Livro – Eu vou amar você pra sempre

Eu vou amar você pra sempre - Franklin S. Carter

CAPÍTULO 01
O PERFUME QUE VOCÊ GOSTA

Você sabe que eu só tenho cinco aninhos e ainda não sei escrever, mas pedi ajuda ao papai, para que ele escrevesse tudo que estou falando pra você. Hoje de manhã, eu fui no jardim da mamãe e colhi uma flor, a mais bonita que encontrei lá. Ela era uma rosa branca, achei que ia combinar com a cartinha. Sabe aquele perfume que a mamãe passa em mim, que você gosta? Eu estou usando ele agora e também passei ele na cartinha, para que você possa sentir o meu cheiro quando receber.

Ontem eu estava me lembrando daquele dia que fomos no shopping, você lembra? O papai e a mamãe deixaram a gente brincar num monte de brinquedos, mas você não queria sair do carrinho. Quando eu falei isso com a mamãe, ela chorou. Me desculpe, eu não queria fazer ela chorar, mas ela também sente a sua falta.

O papai é mais sério, ele não chora muito. Pelo menos, não na minha frente, o que é um pouco engraçado, porque enquanto ele está escrevendo essa carta, ele está chorando. Até briguei com ele pra não deixar nenhuma lágrima cair no papel. Ele sorriu com o canto da boca, me beijou e me colocou no colo.

Tá um cheiro delicioso aqui, a mamãe tá fazendo aquele macarrão que você gosta, aquele que tem bolinhas de carne, queijo e ovo. A vovó vem almoçar aqui hoje, a mamãe tá animada com isso. Posso te contar um segredo? O papai não gostou muito da ideia, mas não conta pra ninguém, tá? A vovó não pode saber.

Falando nisso, você alguma vez já encontrou o vovô aí? Como ele está? Diga a ele que eu estou com saudade e que ainda tenho o vestidinho de bolinhas que ele me deu, só que agora não me serve mais. Mas a mamãe guarda ele, porque um dia eu vou dar pra minha filha, pelo menos é o que a mamãe diz.

Lembra do cachorrinho do nosso vizinho? Ele recebeu uma homenagem da cidade, dizem que ele salvou a vida de uma moça que estava se afogando naquele mesmo lago onde a gente costumava brincar… Sabe quem acabou de chegar aqui? Como você sabe que é a vovó? Ah, eu falei pra você lá em cima, né?! Espertinho! A mamãe se distraiu um pouco com a chegada da vovó. Elas estão lá na cozinha e o papai já falou umas quatro ou cinco vezes que, com certeza, elas estão falando mal dele.

Daqui três dias é o meu aniversário e a mamãe disse que você deixou um presente pra mim. Estou ansiosa pra saber o que é. Você bem que podia me visitar à noite e me contar, né?! Mas tudo bem… Eu estou escrevendo essa cartinha pra falar que estou morrendo de saudade de você. Eu não sei por que o Papai do Céu teve que te levar. A vovó fala que é porque você era um anjinho e ele queria você mais perto dele. Eu também acredito nisso, mas eu queria você pertinho de mim também.

O papai tá chorando de novo. Hoje ele tá demais! Eu vou parar essa cartinha por aqui, tá bom? Mas eu prometo que, em breve, eu te mando outra cartinha. E, se você puder, pede para o Papai do Céu deixar você me mandar uma cartinha também, só pra eu saber que você está bem.

Obrigado por ter sido o melhor irmão do mundo e por ter cuidado de mim, quando eu nasci. Papai disse que foi você quem escolheu o meu nome, muito obrigado por isso, eu amo meu nome. Sara é, com certeza, o nome mais lindo que existe. Tô com saudade de você! Por favor, nunca se esqueça que… eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 02
A VOVÓ E O VOVÔ

Brasília, 01 de Maio de 2017.

Oi, Carlinhos, tudo bem? Como estão todos por aí? Hoje o papai tá de folga, é dia do trabalhador, você sabe o que significa isso? Nem eu, só sei que eu gostei, porque assim o papai tem mais tempo pra ficar comigo e com você também. Sabe quem veio pra cá hoje? O vovô Otávio e a vovó Clarinha, eles estão fazendo cinquenta e um anos de casados e vieram comemorar com a gente. A mamãe falou pra vovó que ela merece um Oscar por aguentar alguém da família Albuquerque por tanto tempo; o papai não ficou muito feliz com a mamãe por causa disso. O vovô e a vovó sorriram.

Você sabe como a vovó e o vovô se conheceram? Não?! Eu vou contar pra você, mas acho melhor você sentar, porque a história é um pouco longa. A vovó passou mais de uma hora contando ela pra gente. Deve ter uma nuvem de algodão doce bem fofinha aí no céu pra você sentar, né? Aproveita e chama o vovô Luís também. Quem sabe ele não goste de ouvir a história? E, acho que a mamãe ficaria bem feliz em saber que o papai dela também está ouvindo.

A mamãe não fala muito sobre isso, mas sei que ela sente muita falta do vovô Luís. Quando o vovô Otávio vem pra cá, eu a vejo chorando. Não é que ela não goste do vovô Otávio, ela gosta muito. Mas ela sente falta do pai dela também. Ela fala que o papai tem sorte dos dois pais dele ainda estarem vivos e que daria tudo pra poder abraçar o vovô Luís novamente, então você trata de dar um abraço no vovô Luís pela mamãe, viu, Carlinhos?!

Voltando a história de como o vovô Otávio e a vovó Clarinha se conheceram, é uma história bem engraçada e envolve uma bicicleta. Falando nisso, papai falou que vou ganhar uma bicicleta rosa no meu aniversário. Eu até chamaria você pra dar uma volta, mas sei que não ia gostar de andar numa bicicleta rosa porque é de menininha.

Você já se sentou aí? Encontrou uma nuvem bem fofinha de algodão doce? Então eu vou começar a contar a história, tá?! Prepara-se, e, por favor, não durma enquanto eu estiver contando a história. A vovó ficou brava porque o papai dormiu três vezes e depois falou que isso só acontece com os homens da família Albuquerque, então, por favor, Carlinhos, não durma. Vamos lá?!

Tudo começou há mais de cinquenta anos com o vovô Otávio e o Tio Jorge se arrumando para irem à uma festa no centro da cidade, onde eles moravam. Eu vou deixar a mamãe te contar daqui por diante, porque tem muita coisa e eu não me lembro de tudo, mas assim que ela terminar a história, eu volto pra me despedir, ok?!


– Vamos logo, Otávio! Ou iremos chegar atrasados!

– Acalme-se, Jorge! Voc


Espera só um pouquinho, Carlinhos, porque a mamãe começou a contar a história sem te cumprimentar e ela sempre fala pra gente que quando alguém chega tem que cumprimentar quem já está, não é?! A mamãe vai começar a contar a história de novo, mas antes ela vai falar com você. Pode ir, mamãe…


Oi, meu filho… A mamãe tá com muita saudade, só Deus sabe a dor que estou sentindo no meu coração. Eu e seu pai estamos muito abalados e tentamos não demonstrar muito na frente da sua irmã, afinal de contas temos que dar suporte à ela. É o que tentamos fazer escrevendo essas cartinhas que você nunca vai ler. Espero que você esteja bem e esteja nos braços de Deus. Eu vou recomeçar a história. A Sara já se acalmou… Você conhece sua irmã, não é?!


– Vamos logo, Otávio! Ou iremos chegar atrasados!

– Acalme-se, Jorge! Você passou mais de duas horas penteando esse cabelo e agora quer me apressar.

– Não ouse falar do meu cabelo, Otávio! Ou eu serei obrigado a bater em você!

– Em primeiro lugar, você não conseguiria me bater, e, em segundo lugar, eu sou seu irmão mais velho e você me deve respeito.

– Tudo bem, então pare de falar demais e vista logo essa roupa.


Otávio e Jorge estavam ansiosos por poderem participar do baile de formatura do colegial. Essa seria uma oportunidade única na vida dos dois, pois, no ano seguinte, Otávio iria se alistar, tornando, assim, o convívio entre irmãos praticamente escasso. Otávio era o mais velho de uma família de cinco irmãos. Sua mãe, uma senhora de bom coração, fazia doces e bolos para ajudar na renda da casa, enquanto seu pai era um oficial do Exército Brasileiro.

Nem preciso falar que Otávio e Jorge, bem como seus irmãos, foram criados num regime muito severo. Os dois nem sequer se lembram de terem recebido um abraço do pai em suas vidas e também não se recordam de gestos afetuosos do pai para com a mãe deles. E, pra falar a verdade, eles nem se lembram de chamar o pai realmente de pai, tudo era respondido a ele com um: “Sim, senhor!” ou “Não, senhor!”

Mas a falta de carinho do pai, fora devidamente compensada pela mãe, que era uma senhora muito afetuosa. Ela sempre fazia os gostos dos filhos e, muitas vezes, os defendiam da fúria de seu esposo. Ela não poderia dizer que era feliz por estar casada com o Coronel Geraldo, mas amava seus filhos mais do que a própria vida e estes lhe compensavam todo o martírio de viver ao lado de um homem que jamais amou. Mas, Dona Tereza sequer teve a opção de casar-se por amor, nasceu numa época onde os casamentos eram arranjados e fora obrigada a casar-se com um primo pelo qual sequer tinha amizade, quanto mais amor. Devido à relação meio incestuosa, dois de seus filhos nasceram com problemas auditivos e um com problemas mentais. Os únicos não afetados pelo gene foram Otávio e Jorge, surpreendentemente, o mais velho e o caçula.


– Já era hora de sair desse banheiro!

– Ora, não me apresse, Jorge!

– O baile já deve ter começado. Já devem estar todos se divertindo, e o pior, a Augusta pode estar nos braços de outro.

– Se for para a Augusta ser sua, ela será, meu caro irmão. E se ela estiver nos braços de outro, o que queres com essa mulher?

– Mas você sabe que eu a amo, Otávio.

– É à ela que você deve dizer isso, não a mim.

– Mas sabes que não tenho coragem, meu irmão. Como chegaria à ela e falaria: “Augusta, eu te amo desde que nos conhecemos”?

– É uma boa maneira de começar.

– Sem essa, Otávio! Se eu dissesse isso, ela iria rir da minha cara e me deixar falando sozinho.

– Você nunca vai saber, se não tentar. Além disso, o que tem a perder?

– Ela. Eu não quero perdê-la.

– Então faça isso, antes que chegue lá e ela esteja nos braços de outro.

– Mas você disse…

– Esqueça o que eu disse. Hoje é o seu grande dia, vista sua melhor roupa, coloque uma colônia e dá uma arrumada nesse cabelo, depois vá dizer à Augusta que você a ama!

– Ei, o que tem de errado com o meu cabelo?

– Jorge! – disse Otávio, com olhos fitos no irmão.

– Tudo bem, já entendi! Agora podemos ir ou a donzela ainda precisa se arrumar mais?

– Às vezes você tem sorte de ser meu irmão.


Os dois partiram em direção ao centro da cidade, montados na bicicleta vermelha que Otávio tinha comprado com muito sacrifício, engraxando os sapatos dos oficiais, sob o comando de seu pai. Ele fazia isso todos os dias. Acordava às cinco da manhã, junto com seu pai, tomava um breve café da manhã, acompanhava o coronel ao serviço, engraxava os sapatos de alguns oficiais e voltava pra casa perto da hora do almoço, mas não sem antes passar na venda e gastar metade do que ganhou em carne, verdura e frutas; essa era exigência do seu pai. Por isso, comprar a tão sonhada bicicleta levou, no mínimo, o dobro do tempo que levaria caso ele pudesse ficar com todo o dinheiro que ganhava.


– Parecemos duas maricas montados nessa bicicleta.

– A cidade toda sabe que somos irmãos, Jorge.

– Mesmo assim, não é certo dois homens andarem assim tão juntos.

– Se quiser, pode ir a pé.

– Não seja grosso, Otávio! Só estou falando que pega mal dois homens serem vistos assim tão juntos. Além disso, não quero que a Augusta, quando me ver, pense que sou maricas.

– Ela não vai pensar que você é maricas, porque te viu montado na garupa da minha bicicleta. Ela pode pensar que é maricas por causa desse cabelo.

– Eu já disse para não falar do meu cabelo, Otávio! Você tá é com inveja, porque não pode fazer um topete tão bonito quanto o meu.

– O Coronel deve ter amolecido mesmo… Na minha época, se eu sonhasse em ter um cabelo assim, ele o arrancaria no canivete. Bom, chegamos…

– Até que enfim chegamos, você anda muito devagar. Na próxima vez, eu pedalo e você vem na garupa.

