O bom velhinho

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– Existe, sim!

– Não existe!

– Existe, sim! Eu sei que existe!

– Crianças! Parem com isso agora! Arthur, larga seu irmão, e você, Davi, o que pensa que está fazendo? Que discussão é essa?

– Mamãe, o Davi falou que Papai Noel não existe.

– Mas é verdade! Você sabe que é verdade, mãe! Por que não conta para ele?

– Já para o quarto, Davi.

– Mas mãe…

– Agora!

Enquanto Arthur ia em direção ao seu quarto resmungando, a mãe colocava o filho caçula no colo e tentava encontrar as palavras certas para explicar que o bom velhinho, na verdade, não existia, e que o Papai Noel que ele sempre via era na verdade seu próprio pai numa roupa alugada. Ela sabia que contar a verdade iria deixar Davi arrasado, mas ele estava crescendo e ela não poderia segurar a mentira por muito tempo, principalmente agora que o irmão caçula tinha dado com a língua nos dentes. Mesmo sabendo que estava prestes a destruir os sonhos do menino, ela decidiu contar a verdade.

– Meu filho, a mamãe precisa conversar com você.

– Mamãe, por que o Davi falou aquilo? Você sabe que o Papai Noel existe! A senhora já viu ele aqui!

– Arthur, a mamãe nem sabe por onde começar. Mas, apesar de seu irmão ter dito isso numa péssima hora, e da maneira mais errada possível, ele não mentiu. O Papai Noel realmente não existe. O bom velhinho que você vê aqui em casa todo natal é, na verdade, seu pai vestido como se fosse o Papai Noel. É ele quem deixa os presentes para você e seu irmão.

– É por isso que o papai nunca está aqui quando o Papai Noel está?

– Sim, meu filho. É exatamente por isso.

– Uau! Isso quer dizer que o meu pai é o Papai Noel?

– Sim! Quer dizer, não… Bem, ele é o nosso Papai Noel. Cada família tem seu próprio Papai Noel.

– A família do Juquinha não tem, mamãe. Ele me disse que nunca ganhou um presente de natal. Será que o papai poderia ser o Papai Noel dele também esse ano?

– O Juquinha te disse isso, filho?

– Disse sim, mamãe. Por isso que sempre peço para a senhora me deixar doar meus brinquedos antigos para ele. Ele sempre agradece e sorri bastante. Mesmo quando eu mando alguns brinquedos quebrados. Para a senhora ter uma ideia, o brinquedo que ele mais gosta é um carrinho de fórmula 1 que dei para ele, que tá faltando as duas rodas da frente, mas mesmo assim ele se diverte.

– Você realmente tem um bom coração, meu filho. Vou falar com seu pai sobre isso, e a mamãe promete que mesmo que seu pai não possa ir lá fantasiado de Papai Noel, nós vamos comparar um presente para o Juquinha e para a irmãzinha dele que vai nascer.

– Você promete, mamãe?

– Prometo, sim! Agora vem cá me dar um beijo bem molhado!

40 Anos depois…


– Como você consegue? Mesmo após todos esses anos, você ainda se veste de Papai Noel, compara presentes do próprio bolso e sai distribuindo para crianças carentes. Como consegue fazer isso?

– Lembra-se do Juquinha, Davi?

– O filho do pedreiro que morava na nossa rua? Lembro-me vagamente, por quê?

– Um dia contei à mamãe que ele não ganhava presentes no natal e que por isso eu sempre dava meus brinquedos usados para ele.

– E o que isso tem a ver com o fato de você ter se tornado “O Bom Velhinho”?

– Vou chegar lá. Eu pedi a mamãe para fazer o papai se vestir de Papai Noel e entregar um presente a eles. Ela me disse que conversaria com o papai e mesmo se ele não quisesse ir lá fantasiado de Papai Noel, ela iria comparar um presente para o Juquinha e a irmãzinha dele que iria nascer.

– E o papai foi?

– Sim, ele foi. E levou muitos presentes, além de brinquedos para o Juquinha e para a irmãzinha que ia nascer, ele levou fralda, leite, um peru de natal, outros tipos de carne, arroz, feijão, verduras… eu era pequeno, mas me lembro deles tirando tudo de dentro do carro. Eles levaram uma compara grande e o papai ainda deu dinheiro para o pai do Juquinha e prometeu ajudá-los com uma cesta básica todo mês até as coisas melhorarem.

