barcos. Ele quase sempre vencia e fazia questão que todos reconhecessem isso. Na maioria das vezes, era ele quem convidava os demais para irem à paraia contar barcos, então Lucas realmente não entendia por que Pedro havia dado aquela resposta ao garoto desconhecido.

– Vocês têm algo para comer?

– Não muita coisa; só pão e algumas uvas.

– Uvas? Nada para beber?

– Não… não trouxemos nada para beber porque não pretendemos demorar — disse Emanuel um tanto quanto nervoso. O garoto desconhecido, ao perceber seu nervosismo, indagou:

– E quem é você, rapaz?

– Ele é Emanuel, meu primo!

– Ora, ora, Emanuel… você não sabe falar? Precisa de um porta voz?

– Não, não preciso. É que esse é meu primo João e ele só quis se apresentar.

– João, o que você trouxe para comer?

– Eu trouxe mel… e alguns…

– Alguns o quê?

– Nada, esquece…

– Não, faço questão de saber… mel e o que mais?

– Ele tem um paladar diferenciado, tenho certeza que não irá gostar de saber — respondeu Lucas, lançando um olhar bem firme ao estranho garoto parado à sua frente.

– Pois bem! Com exceção do garoto que tem um paladar diferenciado, todos vocês… entreguem toda a comida.

– Ou o quê? – perguntou Pedro, num tom feroz.

– Ou vocês não vão gostar de descobrir. — O garoto desconhecido deu um alto assobio e começou a surgir uma série de outros garotos desconhecidos ao encontro dele. – Vocês entregarão por bem ou por mal?

– Não entregaremos nossa comida. A mãe do Emanuel fez com muito carinho para nós.

– Ora, não seja bobo, Pedro. Entregue logo. É melhor sairmos daqui sãos e salvos do que machucados.

– Machucados! Isso é uma boa ideia — gritou o menino desconhecido. Ele olhou os cinco amigos e logo continuou: — Vocês entregarão a comida de um jeito ou de outro.

Nessa hora, Pedro chegou ao máximo de sua irritação, suspendeu o pedaço de pau que estava segurando, e imaginando ser uma espada, mirou o rosto do menino desconhecido, acertando em cheio a sua orelha; essa, por sinal, começou a sangrar e isso fez com que o menino desconhecido ficasse ainda mais nervoso. Os demais garotos desconhecidos foram em direção aos cinco amigos, mas o garoto que estava sangrando interviu, dizendo:

– Parem! Vou deixá-los partir, mas a comida ficará aqui e um de vocês irá pagar com sangue pelo que o menino Pedro me fez. Pois bem… qual de vocês será?

– Tem que ser Pedro. Se foi ele quem o feriu que seja ele a pagar!

– Não! Pedro, não. Eu quero que ele sofra vendo um de seus amiguinhos apanharem e sabendo que isso é culpa dele. – O garoto desconhecido fez um sinal para os outros meninos desconhecidos que imediatamente seguraram Pedro. Esse, por sua vez, ficou berrando algo praticamente inaudível, mas talvez tenha sido: “Me solta, me solta” — E então… algum voluntário? Ou terei que escolher? – Um silêncio profundo pairava no local, até que uma voz tímida saiu no meio dos cinco amigos…

– E… eu… eu vou. Pode me machucar. Mas deixe meus amigos.

– Olha, temos um corajoso. Tragam-no aqui!

O menino foi levado bruscamente ao encontro do garoto desconhecido, enquanto Pedro se debatia e os demais amigos tentavam em vão socorrer aquele que estava sendo levado.

– Não precisam vir me socorrer, ele não está me obrigando, eu estou me entregando voluntariamente. Porque é isso que os amigos fazem, dão a vida uns pelos outros.

Eu não poderia nem de longe descrever a cena que se seguiu. É cruel demais para ser descrita. Os meninos desconhecidos deixaram um dos cinco amigos quase morto. Seu rosto estava desfigurado, havia buracos em ambas as mãos e pés, e um perto de sua costela; de sua cabeça descia muito sangue, mas tanto sangue, que fazia com que seus cabelos grudassem na pele. Ele mal podia respirar, talvez estivesse com hemorragia interna ou algo assim. Após o acontecido, os meninos desconhecidos partiram levando embora toda a comida.

– Emanuel? Emanuel? Ora, fale comigo, meu primo. Você está vivo?

– Temos que tirá-lo daqui. Vá buscar ajuda, Pedro.

– Emanuel, por favor, fale comigo. Eu sabia que não era uma boa ideia ter vindo para cá.

Reunindo forças de todo seu ser, (e fazendo isso com um esforço inimaginável, já que descobriria mais tarde, naquele mesmo dia, que havia líquido em seus pulmões, o que estava de fato dificultando a respiração e a fala, e mesmo após ter apanhado tanto, os médicos ficaram surpresos por ele não ter quebrado nenhum osso. Ao lembrar-se disso, todos ainda dizem que foi um verdadeiro milagre). Emanuel conseguiu expressar-se bem baixinho:

– Eu estou bem… eu vou ficar bem. Ainda não é a minha hora.

– Graças a Deus, Emanuel. Tem algo que eu possa fazer por você?

– Tenho sede

Ao dizer essas palavras, o pequeno Emanuel adormeceu e só despertou três dias depois. Fora grande o seu sofrimento, mas nada comparado a tudo que ainda aconteceria na vida do menino Emanuel. Mas isso é história para outro conto. O fato é que o menino Emanuel é um exemplo a ser seguido. Seu amor por seus amigos é algo que merece ser lembrado. O fato correu por todas as cidades vizinhas, e o menino Emanuel tornou-se bastante conhecido. Conheceu novos amigos e teve várias outras histórias para contar. As pessoas que conhecem Emanuel, ainda nos dias de hoje, sempre dizem que ele é um pedaço do céu, ou melhor, dizendo… Emanuel é Deus conosco!

 

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