– Tudo bem, quando você comprar sua própria bicicleta, pode fazer assim. Encontraremo-nos à meia-noite na praça da igreja, não se atrase. Se você se atrasar, vai voltar andando pra casa, entendeu?

– Tudo bem, entendi. Não vou me atrasar. Otávio, quanto você tem?

– Uns cem, por quê?

– Me arruma vinte?

– A mamãe já não te deu dinheiro?

– Ela me deu míseros dez. Não dá pra nada!

– Tudo bem, pegue aqui esses vinte, mas vou colocar na sua conta.

– Tudo bem, quando começar a trabalhar, eu te pago tudo.

– Pelos meus cálculos, você já me deve o salário de três anos inteiros de trabalho.

– Três anos inteiros?

– Isso sem os juros. Com juros, vai pra quatro anos.

– Preciso começar a trabalhar logo. Mas não hoje, me deseje sorte, porque vou agora mesmo conversar com a Augusta.

– Boa sorte, meu irmão! Com esse cabelo, vai precisar mesmo de muita sorte!

– O que você disse?

– Eu disse que a Augusta será uma mulher de sorte por ter meu irmão como namorado.

– Ah, bom! Até mais!

– Até mais!


Jorge partiu feliz da vida com seus trinta cruzeiros no bolso, autoestima no coração e com um cabelo impecável com brilhantina, digno de Elvis Presley. Ao avistar Augusta de longe, seu coração já acelerou de uma forma, que ele mesmo não conseguia explicar. E, para sua alegria, ela estava sozinha. Não totalmente sozinha, estava com algumas amigas, mas não na companhia de algum rapaz. Ele respirou fundo, arrumou a jaqueta de couro que vestia, olhou seu cabelo no espelho de um veículo estacionado ali perto, tomou coragem e foi em direção à Augusta.

Enquanto isso, não muito longe dali, Otávio estava prendendo sua bicicleta vermelha num poste para que pudesse se divertir. Ele estava agachado, trancando o cadeado, e não percebeu a aproximação de alguém. Falando baixinho como o irmão tinha sorte de ter encontrado o amor da sua vida e se perguntando se um dia isso aconteceria com ele também, e tão preso a esses questionamentos, só escutou quando ela falou com ele pela terceira vez.

– Ei? É com você que estou falando!

Ele levantou a cabeça e se deu conta que tinha uma linda moça ali parada, bem na sua frente. Ela era perfeita, tinha cabelos loiros vivos e olhos de um azul tão celeste, que o deixou completamente paralisado. Ele nem sequer tinha percebido que ela estava ali, como aquilo havia acontecido? Jorge sempre se gabava de ser observador e de nunca deixar passar nenhum detalhe, e, naquele momento, ele sequer percebera que não estava sozinho enquanto prendia sua bicicleta. Ele estava perdido novamente em seus pensamentos e admirando àquela figura divina que estava na sua frente, quando ela o interrompeu.

– Tá tudo bem com você?

– Oi… Quê? Ah… está sim, e com você?

– Eu estou bem, obrigada por perguntar.

– Por nada, me chamo Otávio. E você, como se chama?

– Me chamo Ana Clara, mas meus amigos me chamam de Clarinha. Muito prazer, Otávio. – ela estendeu a mão para ele.

– O prazer é todo meu, senhorita. – disse isso, beijando-lhe a mão.

– Você ainda não me respondeu… Podemos?

– Podemos?! Podemos o quê?

– Dar uma volta na sua bicicleta. Eu perguntei isso duas vezes, assim que cheguei aqui.

– Você quer dar uma volta na minha bicicleta?

– Sim! Vermelho é minha cor favorita e eu amo bicicletas. Por isso estou aqui, mas eu não sei andar. Tem que ser na garupa.

– Ah, claro. Suba… E pra onde quer ir?

– Meus pais compraram uma fazenda aqui perto, se você não se importar, pode me levar até lá.

– Tudo bem, eu a levo sim. Mas você veio sozinha? Não estava acompanhada?

– Na verdade, estava sim. Mas não estou mais.

– E seu namorado, não vai ficar com ciúmes?

– Namorado? Eu não tenho namorado.

– Mas você disse que estava acompanhada.

– Sim, estava.

– Pois então…

– Era por minha prima, Augusta. Estávamos juntas. Mas aí chegou um cara lá com o cabelo engraçado e com um buquê de flores na mão, ele ajoelhou, disse que a amava e a pediu em namoro. Ela gritou, chorou, gritou novamente, deu uns cinco pulinhos, sorriu, chorou, gritou de novo, levantou o rapaz do chão e o beijou, dali pra frente acabei ficando sozinha. Foi quando vi você e pensei: “Que rapaz bonito, vou lá me apresentar!”. E aqui estamos.

– Uau, é uma grande história!

– Cidadezinha maluca essa… Onde já se viu o rapaz falar para a moça que a ama sem nem, ao menos, namorar?

– Alguns amores nascem do acaso, da troca de olhares, do palpitar dos corações, da brisa que sopra em direção aos seus rostos, do arrepio frio na barriga. Alguns amores nascem quando um se sente completamente perdido e entregue ao outro, como se suas almas saíssem de seus corpos e bailassem numa sinfonia celestial, sem se importarem se aquele será o primeiro ou o último momento juntos; alguns amores não são explicados, eles simplesmente acontecem…

– Que lindo… Você tirou isso da sua cabeça?

– Não, na verdade é de um conto que li. Chama-se: “O baile de Guárpade’s” do autor Franklin S. Carter.

– É algo muito belo! Eu poderia escutar isso pra sempre.

– E eu poderia falar pra sempre no seu ouvido essas e outras palavras tão fortes quanto. Porque é assim que vejo o amor, como o cantar de pássaros logo pela manhã ou como lindos vagalumes pontilhando o céu escuro, ou ainda, como o nascer do sol no horizonte. Eu vejo o amor como o delicioso doce do mel e como o aroma suave de uma rosa ao desabrochar. Eu vejo o amor em seus olhos, na sua pele, no seu sorriso, nos seus cabelos, enfim… Eu vejo o amor em você.

– Isso foi ainda mais lindo. Outro texto de Franklin S. Carter?

– Não… esse foi do meu coração para o seu coração.


Os dois se beijaram naquele momento e, após terminarem o beijo, ficaram se olhando por uns cinco minutos, sem dizerem uma só palavra. Apenas contemplando um ao outro, enquanto a mão dele afagava os cabelos dela e a mão dela roçava em seu rosto, contornando-o num loop infinito. Esse era o início de um amor verdadeiro, um amor que venceria muitas e muitas barreiras. Clarinha e Otávio não se desgrudaram mais, desde então. No princípio, o pai da moça não queria aceitar a relação, mas quando soube que Otávio era filho do Coronel Geraldo, tudo mudou de figura e ele passou a fazer muito gosto dos dois juntos.


Uau… É uma história incrível, você não acha, Carlinhos?! O papai falou que se a vovó e o vovô não tivessem se apaixonado, nem eu e nem você existiríamos. Isso me faz pensar que, se o vovô Luís não tivesse se apaixonado pela vovó Laura também, a gente não existiria, não é mesmo?! Ainda bem que existimos e ainda bem que eu tenho você. Sinto falta do seu abraço e de você me contando como foi seu dia na escola. Vou terminar essa cartinha agora, mas, por favor, jamais se esqueça de que… eu vou amar você pra sempre.

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 03
A MAMÃE E O PAPAI

Oi, Carlinhos, tudo bem? Eu já estava ansiosa pra escrever pra você de novo. Dessa vez é o papai quem está escrevendo a cartinha. Hoje ele não tá chorão, na verdade, ele está até sorrindo. Sabe por quê? O time dele ganhou! Você sabe que isso é bem raro, né? Porque o papai é botafoguense, aí você já viu.

Mas isso não vem ao caso. Hoje eu quero falar com você a história de como a mamãe e o papai se conheceram. Eles já te contaram isso? Não! Eu vou dar uma bronca no papai e na mamãe, então! Mas não tem problema, eu vou contar pra você.

Lembra que o papai nos contou que trabalhou na fazenda do tio Eustáquio? Então, essa história começa mais ou menos nessa época. Mas antes deu começar a contar a história, você sabe que amanhã é meu aniversário, né?! Eu faço seis aninhos. Vai ter uma festa com o tema da Frozen, não me lembro se você assistiu. Mas a mamãe comprou um vestido pra mim igualzinho a que a rainha Elsa usou no filme. O papai falou que se você estivesse aqui, ele iria te fantasiar de Olaf. Você sabe quem é o Olaf? É um boneco de neve que é amigo da rainha Elsa e da princesa Ana. Mamãe falou que você ia ficar uma gracinha de Olaf. Eu também acho.

Voltando ao assunto, vou te contar agora como a mamãe e o papai se conheceram. Eu vou contar a minha versão, porque não lembro direito o jeito que a mamãe contou e o papai falou que está com preguiça de escrever porque ele acabou de chegar do plantão, mas eu o convenci a escrever essa cartinha. A mamãe disse que eu tenho um charme que faz o coração do papai amolecer. Eu não sei muito bem o que é charme, mas eu devo ter isso mesmo, porque sempre que peço alguma coisa para o papai ele faz.

Vou contar a história agora, do jeito que sei. Era uma vez… Não, era uma vez, não. Fica quieto, papai! Quem está contando a história sou eu! Continuando, era uma vez… uma linda moça chamada Nicole, ela tinha acabado de terminar os estudos e estava à procura de um emprego. Essa moça era a mamãe (mas isso você já sabia, não é?!), ela gostava muito de ajudar as pessoas e queria ser enfermeira algum dia, mas para isso ela precisava trabalhar e ter dinheiro para ajudar o vovô a pagar os estudos, então ela foi trabalhar na casa da vovó Ana.

E advinha quem morava lá? Sim, o papai! O serviço da mamãe era simples, ela teria que ajudar a vovó a lavar e passar roupa e fazer comida para a vovó, o vovô e o papai. O papai estava trabalhando na fazenda do tio Eustáquio quando a mamãe foi lá pela primeira vez. Eles passaram a semana inteira lá, então o papai só conheceu a mamãe na semana seguinte. O papai estava juntando dinheiro na época pra pagar a faculdade de medicina, ele ainda não tinha ganhado aquele presente do tio Eustáquio, tanto que ele voltou lá no ano seguinte, mas depois eu conto isso.

Na semana seguinte, quando o papai voltou pra casa, a mamãe não tinha ido trabalhar no primeiro dia, ela estava muito gripada e pediu pra vovó pra ficar em casa. Parece que estava tudo dando errado para o papai e a mamãe se conhecerem. Mas no dia seguinte, assim que o papai acordou por volta das 10:00 horas da manhã, a mamãe já estava na cozinha lavando as louças do café da manhã. O papai acha melhor ele contar essa parte em diálogos, vou deixar ele contar do jeito dele daqui pra frente, depois eu volto pra me despedir, ok?

Oi, filhão! Tudo bem? É o papai. Sua irmã insistiu em te contar essa história agora, você sabe como ela é, não é?! Quando bota alguma coisa na cabeça, não tem quem tire; é igualzinha a sua mãe. Eu tenho que escrever falando porque ela não quer que eu te conte nada errado, pois bem, aqui vai o restante da história em diálogos.

– Bom dia!

– Bom dia! Você deve ser o Heitor, não é isso?

– Sim! E você é a…

– Nicole! Meu nome é Nicole! Muito prazer!

– O prazer é todo meu. Escuta, Nicole, você sabe onde estão meus pais?

– Saíram mais cedo. Sua mãe tinha que ir ao dentista e seu pai precisava fazer uns exames. Ela disse que só volta depois do almoço, mas não se preocupe, eu vou fazer o seu almoço. O que gostaria de comer?

– E eu posso escolher?

– Claro, você é o patrão!

– Por favor, não me chame assim.

– E como quer que eu te chame?

– Amigo, Heitor, pode me chamar do que quiser, menos de patrão. Esse não é muito meu estilo.

– Tudo bem, amigo. O que quer comer no almoço?

– Hum… deixa eu ver. Já sei… bife acebolado, batata frita cortada em rodelas, arroz e caldinho de feijão cozido na hora.

– Uau, você é bem detalhista!

– É que esse é meu prato preferido.

– Entendi. E pra beber?

– Coca-Cola.

– Coca-Cola? Como um futuro médico, você não deveria abominar isso?

– Como você sabe? Ah… minha mãe te contou, não é? Ela conta para todos.

– Contou sim, e com muito orgulho. Ela te ama muito. Dá pra ver na forma como ela fala de você. O futuro Dr. Heitor!

– Você falando assim soa bem…

– Soa muito bem. Agora escolha outra coisa, Dr. Coca-Cola faz mal à saúde.