– Então é por isso que o papai ia lá de vez em quando…

– De vez em quando, não. Uma vez ou duas vezes por mês.

– Como eu te disse, eu me lembro vagamente. Mas você ainda não respondeu o que isso tem a ver com o fato de você se torar o Papai Noel todo dezembro.

– Um dia eu estava na casa do Juquinha quando o papai chegou. Ele estava levando comparas e também um brinquedo para a Tereza, a irmã do Juquinha, que já tinha nascido. Daí o Sr. Manoel, pai do Juquinha, perguntou se ele poderia dar uma carona a ele até o lugar mais pobre da cidade. Meu pai disse que sim, mas que aquele lugar era muito perigoso, e perguntou o que ele ia fazer lá.

– E o que ele disse?

– Ele respondeu ao papai que iria levar os brinquedos que o Juquinha não brincava mais para as crianças carentes. E que embora ele não tivesse fantasia de Papai Noel, elas o chamavam de Bom Velhinho.

– E o que o papai fez? Ele o levou lá?

– Levou, sim! E levou o Juquinha e eu também. Mas quando o pai do Juquinha terminou de falar, o papai estava chorando muito.

– Sério? Eu nunca vi o papai chorar.

– Essa foi a primeira e última vez que vi nosso pai chorar. No caminho para o lugar, o papai passou numa loja de fantasias e comprou várias para o Sr. Manoel. Uma de Papai Noel, outra de Coelhinho da Páscoa e até uma de Fada do Dente para a esposa dele.

– E por que ele fez isso?

– Ora, para que o Sr. Manoel continuasse fazendo o bem àquelas crianças e alimentasse ainda mais a imaginação delas. O papai até chegou a ir junto com a mamãe em algumas dessas vezes. Ele e a mamãe iam vestidos de duendes.

– Tá, mas onde você entra nessa história?

– Depois que você se casou e saiu de casa, eu mantive contato com o Juquinha e o Sr. Manoel até ele falecer.

– Eu nunca soube disso.

– Pois é, uns três anos antes de morrer. Quando a doença já não o permitia mais se locomover, ele me deu a roupa de Papai Noel que o papai havia comparado para ele e me fez prometer que eu continuaria distribuindo presentes para as crianças em todo natal.

– E por que ele não passou a roupa e o legado ao Juquinha?

– Juquinha não mora mais no Brasil. Ele casou-se com uma americana enquanto fazia especialização em medicina nos Estados Unidos e infelizmente não pôde nem voltar para o enterro do pai. Mas em compensação, ele pagou o tratamento dele nos melhores hospitais. Eu sei disso porque ele mandava dinheiro todo mês para a minha conta e eu entregava ao S. Manoel.

– Como eu nunca soube de tudo isso?

– Eu e você nunca fomos muito próximos, você sabe, e os meus amigos menos ainda. Acabou que você se casou muito jovem e praticamente perdemos contato. E nós dois sabemos que você só mora comigo hoje porque está divorciado.

– Mas eu…

– Você o quê?

– Nada, esquece. Continue a história.

– Então, desde que ele me entregou a roupa, eu não paro mais de visitar as crianças daquela comunidade e lhes entregar presentes. Muitos dos meus ajudantes hoje, eram as crianças na época do Sr. Manoel ou da época que eu comecei. Alguns ajudam com trabalho e outras com dinheiro e brinquedos, mas a maioria ama saber que está retribuindo um pouquinho do que foi dado a cada um.

– É realmente uma história emocionante.

– É a primeira vez que te vejo chorar, Davi.

– Você ainda tem a roupa de duende que o papai usava?

– Tenho só a da mamãe, mas acho que não ia ficar bem em você.

– Não venha com essa! Posso te acompanhar essa noite?

– Claro que pode, esse é o meu presente de natal. Eu sempre quis fazer algo junto com meu irmão mais velho.

– É sério isso?

– Claro que sim! Mas antes, vamos passar numa loja de fantasias de um amigo, quem sabe não conseguimos uma fantasia de rena para você?!

– Rena, não! Duende.

– Tá bom! Hoje você é meu ajudante, duende.

– E você, Arthur, sempre foi uma criança boa, e hoje você é o bom velhinho!


MÚSICA TEMA: HAPPY CHRISTMAS – JOHN LENNON

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