– Falando assim, você até parece minha mãe.

– Parece que tenho que ser mesmo. Alguém tem que te ensinar a escolher melhor o que ingerir.

Nós rimos bastante nesse dia. A vovó e o vovó demoraram bem mais do que o combinado, como se de alguma forma eles soubessem o que estava para acontecer. Nós nos divertimos muito e naquele dia eu descobri que sua mãe queria ser enfermeira. Eu achei aquilo perfeito, já que eu queria ser médico. De alguma forma, a sua mãe me cativou desde o primeiro instante. Não somente pelo fato dela ser linda. Sua mamãe era um pouco diferente da forma como você e sua irmã a conhecem. Naquela época ela tinha lindos cabelos pretos, na altura da cintura, usava óculos fundo de garrafa, andava sempre com vestidos floridos e maquiagem de leve. Tinha uma pele morena clara e estava sempre muito alegre e sorridente. Não que ela tenha mudado muito desde então, mas como vocês sabem, hoje ela só usa os cabelos curtos, substituiu os óculos por lente de contato e não usa mais aqueles vestidos, mas continua perfeitamente linda.

No dia seguinte eu acordei antes de sua mãe chegar, passei no quintal e colhi duas rosas brancas do jardim de sua avó, coloquei em cima da mesa e fiquei esperando ela chegar. Quando sua avó se levantou, ela quase me bateu por pegar a rosa sem autorização, mas quando expliquei à ela o motivo, ela começou a gargalhar e saiu para contar a novidade ao seu avô. Até hoje eu não sei se por coincidência ou propositalmente, seus avós decidiram sair naquele dia também e antes mesmo que sua mãe pudesse chegar. Eles deixaram algumas instruções comigo para passar pra ela e arrumaram um jeito de sair.

Quando sua mãe chegou eu estava no quarto tentando dar nó numa gravata. A porta estava entreaberta e eu a vi pelo reflexo do espelho. A vovó havia passado na casa dela e deixado uma cópia da chave com medo que eu voltasse a dormir e não a escutasse batendo palmas quando chegasse. 

– Você quer ajuda?

– Você sabe dar nó em gravatas?

– Sei, sim! Meu pai trabalha de gravata. Tive que aprender.

– É um pouco constrangedor para mim não conseguir dar nó na minha gravata, mas aceito sua ajuda.

– Não tem segredo. Primeiro você mede a altura dela com relação a fivela do seu cinto, depois você passa essa parte que ficará por baixo para a esquerda, então você pega essa parte maior que ficará por cima e passa por dentro, daí você passa ela para o lado esquerdo e novamente passa por dentro. Então você dá um abraço de urso e joga ela por fora e depois por dentro e… prontinho. Entendeu como se faz?

– Na verdade, não. Eu só pude olhar como sua boca é linda e como seus olhos são perfeitos.

– O que você está fazendo?

– Nada, eu só estou aproximando meus lábios dos seus lentamente para…

– Me beijar?

– Para te beijar.

– (Eca!)

– Sem interrupções, Sara. Isso é natural quando duas pessoas se amam, e além disso, você vê o papai e a mamãe se beijando todo dia. Deixa eu continuar a história para o Carlinhos.

Aquele foi o nosso primeiro beijo, meu filho. Quando terminamos o beijo, eu pedi pra ela esperar no quarto e a surpreendi com uma rosa branca, por isso que sua mãe ama tanto rosas brancas e tem várias em nosso jardim. Daquele dia em diante, a vovó e o vovô passaram a tratar a mamãe como alguém da família. Logo seu avô arrumou um emprego melhor para a mamãe com um amigo dele e eu me alistei no exército.

Quando saí do exército, eu ajudei o tio Eustáquio mais uma vez na fazenda dele e depois eu e sua mãe nos casamos. Na última vez que trabalhei na fazenda, o seu tio presenteou o papai com uma grande quantia em dinheiro. Com esse dinheiro, o papai pagou a faculdade dele e da mamãe, comprou a casa que hoje moramos e um carro. E um pouquinho depois que eu me casei com sua mãe, você nasceu, e quem de certa forma ajudou a escolher o seu nome, foi o tio Eustáquio, apesar do seu nome ser também uma homenagem ao meu avô. E foi assim, Carlinhos, que eu e sua mãe nos conhecemos e nos apaixonamos!

Bom, a Sara quer se despedir. Eu vou deixar ela falar mais algumas palavrinhas com você e vou dormir, tudo bem?! O papai chegou agora do hospital e está muito cansado. E mais tarde eu tenho que sair com a mamãe pra ajudar ela a comprar algumas coisas pra festa da sua irmã que é amanhã. Bom, filhão, não se esqueça que o papai e a mamãe te ama. Em breve estaremos todos juntos. A partir de agora é a Sara quem vai falar com você.

Oi, Carlinhos! Voltei! Eu gostei muito dessa história, e também gostei da história do vovô e da vovó. Mudando de assunto, sabe por que estou tão ansiosa para a minha festinha de aniversário amanhã? Porque a mamãe disse que você deixou uma surpresa pra mim. Eu quero muito saber o que é, mas sei que tenho que esperar até amanhã pra saber. De qualquer forma, muito obrigado por me deixar um presente. Você é o melhor irmão do mundo. Por favor, nunca se esqueça que… Eu Vou Amar Você Pra Sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 04
MEU ANIVERSÁRIO

Oi, Carlinhos, tudo bem? Eu estou muito feliz porque hoje completo seis aninhos. Eu já te falei que a minha festinha vai ser da Frozen? Eu estou vestida de rainha Elsa. Queria tanto que você pudesse ver. Espero que o Papai do Céu deixe. Eu vou escrever essa cartinha em duas partes hoje, tá? Essa primeira parte vai ser antes da festinha, vai começar às 16:00 horas, porque a mamãe falou tem que acabar mais cedo também. A segunda parte da cartinha eu escrevo depois que a festa acabar pra te contar direitinho como foi, ok?!

Sabe quem já está aqui? O vovô Otávio, a vovó Clarinha, a vovó Laura e tia Jade, irmã da mamãe. Sabe o que eu descobri hoje? Que enganaram a gente esse tempo todo, o nome da tia Jade não é esse, sabia? O nome dela é Marina Jadnna, só que todo mundo chama ela de Jade. Você sabia disso, Carlinhos? Será que era só eu que não sabia? Por falar nela, sabia que é a tia Jade quem está me ajudando a escrever essa cartinha hoje?

O papai e a mamãe saíram pra fazer compras, o vovô está assistindo televisão e a vovó está lá na cozinha, então sobraram a tia Jade e eu. No começo ela achou estranho escrever essa cartinha pra você, não sei por quê. Mas aí o vovô explicou pra ela e ela entendeu. A mamãe saiu daqui hoje brava comigo, porque eu coloquei meu vestido de rainha e não queria mais tirar. Aí a titia falou pra mamãe deixar de ser briguenta. A titia falou que ela saiu bufando. Espero que ela volte mais calma, o papai sempre fala pra mamãe ir fazer compras quando ela está nervosa. Isso deve acalmar ela.

Eu ganhei muitos presentes já. Da vovó, do vovô, da mamãe, do papai, da tia Jade, daquele nosso vizinho que tem um cachorrinho e a mamãe me mostrou o presente que você me deu, mas ela falou que eu só posso abrir meus presentes depois da festa. Será que vou ganhar uma boneca da Frozen? Eu pedi pra mamãe e para o papai, eita… espero que os dois não me deem o mesmo presente. O que eu ia fazer com duas bonecas da Frozen?

A Paty vem pra minha festinha, você se lembra dela? Eu sei que lembra, ela gostava de você. Até te deu um beijo na bochecha que você limpou com a mão. Ela ficou muito brava com você naquele dia. A última vez que eu a vi, foi no dia do seu ente… bom, deixa pra lá. O importante é que ela vem. Espero que ela me traga um presente, mas se não trouxer também, não tem problema.

Eu preciso ir, Carlinhos. A mamãe chegou e está me chamando pra tirar o vestido. Eu já disse pra ela que eu não vou tirar, e o papai e ela estão brigando agora por minha causa. Acho melhor eu tirar, não é? Mais tarde eu coloco de novo. A titia me disse que se eu tirar o vestido, ela me leva pra tomar sorvete. Obaaaaaa…. sorvete! Eu vou lá, ok? Mais tarde eu volto pra te contar como foi a festinha. Carlinhos, nunca se esqueça que… Eu Vou Amar Você Pra Sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 05
O SEU PRESENTE

Oi, Carlinhos! Voltei! Desculpe a demora… Mas, assim que todo mundo foi embora, mamãe me levou no quarto dela e disse que ia me dar o presente que você deixou pra mim. Eu fui toda animada, eu estava ansiosa pra saber, mas quando a mamãe me mostrou, eu não consegui mais parar de chorar.

Eu queria tanto tocar em você. Quando mamãe ligou o computador e me mostrou aquele vídeo, eu comecei a chorar. Eu te amo tanto, sabia? Eu sinto tanto a sua falta, por favor, volta pra mim! Quando o vídeo acabou, eu pedi pra mamãe deixar eu assistir de novo e de novo e de novo. Eu assistir umas dez vezes. Eu assistir mais vezes o seu vídeo do que o desenho da Frozen

Sabe qual foi a parte que mais gostei? Quando você disse assim: “Sara, você sabia que o seu nome significa princesa de Deus? E é assim que você sempre será para mim: uma princesinha. Eu sempre pedi ao papai e a mamãe um irmãozinho. Aí, quando a mamãe engravidou e soube que ia ser uma menininha, eu fiquei uma fera com ela. Eu briguei com a mamãe e o papai porque eu queria um irmãozinho pra jogar bola comigo. Mas, quando você nasceu, quando eu olhei para você e te vi no colo da mamãe, tão pequenininha, tão inocente, eu não tive dúvida que queria ser seu irmão. O papai e a mamãe não tinham chegado a um acordo de qual seria o seu nome. A mamãe queria Emanuele e o papai queria Victória. Então eu pedi que fosse Sara porque na escola a tia Stella tinha dito o que Sara significava, e quando eu olhei para você, eu soube que você é essa princesinha, a nossa princesinha, um pequeno pedaço do céu”.

O papai já havia me dito que você tinha escolhido o meu nome, mas eu não sabia dessa história e nem que eu poderia ter me chamado Emanuele ou Victória. Carlinhos, eu amo o Papai do Céu, mas hoje eu tô com raiva dele, porque Ele tirou você de mim, isso não é justo. Todas as minhas amiguinhas tem os irmãozinhos perto delas e eu não tenho mais você. Na hora dos parabéns, eu separei o primeiro pedaço de bolo pra te dar, mas como você não ia poder comer, eu comi, tá? Mas não fica bravo comigo, não, por favor!

A mamãe me disse que no meu aniversário do ano que vem eu vou ter outro vídeo seu. Estou muito feliz por isso. Eu queria que você tivesse aqui, a gente ia fantasiar você de Olaf , o boneco de neve. Mudando de assunto, você sabia que no ano que vem eu vou para a escolinha? O papai vai comprar uma mochila da Frozen pra mim e a mamãe falou que no primeiro dia de aula eu posso ir vestida de princesa. Como foi o seu primeiro dia de aula, Carlinhos, você gostou? 

Eu preciso ir agora, tá? Eu tô com soninho, o dia foi bem cansativo. Muito obrigada pelo seu presente. Posso te contar um segredo? Foi o melhor presente de todos. E olha que eu ganhei muita coisa: a mamãe me deu uma boneca da Frozen maior do que eu, o papai me deu um tablet rosa, a vovó me deu um vestidinho novo, a titia me deu uma melissinha, o vovô me deu um conjuntinho de cozinha que vem com fogão, geladeira, aquele negócio onde a mamãe faz lasanha que eu esqueci o nome, prato, colher e comidinha. A maioria das minhas amigas trouxe alguma boneca, a Paty me deu um lençol e travesseiro da Frozen.

A mamãe disse que preciso escovar os dentes pra deitar. Eu odeio escovar os dentes e não sei porque tenho que escovar os dentes, se eles vão sujar de novo. Na última vez que estava assistindo o vídeo, o papai, a titia, o vovô e a vovó apareceram e assistiram junto comigo. Daí, nós choramos todos juntos, a vovó chorou mais que todo mundo, tanto que a mamãe teve que trazer uma água com açúcar pra ela.

Foi muito bom poder olhar pra você de novo, Carlinhos! Na hora que você se despediu e beijou a câmera, eu aproximei a minha bochecha do monitor pra que você pudesse me beijar. Foi muito bom sentir o seu beijinho, a mamãe disse que você gravou aquele vídeo com muito amor. Obrigada por isso! É por essa e outras razões que… Eu Vou Amar Você Pra Sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 06
A NOVA CASA

Oi Carlinhos, tudo bem? Já tem um tempinho que não te escrevo não é? Mas, tanta coisa aconteceu senta aí que eu vou te contar tudinho, tá bom? Deixa eu ver por onde eu começo… Quando foi a última vez que conversamos mesmo? Me lembrei, foi no meu aniversário né? Eu estava vestida de princesa naquele dia, eu estava com o vestido da Frozen, já tem um tempinho. Você já se sentou? Antes de eu começar a contar a história preciso ir fazer pipi, você me espera? Por favor, não sai daí, promete? Eu volto já…

 

Voltei Carlinhos, vamos começar a historinha? Bom… O papai vendeu aquela antiga casa onde nós morávamos e a gente se mudou. Agora moramos na mesma rua do vovô e da vovó, são apenas quatro casas de diferença. O papai disse que queria a casa do lado, mas eles não conseguiram, não sei por que. A nova casa tem um jardim enorme onde o papai colocou um balanço para eu poder brincar e tem um escorregador também, você ia amar isso aqui.

 

Nos fundos… Eu, o papai, o vovô e a mamãe construímos uma casa na árvore, a vovó não ajudou na construção mas ela fez o almoço e estava uma delícia. Ela fez panqueca naquele dia e estavam muito deliciosas de verdade, eu comi três vezes, a mamãe até assustou e disse que só a vovó mesmo pra me fazer comer. Eu comi até verdurinha, você acredita? E olha que era jiló. Lembra que a mamãe vivia brigando com a gente para que a gente comesse as verduras? Eu comi e ela falou que estava muito orgulhosa de mim.

 

Mas, voltando para a casa da árvore… Eu queria que ela fosse rosa, mas o papai disse que seria bom uma cor neutra, então escolhemos o bege bem clarinho. Ela ficou linda, tem uma porta e duas janelas e uma escada em formato de caracol. O telhado dela é pintado de vermelho e nós demos o nome de “CASA HENI” eu vou te explicar o significado o “CA” é do seu nome “Carlos”, o “SA” é do meu nome “Sara”, o “HE” é do nome do papai “Heitor” e o “NI” é do nome da mamãe “Nicole”. O papai e a mamãe queriam colocar as iniciais do vovô e da vovó, mas eles não quiseram, disseram que aquela casa pertencia a nossa pequena família, então ficou “CASA HENI”  mesmo.

 

A nossa casa tem menos quartos agora. Lembra que na outra tinha um quarto só pra mim, um só pra você, um para a mamãe e o papai e um para visitas? Agora só tem três quartos. O meu, da mamãe e o papai e um que seria de hóspedes mas que o papai vai montar um escritório. A cozinha é enorme e muito bem arejada, eu não sei o que isso significa, mas foi a mamãe que disse e eu estou repetindo. 

 

O papai disse que vai comprar uma daquelas piscinas de criança para mim. Por enquanto a casa não tem piscina, mas tem uma ducha onde a gente toma banho quando está calor e perto da casa da árvore tem uma churrasqueira também, outro dia o vovô assou carne lá e nós comemos muito também. A vovó disse que eu estou começando a ficar gordinha e a mamãe disse que foi bom a gente se mudar, só assim a vovó me faz comer.

 

Eu ganhei um cachorro! Estou tão feliz! Lembra que eu tinha dito a você do cachorrinho do nosso vizinho, que ele tinha ganho uma medalha do prefeito por ter salvo uma moça que estava se afogando? Pois é, no ano passado ele foi papai e no dia das crianças o vizinho veio e me deu esse cachorrinho que é filhote do Ted. Eu estava tão indecisa que nome eu deveria dar a ele, foi a tia Jade que me ajudou a escolher, na verdade ela me disse pra colocar todos os nomes que eu queria, então o nome do cachorrinho ficou “Duque Frozen de Olaf Kristoff Pabbie” que são os personagens do Frozen que mais gosto. Na verdade tinha a princesa Ana e a rainha Elsa também, mas como o cachorrinho é macho não tinha como colocar os nomes delas, mas para ficar mais fácil a gente chama o cachorrinho só de “Olaf” mesmo.

 

Ah, esqueci de te falar. Na nova casa também todos os banheiros tem banheira, nossa é tão legal tomar banho na banheira. A mamãe agora fica brigando comigo porque eu não quero sair do banho. Eu não entendo a mamãe sabia? Se eu não quero tomar banho ela briga comigo e se eu quero tomar banho ela também briga comigo, você entende isso Carlinhos? Você poderia me explicar porque eu não entendo. 

 

A tia Jade está aqui hoje. Nós vamos sair daqui a pouco pra comprar meu material escolar. Na próxima semana começa meu primeiro dia de aula. A tia Jade que está escrevendo essa cartinha pra você, acho que depois do papai ela é a pessoa que mais gosta de escrever essas cartinhas. Ela arrumou um namorado, sabia? Como assim não sabia? Do céu não dá pra você ver tudo? A mamãe falou que o namorado da titia é um gato, eu não entendi muito. Nós saímos no final de semana passado e ele não era um gato, ele é uma pessoa como eu e você. Ele é muito engraçado, ficou brincando comigo a noite toda, o papai falou que ele só fez isso porque queria impressionar a titia.

 

Bom, eu tenho que ir agora. Como eu te falei hoje é o dia das meninas, nós vamos fazer compras. Eu, a mamãe e a titia estamos super empolgadas, o papai que não está muito feliz. A titia falou que é por que ele vai ter que dirigir pra gente, carregar as compras e dar o cartão de crédito pra mamãe, acho que o papai não gosta dessas coisas. Talvez se você estivesse aqui, vocês dois poderiam fazer alguma coisa juntos enquanto a gente faz compras, mas você teve que partir…

 

Eu tive que dar uma pausa porque a titia começou a chorar. Ela foi para o meu quarto, a mamãe está terminando de escrever a cartinha. A mamãe falou que a titia foi chorar porque se lembrou de você. Nós precisamos ir tá? A mamãe disse que como a gente vai sair pra fazer compras a titia vai ficar mais feliz. Obrigado por me ouvir e por não brigar comigo mesmo eu tendo passado muito tempo sem te escrever, prometo que não vai acontecer de novo, tá bom? Eu fico feliz que você esteja bem e com o papai do céu. Carlinhos, por favor nunca se esqueça que… Eu vou amar você pra sempre!

 

Com Amor,
Sara
   

CAPÍTULO 07
O PRIMEIRO DIA DE AULA

Oi, Carlinhos, tudo bem? Desculpa por demorar a te escrever de novo, mas dessa vez a culpa não foi minha. A mamãe e o papai tiveram que viajar sem mim, eu fiquei uma fera. Eu tive que ficar com o vovô e a vovó durante quase uma semana. Ah, a tia Jade e o namorado dela também passaram um dia comigo, nós fomos ao cinema. Eu queria assistir o filme da Frozen, mas a titia falou que não tinha como porque ele não estava em cartaz, mas ela não entendeu que eu não queria ver no cartaz, eu queria ver no cinema mesmo. Então a gente assistiu um filme de amor, eu e o tio não gostamos muito, a titia ficou o tempo todo chorando durante o filme, ela é mesmo uma chorona, sabia?!

O vovô me levou pra passear na bicicleta dele, nós demos uma volta na rua toda e o Olaf foi correndo atrás da gente. Ele ficou bem cansado e com a linguinha pra fora. Quando chegamos, ele bebeu quase um litro de água. O vovô bebeu muita água também. Eu não bebi. Não sei porque eles sentiram tanta sede assim, nem estava muito calor. Quando chegamos, a vovó tinha feito uma vitamina de abacate. Nossa! Como eu amo vitamina de abacate! A vovó fez também um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, você sabe que é o meu preferido, né?! Daí ela me colocou no colo e disse que eu era a netinha preferida dela. Mas, a vovó esquece que eu sou a única netinha dela, principalmente agora depois que você se… deixa pra lá.

Ah, sim! Lembrei por que eu estou escrevendo essa carta. Hoje foi meu primeiro dia de aula. Ainda bem que a mamãe e o papai chegaram a tempo da viagem. Nós fomos todos juntos pra escola. No começo, eu não queria ir, dei birra, chorei, me joguei no chão, comecei a gritar, solucei de tanto chorar, daí a titia veio e me pegou no colo; ela me disse que era natural sentir medo, mas que eu iria fazer muitas amiguinhas e que lá também tinha uma tia que iria cuidar de mim. Então ela me disse que se eu fosse, na volta ela iria comprar sorvete pra mim, e você sabe o tanto que eu gosto de sorvete, né?!

Até que foi legal! Nós fomos todos no carro do papai. Eu, a titia e o namorado dela, a mamãe e o papai, o vovô e a vovó, e também o Olaf. Eu chorei outra vez quando cheguei lá porque não queriam deixar o Olaf ficar comigo. Disseram pra mim que era proibida a entrada de cachorros, mas o Olaf não é um cachorro qualquer, ele é da nossa família. Mas, por fim, o papai me convenceu que era pra deixar o Olaf ir porque ele tinha que ir no petshop. A mamãe disse que ele ia voltar pra casa bem cheiroso e com uma gravatinha, então eu deixei ele ir porque queria ver ele de gravata. E assim todos se foram, ficando só eu e a nova tia. Não sei porque eu tenho que chamar ela de tia, ela não é irmã da mamãe ou do papai, mas tudo bem.

Quando eu entrei na escola vi um monte de criança por todos os lados. Eu nunca tinha visto tanta criança na minha vida, nem no dia do meu aniversário ou do seu. Tinha uns grandinhos, outros pequenininhos, tinha até alguns bebês. Eu não sei por que tem bebês na escola?! Tinha meninino, menininha, e as outras tias. Cada sala tem uma tia diferente. Quando eu entrei na minha sala, a tia pediu para que a gente fizesse uma roda e cada um falasse seu nome, sua idade e qual era a cor que mais gostava. Quando chegou na minha vez eu falei: – Meu nome é Sara, e foi meu irmão Carlinhos que escolheu meu nome. Tenho seis anos e a minha cor preferida é vermelho, igual a do Carlinhos, meu irmão

Depois que todo mundo se apresentou, nós sentamos em mesas com quatro pessoas cada uma. Eu sentei na mesa da Paloma, Gustavo e Pierre. Que nome engraçado, né? Pierre. A Paloma e eu nos tornamos amigas, ela também gosta da Frozen. O Gustavo quer ser jogador de futebol, assim como você e o Pierre, bem… O Pierre não fala muito, acho que ele não sabe falar direito ou tem medo, não sei. Mas, eu gostei dele. Não conta pra ninguém, tá? 

A tia deu uma folha branca pra cada um e também alguns lápis de cores e giz de cera para que a gente pudesse fazer um desenho. Ela pediu para a gente desenhar o nosso maior sonho, aquilo que a gente queria que se realizasse naquele momento. Eu to mandando o meu desenho na cartinha pra você:

Esses são eu, você, o Olaf e a bola que você costumava brincar. Não tinha todas as cores da sua bola, então eu desenhei com as que tinha. E o Olaf é um pouco diferente também, na verdade, ele é muito diferente, mas você entendeu, né? O meu maior sonho era que pudéssemos brincar todos juntos, eu sinto tanto a sua falta, queria poder brincar com você de novo. Espero que você esteja jogando bola aí, com o Papai do céu!

Quando a tia pegou meu desenho, ela chorou. Não chorou assim de soluçar que nem a gente chora, mas escorreu duas lágrimas dos olhos dela, uma em cada olho. Daí ela pediu desculpas e enxugou as lágrimas com a camiseta. Depois a vovó me disse que ela sabe o que aconteceu com você, porque assim ela poderia me ajudar. A gente mostrou os desenhos uns para os outros e aí todo mundo bateu palma. O meu desenho foi o mais aplaudido. O Pierre desenhou uma menina segurando um giz de cera e um coraçãozinho, não sei porque, mas, achei o desenho dele muito bonito.

A Paloma desenhou um boneco de gelo, assim como o Olaf. Não o nosso cachorro, o Olaf de Frozen. Ela disse que o maior sonho dela era conhecer o Olaf. O Gustavo desenhou uma bola de futebol e um goleiro. E tiveram muitos outros desenhos, uma família de mãos dadas, uma piscina, uma bailarina, um sanduíche, uma bicicleta, um computador, um videogame. Eu não me lembro de todos, mas esses são os que eu me lembro, todos os desenhos estavam lindos, mas acho que os mais lindos eram o meu, da Paloma e do Pierre.

Quando a mamãe chegou pra me buscar, só estava ela e o Olaf — dessa vez é o nosso cachorro. E ele estava realmente muito cheiroso, e com uma gravatinha borboleta. Quando eu falei com ele, eu dei “oi” e ele me deu três lambidas na bochecha e ficou abanando o rabo. A mamãe me disse que quando ele abana o rabo é porque está feliz. Então eu mostrei meu desenho pra ele, aí ele deu um latido e lambeu meu rosto de novo, e o rabo dele continuou balançando. Acho que ele gostou do desenho, mesmo não se parecendo nada com ele.

Nós passamos na sorveteria, onde a titia e o namorado dela estavam nos esperando. Daí a titia falou que eu poderia escolher o sorvete que eu quisesse. Então eu peguei uma bola de morango, outra de chocolate, uma de flocos e coloquei granulado, jujuba, e pastilhas de chocolate em cima e pedi a calda de caramelo, chocolate e morango. Estava uma delícia. Aí no céu tem sorvete? Depois que todo mundo terminou de tomar o sorvete, o titio beijou a titia e eu disse: – Eca! 

Então voltamos pra casa. E assim foi o meu dia. No começo eu não queria ir pra escola, mas depois eu gostei muito. Fiz novos amiguinhos, conheci uma nova tia, fiz um desenho nosso com o Olaf, tomei sorvete, e agora estou aqui escrevendo essa cartinha. Bom, como agora eu estou estudando, eu vou ter que te escrever cartinhas agora todos os sábados, tudo bem? Não vai demorar muito, a semana passa rápido. 

Antes de eu ir, posso te contar um segredo? Eu já estou com vontade de ir pra escola de novo. Porque amanhã vou poder ver o Pierre de novo. Ele é tão quietinho, quase não fala, mas eu gostei dele. Ah, gostei da Paloma e da tia também. Bom, eu vou terminar a cartinha aqui, tudo bem? Lembre-se: Eu Vou Amar Você Pra Sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 08
LEMBRANÇAS DO PASSADO

Sabe que dia é hoje, Carlinhos? Isso mesmo! É sábado! Sabe o que isso significa? Que hoje tem cartinha pra você! Isso seria motivo de muita alegria para mim, se não fosse por um detalhe… Hoje faz um ano que você se foi…

Papai me diz que eu não posso ficar me lembrando disso, mas como não lembrar? Eu fico pensando que eu deveria ter estado com você, eu tinha que estar lá quando você partiu, eu tinha que ter segurado sua mão, mas os médicos não me deixaram entrar. Eu gritei, eu chorei, eu esperneei, mas de nada adiantou, eles disseram que aquele não era ambiente para mim e que eu não deveria vê-lo partir.

Você não tinha o direito de me deixar, Carlinhos, não tinha! Eu sou sua única irmãzinha, eu preciso de você, eu sempre precisei de você. Eu estou muito nervosa com você, eu deveria estar triste, mas estou nervosa, porque você está aí no céu com o vovô e o Papai do céu comendo nuvens de algodão doce, sorrindo, brincando com outras crianças e o menino Jesus, mas eu estou aqui, o papai e a mamãe também e nós sentimos a sua falta, nós sentimos muito a sua falta.

Quem vai me proteger agora, Carlinhos? Quem vai me abraçar quando eu tiver medo do trovão? Quem vai colocar o desenho da Frozen pra eu assistir? Quem vai me colocar no colo para que eu toque no teto da sala? Quem vai me ensinar a andar de patins? Você prometeu que no meu aniversário de seis aninhos ia me ensinar a andar de patins, mas meu aniversário passou e você não estava aqui. 

Sabia que o motorista da ambulância vem aqui todo mês? No dia exato que eles te levaram para o hospital, ele sempre senta com o papai na sala e os dois conversam. Algumas vezes o papai chora e em outras é o motorista da ambulância, às vezes, os dois. A enfermeira que cuidou de você também ficou amiga da mamãe, ela disse que você inspirou muitos jovens no hospital enquanto esteve lá. 

Desculpa por estar descontando minha raiva em você. Eu sei que você não tem culpa e não queria ter partido. Mas, eu não consigo mais ficar longe de você. Essa noite eu sonhei que você me levava no parque, como sempre fazia e que deixava eu subir nos seus ombros e andar de cavalinho. O sonho foi tão real, Carlinhos! Eu podia até sentir o vento batendo no meu rosto, você estava tão feliz e seus olhos brilhavam, você me abraçava, cuidava de mim e até deu um beijinho quando fez dodói no meu joelho; você disse que o beijinho era pra sarar.

Hoje foi um dia triste para todos aqui. Até o namorado da tia Jade não quis brincar comigo hoje, todo mundo estava triste ou chorando. A vovó e o vovô foram visitar seu túmulo, a mamãe e o papai não quiseram ir, eles disseram que você não estava lá. Sabe o que mais me dói nisso tudo? É que todos os dias muitas pessoas morrem no mundo todo por essa doença que te levou para longe de mim e ninguém descobre a cura. 

Pede para o Papai do Céu mandar alguém pra descobrir a cura. Eu não quero que uma amiguinha minha passe pelo que eu tô passando, não quero que o irmãozinho de ninguém tenha que partir. Você só tinha catorze anos, mamãe falou que você tinha uma vida toda pela frente, e é por isso, Carlinhos, pela sua vida e por tantas outras por aí que eu decidi uma coisa: eu falei para a mamãe que não quero mais ser bailarina, eu quero ser médica, porque eu posso até não conseguir trazer você de volta, mas posso garantir que ninguém mais vai ter que partir. Você não tinha que ter ido, tinha que estar comigo aqui, do meu ladinho, principalmente agora que está frio e você sempre dividia seu cobertor comigo.

Eu estou com muito medo de dormir sozinha essa noite, não sei por quê. Mas, vou pedir para dormir junto com a mamãe e o papai. Não vou mais pedir pra você me visitar, a tia Jade me explicou que não tem como, mas que um dia eu vou me encontrar com você e aí poderemos brincar juntos pra toda a eternidade. Estou ansiosa por esse dia e, de certa forma, é isso que me mantém viva. Não se esqueça… Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 09
A ÚLTIMA CARTA

Oi, Carlinhos, tudo bem? Eu não estou… Estou triste! Papai disse que essa será a última carta que poderei escrever e que daqui pra frente só posso te mandar cartinhas de ano em ano, e mesmo assim, quando eu mesma puder escrever. Papai disse que essas cartinhas estavam prejudicando a todos na família, que todo mundo chorava depois que me ajudava a escrever essas cartinhas, dessa vez ninguém quis escrever, na verdade, o namorado da tia Jade quem está escrevendo essa, e mesmo assim, depois de discutir feio com a titia; ele faz tudo pra me agradar.

Então, essa é a última cartinha que você vai receber durante um bom tempo. No ano que vem, eu já vou saber ler e escrever direitinho e poderei eu mesma escrever minha cartinha pra você, sem precisar de ninguém. Mas, mesmo assim, o papai falou que eu só poderia escrever uma cartinha por ano, porque o papai não me quer presa nisso, e ele falou que conforme eu for crescendo, eu vou entender e com o tempo eu mesma vou parar de escrever as cartinhas. O papai não entende, eu nunca vou parar de escrever pra você, tá bom, Carlinhos?

Às vezes eu também queria morrer pra ficar pertinho de você. O titio brigou comigo quando eu disse isso e eu briguei de volta para que ele pudesse escrever. Quando você se foi, o papai custou a me contar. Ele disse que você estava dodói e que não poderia receber visitas por um bom tempo, aí um dia a mamãe me colocou no colo e explicou tudo pra mim. Um dia te conto como foi. 

O Olaf tá de castigo. Ele comeu o sapato da mamãe, ela ficou uma fera com ele. Pior que ela brigava com ele e ele latia como se estivesse respondendo ela. A mamãe ficou mais brava ainda e disse que ele aprendeu a ser malcriado comigo. Veja isso, Carlinhos?! A mamãe acha que eu fico ensinando coisa errada para o Olaf. Eu não tenho culpa de ele ter comido o sapato da mamãe, eu nunca ensinei ele a fazer isso, eu nunca comi o sapato da mamãe, só o batom, mas isso foi quando eu era criança; o papai falou que agora eu sou uma mocinha.

A vovó está muito doente, ela está internada no hospital. A mamãe, o papai e o vovô estão lá com ela. Eu fiquei em casa com o titio e a titia Jade, ela está na cozinha fazendo sopa pra gente jantar. O titio disse que não gosta muito, mas como a titia já está brava com ele, vai ter que comer. Eu ganhei um vestidinho rosa do titio, e nem era meu aniversário ou dia das crianças. Ele disse que viu numa loja quando estava indo trabalhar e imaginou que eu ia ficar linda nele, daí ele comprou pra mim.

Assim que a vovó sair do hospital nós vamos viajar todos em família. Nós vamos para Porto de Galinhas, você conhece? Será que tem esse nome porque tem um monte de galinhas lá? Eu não quero viajar pra ver galinhas, se fosse pra isso era só ir no sítio do vovô e da vovó. A mamãe e a titia estão muito animadas com essa viagem, elas até foram outro dia no shopping comprar um biquíni novo e compraram umas boias também pra que eu pudesse nadar.

O telefone acabou de tocar, era a mamãe. Ela avisou que o vovô e o papai estão voltando pra casa e que ela vai dormir lá com a vovó. A vovó pediu pra ela ficar porque estava constrangida de passar a noite com o papai ou o vovô. Eu perguntei para o titio o que significava essa palavra e ele também não sabia, então a titia gritou lá da cozinha que era com vergonha. Não sei porque a vovó teria vergonha do papai ou do vovô.

A sopa ficou pronta. Eu preciso ir, tá bom?! A titia falou que eu já tenho que estar dormindo quando o papai chegar. Você sabe que eu não queria parar de escrever pra você, não é? Mas, por enquanto vai ter que ser assim. No ano que vem eu prometo te escrever de novo e te contar um monte de novidade, por enquanto eu só tenho uma pra te contar, mas, é uma que vai te deixar bem surpreso, sabe o que é? A mamãe está grávida, vamos ter um irmãozinho ou irmãzinha. Eu realmente preciso ir, a titia já me chamou três vezes e ela está olhando para o titio com uma cara bem nervosa. Não esqueça que… Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 10
AGORA SEI ESCREVER

Oi, Carlinhos, tudo bem? Dá pra acreditar que já faz um ano desde a última vez que nos falamos? Tanta coisa mudou, sabia? Não sei por onde eu começo, talvez pelo final da última carta. Bem, a vovó saiu do hospital pouco tempo depois que escrevi pra você, a tia Jade e o tio César se casaram em outubro e eles vão ter um bebê.

Por falar em bebê, nós ganhamos um irmãozinho e é complicado falar disso. Causou muita briga entre a mamãe e o papai na hora de escolher o nome. Papai queria que fosse o seu nome, mamãe disse que nem pensar, que não iria desonrar sua memória substituindo um filho pelo outro. O vovô e a vovó ficaram do lado da mamãe, a tia Jade e o tio César também, eu não fiquei do lado de ninguém, mas não queria também seu nome no bebê.

Por fim, o papai cedeu, faltando pouco tempo para o bebê nascer. Daí começaram a pensar num monte de nomes para ele, Otávio Neto, Heitor Júnior, Maurício, Ricardo, Tadeu, Charles, Henrique, Guilherme, Alex, Tomaz, Paulo, Lucas, Jackson, Humberto, Marcos, Marcelo, Ítalo, enfim… Já deu pra você entender, né? No dia que ele nasceu ainda não tinham um nome para ele, foi aí que me deixaram ver o bebê. Quando eu olhei para ele, soube que ele tinha cara de Hugo. O papai e a mamãe amaram o nome e assim eu escolhi o nome do nosso irmãozinho como você escolheu o meu.

Mas chega de falar dele, não é mesmo? Outro dia a gente conversa mais sobre o Hugo. Até porque não tem muito o que falar dele. Ele só chora, come, chora, dorme, chora, faz caquinha, chora, faz a vovó rir e chora. Fora isso não tem muita coisa pra falar. Ah, sim! Tem outra coisa… Por causa dele eu perdi meu quarto e tô dormindo onde era o escritório do papai.

Vamos continuar com as notícias? O Olaf está enorme e continua fazendo a maior bagunça. Acredita que ele comeu todo o assoalho do carro do papai? Eu levei uma bronca por causa disso. Não sei porque o papai e a mamãe brigam comigo sendo que é o Olaf que faz as coisas erradas. O papai e a mamãe andam muito impacientes comigo, eles só tem paciência com o bebê, que só chora, come e dorme.

Acredita que outro dia a mamãe brigou comigo porque eu estava assistindo a Frozen e imitando a rainha Elsa? Não sei o porquê. A mamãe amava quando eu fazia isso. Agora eu nunca posso brincar porque senão vou acordar o bebê que só chora, come e dorme. Deixa eu te contar sobre a escola. Já estou na primeira série, tenho vários coleguinhas e o Pierre. Por que eu disse o nome dele em destaque? Ah… o Pierre é o meu melhor amigo. Na escola, meus coleguinhas brincam falando que ele é meu namorado, mas somos apenas amigos, embora eu goste mais dele do que dos outros coleguinhas, mas não conta para o papai, ok?

A vovó me ensinou a fazer panquecas. Aliás, ela tentou. Mas eu ajudei ela a fazer as medidas e a colocar no liquidificador. Ela só não me deixou fritar, disse que é muito perigoso, mas quando eu tivesse idade suficiente nós faríamos muitas panquecas juntas e eu poderia fritar quantas quisesse. O vovô me deu um livro muito legal. Tem um monte de histórias legais, é do autor Franklin S. Carter, chama-se Conto Meus Contos. Tem uma história que foi a que mais gostei, é uma fábula chamada “O Causo do Guaxibondo”, é engraçado porque conta a história de um marimbondo que se apaixonou por uma guaxinim e eles tiveram um bebê que foi o Guaxibondo. Como a tia Jade está grávida, eu chego na barriga dela e fico chamando o bebê de Guaxibondo, ela fica uma fera.

Ah, esqueci de te contar… Outro dia o Olaf saiu correndo atrás do carteiro por umas duas ruas. E meu pai saiu desesperado atrás e gritando o nome dele na rua. Não sei por que cachorros não se dão bem com carteiros. O Olaf não implica com o gari, nem com entregador de pizza, nem com o motoqueiro que vigia a rua de noite, nem mesmo com o moço do pet shop que vem aqui toda semana. Ele só implica com o carteiro, por que será, né?!

Sabia que guardo todas as cartinhas? Desde a primeira que o papai escreveu. Eu guardo também uma pétala daquela rosa branca que colhi no jardim da antiga casa. O perfume é que não uso mais. Me faz lembrar você, não é que eu não queira me lembrar, é só que dói. Então eu preferi não usar mais, só que ainda tenho um vidro pela metade.

Hoje sei que você não pode ler minhas cartinhas. Acho que eu sempre soube, mas tinha esperança que Deus te deixasse ler pelo menos uma. Eu sinto sua falta, muito mesmo. Queria que estivesse aqui, pelo menos pra me colocar no colo e ler um livro pra mim, como você sempre fazia. Poderia até ler o livro que o vovô me deu, Conto Meus Contos, eu ia amar ouvir aquelas histórias na sua voz.

Preciso ir agora, tá bom? Tenho dever de casa pra fazer. Obrigado por ter cuidado de mim, vou tentar fazer o mesmo pelo Hugo. O problema é que ele só chora, come e dorme. A mamãe disse que eu também era assim, não consigo acreditar, mas tudo bem. Até o ano que vem, Carlinhos, e lembre-se: Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 11
RECEBA ELA COM AMOR

Oi, Carlinhos, tudo bem? Eu não estou nada bem. Ontem enterramos a vovó Laura. Receba ela com amor, ok? A mamãe não para de chorar desde ontem. Ela disse que agora, sim, ela e a tia Jade estão sozinhas. Meu pai tentou a acalmar, dizendo que ela tem a nós, mas ela disse que não é a mesma coisa, que são amores diferentes e que ela perdeu o pai e a mãe. O vovô Otávio e a vovó Clarinha tentaram consolar a mamãe também, mas nada adiantou.

Ninguém esperava que a vovó fosse morrer. Estávamos todos felizes, na semana passada mesmo estávamos todos juntos no sítio do vovô Otávio comemorando mais um mês de vida do Guga, filho da tia Jade. Na verdade, o nome dele é Augusto Gabriel, mas a mamãe fala que é um nome muito grande para uma criança, então começamos a chamá-lo só de Guga.

A vovó já chegou aí? Demora quanto tempo depois que morre? A vovó não teve chance. Um motorista alcoolizado veio na contramão e se chocou com o carro dela e de uma outra família. A vovó ainda chegou a ser levada para o hospital com vida, mas não resistiu aos ferimentos. No outro carro atingido estavam um homem com sua mãe e sua filha. A filha dele morreu na hora, e ele e a mãe foram levados para o mesmo hospital que a vovó.

Eu e o papai estamos nos revezando para cuidar do Hugo. Ele não entende muito o que está acontecendo e a mamãe não está com cabeça pra isso. Até o Olaf parou de aprontar, você acredita? Mas dizem que os cachorros sentem a dor de seus donos. Eu e o papai não sabemos o que fazer pra mamãe parar de chorar. Ela fica repetindo: “Primeiro foi o papai, depois o Carlinhos e agora a mamãe, quem vai ser o próximo? Por que, Deus, por quê?”

Acho que a vovó Laura também era um anjo e Deus queria ela mais perto. Assim como você e o vovô. Mas, sabe o que eu acho injusto nisso tudo? O vovô Luís morreu de velhice, a vovó já era uma senhora também, embora tenha sido vítima de um acidente de trânsito, mas você, Carlinhos… Você era jovem, tinha uma vida inteira pela frente, não temos histórico dessa doença na família. Por que você teve câncer? Por quê? Não é justo!

Sabe, a mamãe guarda uma mecha do seu cabelo. Ela fala que foi a primeira mecha que caiu no chão quando ela foi cortar seu cabelo um pouco antes de você começar a fazer a quimioterapia. Tinha tempo que ela não mexia nessa mecha, mas agora, com a morte da vovó, ela fica andando pela casa, chorando, com a mecha nas mãos e repetindo sempre a mesma frase: “Primeiro foi o papai, depois o Carlinhos, e agora a mamãe, quem vai ser o próximo? Por que, Deus, por quê?”

Papai chorou a primeira vez que viu a mecha também. Mas, ele já parou de chorar. Eu só fui saber dessa história ontem. Eu até me lembro de você carequinha, mas não imaginei que fosse por causa da doença, na verdade eu tinha cinco anos, acho que nem sabia o que era câncer. Agora tenho um pouquinho mais de conhecimento sobre isso.

Acho que só te escrevo pra contar ciosas ruins, né? Talvez seja minha maneira de desabafar. Até porque, sei que você nunca vai ler essas cartas mesmo. Hoje eu não fui pra escola, eu gostei por um lado, e odiei por outro. Gostei porque eu pude dormir até mais tarde e odiei porque fiquei com saudade do Pierre, mas segunda a gente se vê na escola. 

O papai estava arrumando a garagem esses dias e ele achou uma caixa empacotada ainda da mudança. Ele não lembrava o que tinha lá dentro, daí ele pediu uma faca pra mamãe e quando abrimos, nós vimos que eram algumas coisas suas. Sua camisa do botafogo, um caderno, algumas revistas em quadrinhos, sua bíblia, a foto de uma menina misteriosa que ninguém sabe quem é, um tênis velho, e seus documentos, incluindo a certidão de óbito. O papai e a mamãe ficaram olhando para a caixa por alguns minutos, até que eu tomei a iniciativa, peguei a camisa do botafogo e vesti, eles riram da minha atitude e nós levamos juntos a caixa pra dentro.

Eu fico com pena do Guga e do Hugo, eles não vão puderam conhecer a vovó direito e nem você. É uma pena o Hugo não ter te conhecido, você queria tanto um irmãozinho pra brincar com você. Iam se dar super bem, ele não sabe de muita coisa ainda, mas ele tem algumas manias que me fazem rir, como por exemplo quando ele fica parado, sem piscar, só olhando para o lustre da sala. Ou quando ele tenta colocar o pé na boca ou quando ele tenta correr e acaba caindo ou ainda quando ele fica puxando o rabo do Olaf. Ele é uma graça, você ia gostar dele.

Eu estou começando a esquecer como você era. Cada ano que passa me lembro menos de você, do seu rosto, da sua voz, de como era o seu cabelo antes da quimioterapia, na verdade, só me lembro de você careca usando toca ou boné. Não me lembro mais quanto era sua altura, nem seu peso, na verdade, não me lembro de quase nada. Vez por outra eu pergunto alguma coisa para o papai a respeito de você. Ele evita tocar no assunto para não entristecer mais ainda a mamãe. Mas, ele me prometeu que quando eu fizer nove anos, ele vai me contar tudo sobre o tempo que você passou fazendo tratamento contra o câncer e porque o tratamento não adiantou.

Então, Carlinhos, na próxima cartinha que eu escrever, daqui a um ano, já vou saber de tudo sobre sua partida. Talvez isso ajude a passar a dor e a saudade, ou talvez piore as coisas. Não sei ao certo, a única coisa que sei é que… Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 12
TENHO ESPERANÇA

Sabe, Carlinhos, não sei se devo continuar te escrevendo. Na verdade, nem sei porque estou escrevendo ainda. Principalmente porque sei que pareço uma boba escrevendo essas cartinhas e minhas amigas nem sonham que eu faço isso. Já parou pra pensar o que elas diriam? A Manu mesmo, eu aposto que ia sair espalhando pra todo mundo.

Eu já tenho nove anos. Já tenho idade suficiente pra saber que você morreu, e além disso, como eu te disse no ano passado, papai me contou mais sobre sua doença e morte. Ele não queria, mas você me conhece, né? Eu fiquei torrando a paciência dele até ele me contar.

Papai me disse que você teve leucemia. Que é um tipo de câncer que afeta as células brancas do sangue, também conhecidas como as células de defesa do organismo. O papai ainda disse que em alguns casos a leucemia tem cura, especialmente quando ela é precocemente diagnosticada e o tratamento é instituído rapidamente, entretanto, existem casos onde o organismo do indivíduo já se encontra tão debilitado que a cura da doença dificilmente é alcançada. E foi justamente esse o seu caso, porque eles descobriram a doença dois anos depois que ela começou e você não reagia mais aos tratamentos.

Perguntei ao papai se você não reagia, por que eles te deixaram careca? E ele me respondeu que as sessões de quimioterapia serviam para amenizar sua dor e também prolongar seu tempo de vida. Deve ter sido bem difícil pra você, não é? Sendo tão jovem e passando por tudo isso. Sendo submetido a um tratamento que te deixava muito debilitado. Papai me disse que você não comia direito, não dormia direito, sentia fortes dores, e vomitava frequentemente, que só sorria quando seu time de futebol ganhava; o que era bem raro já que você é botafoguense como o papai, e que também se alegrava bastante quando a gente ia te visitar, ou um dos seus amigos.

Eu me lembro vagamente dessa história, mas o papai disse que você faleceu um dia depois do aniversário de cinquenta anos de casamento do vovô Otávio com a vovó Clarinha. Eu me lembro que nesse dia fizemos uma surpresa pra vovó. E foi nesse dia que você disse a frase para a vovó, a mesma frase que eu termino todas as minhas cartinhas… Eu vou amar você pra sempre!

Eu conheci Jesus. Não somente o da bíblia ou escola dominical com a tia Stella. Um Jesus real, o Jesus que não ficou crucificado, mas que ressuscitou. Sabe quem me apresentou ELE? O papai. Ele foi me contando sobre você e comecei a chorar e reclamar com Deus que era muito injusto você morrer e ficar longe pra sempre de mim. E o papai começou a me contar que um dia haveremos todos de nos encontrarmos, para morarmos pra sempre junto com Jesus. Quando esse dia chegar, não haverá mais morte, nem dor, nem clamor, todas as coisas ruins vão ter passado e Deus fará coisas novas, boas coisas, e aí sim, nesse dia eu vou poder amar você pra sempre.

Quando comecei a entender mais sobre Jesus, comecei a ouvir músicas que falavam sobre ele. E aí eu achei essa, eu estou te mandando, isso vai parecer bobo, eu sei, mas estou te mandando um pendrive com a gravação da música. Eu e o papai amamos essa música. A mamãe também, mas ela quase não tá tendo tempo pra escutar música agora que o Hugo tá crescendo, praticamente ela passa o dia todo correndo atrás dele pela casa.

Sabe quem veio nos visitar outro dia? O Teddy! Não lembra quem é? É o cachorrinho que é pai do Olaf. Na verdade, o dono dele estava passando aqui pela região e ligou para o papai perguntando se poderia dar um pulinho aqui pra ver o Olaf. O papai passou o endereço certinho e eles vieram. O Olaf deve ter aprontado alguma com o pai dele, porque eles ficaram o tempo todo um rosnando, latindo e querendo bater no outro. Mas no final, depois de se cheirarem bastante, eles voltaram a ficar amigos, ou se lembraram que são pai e filho.

Esse ano eu e o Pierre não estamos estudando na mesma sala. Ele saiu duas salas depois da minha, foi bom e ruim. Bom porque conheci outras pessoas e ruim porque agora a gente quase não se fala no recreio. Ele fica pra lá com os amigos dele e eu fico com minhas amigas e às vezes a gente fala um “oi” um com o outro, não mais que isso. Acho que ele não gosta mais de mim, ou se gosta, ele não quer demonstrar para os amigos dele. 

Não gosto mais de assistir Frozen. Na verdade eu gosto, mas não posso mais assistir. É coisa de criança, já pensou o que minhas amigas diriam se me vissem assistindo isso? Aposto que a Manu ia contar pra todo mundo e a escola inteira iria rir da minha cara, se bobear, até o Pierre. Não quero que isso aconteça. Eu até pensei em mudar o nome do cachorro, mas ele só atende por Olaf mesmo.

Olha, não me leve a mal, mas não sei se quero continuar escrevendo essas cartas. Escrever pra quê? Você nunca vai ler. E no começo todo mundo me ajudava, mas agora sou só eu. Na verdade, nossa família mudou muito. Eu quase não vejo a mamãe ou o papai sorrindo, na verdade, eu quase não vejo nem eles se beijando, abraçando ou até mesmo se falando. Apesar de morarmos na mesma rua, o vovô e a vovó quase não nos visitam mais. Tá tudo tão estranho, tão mudado, eu não sei direito o que está acontecendo, mas tem alguma coisa muito errada na nossa família, mas como eu não sei o que é, não posso te contar. Se no ano que vem eu escrever uma nova carta e já tiver descoberto, eu te conto.

Não prometo que vou escrever outra cartinha, mas prometo que nunca vou te abandonar. Às vezes parece que eu sou a única pessoa que lembra de você por aqui. O papai só me contou sobre você porque já tinha prometido. E também porque eu abri mão de ganhar um presente de aniversário pra ouvir sua história, então, Carlinhos, quando eu chegar aí no céu, fique você sabendo que me deve um presente e quero um que valha a pena porque eu ia ganhar um tablet.

As coisas estão estranhas por aqui, prometo descobrir o que é, e te contar. Não sei se no ano que vem, mas em algum momento. A mamãe me disse que você deixou outra surpresa para mim pra quando eu fizer quinze anos. Então, fica combinado assim, eu volto a te escrever depois do meu aniversário de quinze anos, assim já vou saber qual é sua surpresa, já vou ter descoberto o que está acontecendo com o papai e a mamãe e também vou ter muita história pra te contar, dos meus dez, onze, doze, treze, catorze e quinze anos. Prepara os ouvidos, vai ter muita história. Por favor, escuta a música que estou te mandando, ok? Obrigado por ter existido na minha vida. Te amo, ou melhor… Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 13
RESOLVI TE ESCREVER

Essa carta não é pra você, Carlos, como se alguma anterior tivesse sido. Você vai perceber que estou nervosa: nervosa e confusa. Por que citei seu nome? Você nunca leu nenhuma das minhas cartas, você se foi, você morreu, apesar de eu não tê-lo visto no caixão, você está enterrado há muito tempo. E digo mais, você não tinha o direito de fazer isso comigo, depois de todos esses anos, você não tinha o direito.

Hoje poderia ter sido o melhor dia da minha vida, mas você estragou tudo. Mesmo morto há tanto tempo, você ainda apronta comigo. Queria saber o que ganha com isso… Quer saber por que estou tão nervosa com você? Tem haver com o presente de quinze anos que deixou pra mim, mas antes que a gente fale sobre isso, te prometi na última carta que te contaria porque a mamãe e o papai estavam estranhos e também as novidades dos meus dez, onze, doze, treze, catorze e quinze anos, ok… Vamos começar pela mamãe e o papai.


Como eu te falei, assim que o Hugo nasceu, a mamãe começou a ficar estranha, e assim que a vovó Laura faleceu, ela ficou ainda mais estranha. Ela e o papai quase não se falavam mais, e era sempre eu o papai que tomávamos conta do Hugo. Eu era muito pequena e não entendia de fato o que estava acontecendo e quando eu soube de fato o que era, fiquei sem falar com a mamãe por dois anos. Mas, não vamos apressar as coisas, vamos por partes.

Você sabe que o primeiro namorado que a mamãe teve foi o papai, certo? Errado! Isso é o que ela nos contava, mas na verdade por coincidência ou não, a mamãe teve um primeiro amor. Alguém por quem ela se apaixonou um ano antes de conhecer o papai. E agora você vai ficar assustado com a coincidência… Lembra que a mamãe insistia que você tinha que ser tratado no hospital Esperança Divina? Bem, o papai não ganhava tão bem nessa época, sendo assim, não tínhamos dinheiro suficiente para pagar o seu tratamento, mas… misteriosamente, suas despesas foram pagas por um contribuinte anônimo. 

No início, o papai pensou que fosse alguém da família que não quisesse se identificar. Nós chamamos de anjo, a tal pessoa que fez isso. O papai estava tão feliz por você poder se tratar no melhor hospital e ter a melhor equipe de médicos à sua disposição, que acabou não indo atrás de saber quem havia feito a tal doação misteriosa, que hoje eu sei que não foi barato.

Mas, para a surpresa de todas, o papai só descobriu quem era quando o Hugo nasceu. A mamãe insistiu que queria ter o bebê no mesmo hospital que tinha te tratado. E, agora o papai já tinha condições financeiras para isso, então não fez objeção. Acontece, que na hora de pagar a conta, o papai descobriu que todas as despesas já haviam sido pagas por um doador anônimo. Foi aí que o papai começou a desconfiar. Ele esperou a mamãe voltar pra casa e assim que o período do resguardo terminou, ele a pressionou. A mamãe acabou confessando que mantinha um caso com o dono do hospital desde que você nasceu. Ela confessou também que tinha certeza que eu e você éramos filhos do papai, pois com a desculpa de fazer exames de rotina, ela acabou colhendo uma amostra do sangue dele e fez os exames de DNA escondido, mas ao comparar com o sangue do Hugo, ela teve a certeza de que ele não era filho do papai. O Hugo não sabe disso até hoje e provavelmente nunca vai saber.

Quando o papai descobriu isso, ele ficou muito mal. A primeira coisa que ele fez foi chorar. O papai ama a mamãe de verdade. É nítido isso no olhar dele e principalmente na forma como ele a trata. O papai estava pronto para sair de casa quando a vovó faleceu e acabou ficando mais um pouco por conta disso, e foi meio que obrigado a cuidar do Hugo, mesmo esse não sendo seu filho legítimo. E acredito que foi nesse momento que papai se apaixonou por aquele bebê. 

O papai saiu de casa, mas mesmo assim, durante todo o tempo que os dois permaneceram separados (somente de corpos, nunca se divorciaram de fato), papai sempre mandou a pensão dobrada, para que desse para mim e para o Hugo. Como o papai já tinha registrado Hugo no seu nome, nos finais de semana que ele ia me buscar, acabava levando o Hugo também. No começo, a mamãe não queria deixar, achava que não tinha nada a ver o papai fazer aquilo, ela só entendeu que papai amava o Hugo como se fosse seu filho legítimo no dia que ele ameaçou entrar na justiça para ter direito a guarda da criança.

Mamãe se arrependeu muito do que fez. Eu cheguei a conhecer o tal homem, não me lembro o nome dele. Mas, ele foi lá em casa umas cinco vezes depois que a mamãe e o papai se separaram. Sempre que ele chegava a mamãe mandava eu subir para o meu quarto e os dois ficavam conversando na sala. A mamãe estava tão cega por esse homem que só caiu em si quando disse a ele que iria se divorciar do papai para que os dois ficassem juntos e que também iria entrar na justiça para tirar o nome do papai da certidão de nascimento do Hugo para que o verdadeiro pai pudesse lhe dar o sobrenome. O homem por sua vez respondeu para a mamãe que nunca se casaria com ela, que era somente um caso. E que ele não registraria um bastardo, que estava feliz pela mamãe ter encontrado um trouxa pra assumir a criança e que se soubesse que o Hugo era filho dele, teria abortado a criança mesmo sem o consentimento dela no primeiro pré-natal. A mamãe ficou arrasada nesse dia, ela chorou bastante, eu até quis me aproximar dela, mas ainda não estava disposta a conversar com ela. Eu falava somente o básico e ficava torcendo para chegar o fim de semana para que eu pudesse ver o papai.

Depois desse dia, a mamãe começou a querer voltar com o papai. Mas, ele estava machucado com tudo que tinha acontecido, o papai havia se mudado para a casa do vovô e da vovó, então vez por outra eles se encontravam em algum mercado, loteria ou padaria. A mamãe fez tudo que pôde para se aproximar do papai, mas ele realmente estava disposto a não voltar para ela. Só depois de conversar com o Pastor Alan que o papai resolveu aceitar um convite da mamãe para jantar com ela.

Naquele dia, Hugo e eu fomos para a casa do vovô e da vovó. O papai não deixava ninguém da família tratar o Hugo com indiferença, ele enchia a boca para falar pra todo mundo que o Hugo era seu filho e procurava semelhanças entre ele e a criança, mesmo que tivesse que inventar. Vez por outra ele falava frases do tipo: “Esse menino tem meus olhos” ou “Ele puxou os cabelos do vovô”, ou ainda “Ele sorri da mesma forma como eu sorria quando era criança”. O papai amava mesmo o Hugo, aliás… ama.

O papai perdoou a mamãe no dia do jantar. Ela fez o prato preferido dele: lasanha. A mamãe pediu perdão por tudo que tinha acontecido, e disse que não conseguia entender os motivos que a levaram à praticar tal coisa, ela até mesmo jogou a culpa na sua morte para se justificar. O papai se mostrou bastante compreensivo e apesar de estar machucado, ele acabou perdoando a mamãe, mas disse que só voltaria pra casa quando tivesse certeza que a mamãe não tinha mais contato nenhum com o ex-amante. Demorou oito meses para o papai voltar, não que a mamãe ainda estivesse de caso com o dono do hospital, mas o papai queria voltar pra casa, enterrar o passado e viver uma nova história com a mamãe, e é exatamente assim que eles têm vivido. 

Então, dos meus nove aos onze anos eu vivi dessa forma. A semana com a mamãe e o Hugo e os fins de semana com o papai, vovô e vovó. Só quando eu estava perto de completar doze anos que eles voltaram e graças a Deus estão juntos até hoje. Acho que eles não se largam mais, eles formam um casal bonito. No ano passado, o tal dono do hospital faleceu, esqueci de mencionar que ele era vinte e sete anos mais velho que a mamãe, mas não pense você que ela estava com ele por causa do dinheiro, na verdade, esse homem era pobre quando a mamãe o conheceu e só ficou rico porque era um empregado de confiança do antigo dono do hospital e outros patrimônios como casas no centro da cidade e fazendas no interior. Como seu ex-patrão não tinha filhos e nenhum parente vivo, ele resolveu deixar tudo para o ex-amante da mamãe, e foi assim, que do dia pra noite ele se tornou um homem muito rico.

Nos meus doze anos não aconteceu nada de muita relevância. Na verdade, foi um ano triste. Foi o ano que perdemos o Teddy, pai do Olaf. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias. Lembra que ele havia salvado a vida de uma moça que depois se casou com o dono dele? Pois é! Teddy era considerado um herói por aqui e todos sentiram muito sua perda, mas como diz o Hugo, ele foi para o céu dos cachorros.

Com treze anos eu dei meu primeiro beijo. Mas, não foi com o Pierre como você deve estar pensando. Foi um carinha idiota chamado Kenedy, na verdade, ele só queria brincar com meu coração. Mas, ele teve o que mereceu. No último dia de aula, ele e o Pierre saíram na porrada por minha causa. Pierre pegou ele me traindo e partiu pra cima dele, ele bateu nele até ele confessar pra mim que estava me traindo. Eu fiquei arrasada e chorei bastante, mas aquilo acabou sendo um mal que veio para o bem. Naquele dia eu tive certeza que Pierre era o cara certo.

Com catorze anos, Pierre me pediu em namoro, como ele já sabia que eu escrevia cartinhas pra você (Papai e ele viraram amigos e o papai acabou contando), ele me pediu em namoro por uma cartinha, você acredita? E o melhor de tudo, ele mandou a cartinha pelo correio. Mesmo que a gente não more tão longe um do outro, ele se deu ao trabalho de mandar a cartinha pelo correio, eu ainda tenho ela aqui, vou ler pra você:

“Sara, eu sinto muito por não estar fazendo isso pessoalmente, mas você me conhece e sabe o quanto sou tímido. Essa é a melhor maneira que encontrei de ter coragem pra te falar tudo que sinto, eu já tentei por diversas vezes te falar isso pessoalmente, mas meu medo é muito grande e acabo não dizendo nada, por isso espero que essa cartinha encontre morada no seu coração.

Eu sou perdidamente apaixonado por você. Desde o primeiro momento que te vi, quando você estava lá na escola emburrada por não ter ficado com o Olaf na sala de aula. E quando a nossa professora pediu que fizéssemos um desenho, naquele momento eu desenhei você. Se você olhar dentro do envelope da carta, vai ver que te mandei o desenho que fiz e que guardo até hoje, quer dizer… guardava. Espero que você possa guardá-lo também para que um dia possamos mostrar aos nossos filhos.

Espera aí, eu disse filhos? Sim, eu disse! Sabe por quê? Porque eu me vejo ao teu lado pra sempre e é assim que quero que aconteça, claro, se for da sua vontade também. Eu consigo fechar os olhos e imaginar nós dois sentados na varanda vendo nossos filhos brincarem num lindo quintal onde possua um balanço e uma casa na árvore igual à essa que tem na sua casa. Mas, vamos falar do agora, não é?

Eu não quero mais que você sofra. Sei como deve ter doído pra você saber que o Kenedy estava te traindo e fiquei muito triste ao te ver chorar e saber que aquelas lágrimas estavam sendo derramadas por minha causa. Mas, eu te amo tanto que não poderia aceitar ver ele brincar assim com você. Enquanto você estava feliz nos braços dele, eu não me aproximei de ti pra falar o que eu sinto, mas agora que sei que você está sofrendo, eu resolvi contar toda a verdade.

Eu lamento ter sido o motivo das suas lágrimas, mas se me permitir quero ser também a pessoa que vai enxugar cada uma delas e compensar te arrancando mil sorrisos para cada lágrima que você derramou. Eu te amo muito, Sara, e como você diz: eu vou amar você pra sempre. Então, vou te fazer a pergunta que está engasgada dentro de mim: quer namorar comigo?”

É claro que eu disse: sim! Aquela cartinha foi a coisa mais linda que alguém já tinha feito por mim. Não tinha como dizer: não. Eu encontrei Pierre no dia seguinte que recebi a carta e não disse nada, apenas embrulhei minha resposta no mesmo envelope que ele havia me enviado a carta e entreguei bem séria pra ele. Ele me olhou quase chorando e abriu o envelope, por mais que só estivesse escrita uma única palavra no papel que eu lhe entregara, ele passou uns dois minutos lendo e relendo minha resposta e quando, por fim, levantou os olhos, ele me abraçou e nos beijamos ali mesmo na sala de aula. A turma toda gritou e alguns assobiaram enquanto outros batiam palmas. Eu não pude ver, mas uma colega me disse que o Kenedy estava com uma cara de triste. Não posso fazer nada por ele.

Chegamos aos meus quinze anos, mas precisamente ao dia de hoje, ou melhor, ontem. Já são uma e vinte e três da manhã. Minha festa de aniversário durou até agora pouco, foi a primeira vez que uma festinha minha passou das dez horas. E dessa vez foi tudo tão lindo, menos o seu presente, Carlos, mas já falamos sobre isso.

A vovó estava trabalhando num vestido desde os meus treze anos e nem eu, nem a mamãe e nem o papai sabíamos. Ela e o vovó arrumaram tudo escondido. Era um vestido lindo de um azul tão vivo e brilhante que praticamente refletia as luzes por onde quer que eu passasse. A tia Jade havia me dado uma tiara para prender meus cabelos e o Pierre um lindo colar de ouro que tinha uma foto minha e dele dentro de um coração e no outro lado do coração, a foto do Olaf que nessa altura do campeonato já chamávamos de nosso filho. 

Todos nossos amigos estavam presentes, familiares e conheci tantos primos que eu nunca tinha ouvido falar. A festa foi linda e eu dancei valsa com o vovô, papai, Hugo e Pierre. Na verdade, eu dancei duas músicas com o Pierre e numa delas ele cantou pra mim. Ele canta muito mal, mas o que vale é a intenção, não é verdade?! Achei lindo ele querer cantar pra mim, meus ouvidos que não gostaram muito. 

E aí, após a festa encerrar, como da outra vez, a mamãe me chamou no quarto para me dar o seu presente, e adivinha só? Era um álbum com todas as fotos que tiramos juntos, algumas antes mesmo de eu nascer. Ela disse que você insistiu para que ela fizesse aquele álbum para que eu nunca me esquecesse de você, como se isso fosse possível. Eu nunca vou me esquecer de você, Carlinhos, eu já te disse isso inúmeras vezes. 

Eu comecei a folhear o álbum e a mamãe me deixou sozinha no quarto; ela fez bem. Não gosto de chorar na frente de ninguém, a mamãe sabe disso. Então, antes de sair, ela colocou uma caixinha de lenços umedecidos em cima da cama e saiu. Quando eu vi a primeira foto, eu já comecei a chorar, era sua mãozinha na barriga da mamãe enquanto ela estava me esperando no seu terceiro mês de gestação. Em outra foto, provavelmente tirada no mesmo dia, você estava beijando a barriga da mamãe. Prossegui folheando o álbum e vi uma foto onde você me segurava no colo um pouco depois de eu sair da maternidade e em outra foto você fazia cara feia porque eu tinha sujado as fraldas. Continuei olhando o álbum e lá estava você segurando a minha mamadeira e olhando pra mim com olhos de amor. Mais pra frente, eu um pouco maior, vi você servindo de cavalinho para mim, e em outra foto você me pegava no colo e me levantava para que eu pudesse triscar no lustre que ficava na sala da nossa antiga casa. Eu fui olhando foto por foto e cada nova foto me derrubava inúmeras lágrimas, daí parei na última foto e confesso que devo ter ficado uns trinta minutos nela. Foi a última foto que tiramos juntos, no dia das bodas de ouro do vovô e a vovó. Você e eu estávamos parados e abraçados em frente a bicicleta vermelha que o vovô resgatara pra vovó. Eu ainda me lembro que você me prometeu que iríamos andar juntos naquela bicicleta quando você saísse do hospital, mas você nunca saiu.

Foi muito doloroso, pra mim, ver esse álbum de fotos. Mas, foi bom também. Eu quase não me lembrava perfeitamente das suas feições. Dizem que recordar é viver e hoje me sinto mais viva, ou melhor, sinto você vivo dentro de mim. Eu fiquei uma fera porque queria tirar um monte de fotos toda maquiada, mas agora não tem mais como, porque as lágrimas que você me fez derramar, acabaram com toda minha maquiagem. Espero que esteja feliz. Eu não tenho o direito de ficar com raiva de você, eu sei que só queria me alegrar, e falo honestamente, você me deu o melhor presente de todos. Fico me perguntando como você tão novo, foi capaz de pensar nisso tudo?! Primeiro o vídeo e agora esse álbum de fotos, mesmo atravessando uma doença tão terrível, você foi capaz de pensar em mim. 

O que você fez hoje foi lindo! Eu nunca vou me esquecer disso e já guardei o álbum. Um dia vou mostrar para os meus filhos. Eles não vão conhecer você pessoalmente, mas vou fazer questão de falar de você em todo tempo, eles vão saber o quão legal o tio deles era. Obrigado por isso, aliás, obrigado por tudo. A próxima carta que vou te escrever será no dia do meu casamento, espero que não demore muito, estou ansiosa por isso, mas também sei que sou muito nova pra pensar nisso agora. A única certeza que tenho é que o Pierre é o cara certo e que ele vai me fazer muito feliz. Obrigada pelo presente e obrigada por mesmo tão longe, você ter sido presente na minha vida no dia de hoje… Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

CAPÍTULO 14
VOU ME CASAR

Essa carta não é pra você, Carlos, como se alguma anterior tivesse sido. Você vai perceber que estou nervosa: nervosa e confusa. Por que citei seu nome? Você nunca leu nenhuma das minhas cartas, você se foi, você morreu, apesar de eu não tê-lo visto no caixão, você está enterrado há muito tempo. E digo mais, você não tinha o direito de fazer isso comigo, depois de todos esses anos, você não tinha o direito.

Hoje poderia ter sido o melhor dia da minha vida, mas você estragou tudo. Mesmo morto há tanto tempo, você ainda apronta comigo. Queria saber o que ganha com isso… Quer saber por que estou tão nervosa com você? Tem haver com o presente de quinze anos que deixou pra mim, mas antes que a gente fale sobre isso, te prometi na última carta que te contaria porque a mamãe e o papai estavam estranhos e também as novidades dos meus dez, onze, doze, treze, catorze e quinze anos, ok… Vamos começar pela mamãe e o papai.


Como eu te falei, assim que o Hugo nasceu, a mamãe começou a ficar estranha, e assim que a vovó Laura faleceu, ela ficou ainda mais estranha. Ela e o papai quase não se falavam mais, e era sempre eu o papai que tomávamos conta do Hugo. Eu era muito pequena e não entendia de fato o que estava acontecendo e quando eu soube de fato o que era, fiquei sem falar com a mamãe por dois anos. Mas, não vamos apressar as coisas, vamos por partes.

Você sabe que o primeiro namorado que a mamãe teve foi o papai, certo? Errado! Isso é o que ela nos contava, mas na verdade por coincidência ou não, a mamãe teve um primeiro amor. Alguém por quem ela se apaixonou um ano antes de conhecer o papai. E agora você vai ficar assustado com a coincidência… Lembra que a mamãe insistia que você tinha que ser tratado no hospital Esperança Divina? Bem, o papai não ganhava tão bem nessa época, sendo assim, não tínhamos dinheiro suficiente para pagar o seu tratamento, mas… misteriosamente, suas despesas foram pagas por um contribuinte anônimo. 

No início, o papai pensou que fosse alguém da família que não quisesse se identificar. Nós chamamos de anjo, a tal pessoa que fez isso. O papai estava tão feliz por você poder se tratar no melhor hospital e ter a melhor equipe de médicos à sua disposição, que acabou não indo atrás de saber quem havia feito a tal doação misteriosa, que hoje eu sei que não foi barato.

Mas, para a surpresa de todas, o papai só descobriu quem era quando o Hugo nasceu. A mamãe insistiu que queria ter o bebê no mesmo hospital que tinha te tratado. E, agora o papai já tinha condições financeiras para isso, então não fez objeção. Acontece, que na hora de pagar a conta, o papai descobriu que todas as despesas já haviam sido pagas por um doador anônimo. Foi aí que o papai começou a desconfiar. Ele esperou a mamãe voltar pra casa e assim que o período do resguardo terminou, ele a pressionou. A mamãe acabou confessando que mantinha um caso com o dono do hospital desde que você nasceu. Ela confessou também que tinha certeza que eu e você éramos filhos do papai, pois com a desculpa de fazer exames de rotina, ela acabou colhendo uma amostra do sangue dele e fez os exames de DNA escondido, mas ao comparar com o sangue do Hugo, ela teve a certeza de que ele não era filho do papai. O Hugo não sabe disso até hoje e provavelmente nunca vai saber.

Quando o papai descobriu isso, ele ficou muito mal. A primeira coisa que ele fez foi chorar. O papai ama a mamãe de verdade. É nítido isso no olhar dele e principalmente na forma como ele a trata. O papai estava pronto para sair de casa quando a vovó faleceu e acabou ficando mais um pouco por conta disso, e foi meio que obrigado a cuidar do Hugo, mesmo esse não sendo seu filho legítimo. E acredito que foi nesse momento que papai se apaixonou por aquele bebê. 

O papai saiu de casa, mas mesmo assim, durante todo o tempo que os dois permaneceram separados (somente de corpos, nunca se divorciaram de fato), papai sempre mandou a pensão dobrada, para que desse para mim e para o Hugo. Como o papai já tinha registrado Hugo no seu nome, nos finais de semana que ele ia me buscar, acabava levando o Hugo também. No começo, a mamãe não queria deixar, achava que não tinha nada a ver o papai fazer aquilo, ela só entendeu que papai amava o Hugo como se fosse seu filho legítimo no dia que ele ameaçou entrar na justiça para ter direito a guarda da criança.

Mamãe se arrependeu muito do que fez. Eu cheguei a conhecer o tal homem, não me lembro o nome dele. Mas, ele foi lá em casa umas cinco vezes depois que a mamãe e o papai se separaram. Sempre que ele chegava a mamãe mandava eu subir para o meu quarto e os dois ficavam conversando na sala. A mamãe estava tão cega por esse homem que só caiu em si quando disse a ele que iria se divorciar do papai para que os dois ficassem juntos e que também iria entrar na justiça para tirar o nome do papai da certidão de nascimento do Hugo para que o verdadeiro pai pudesse lhe dar o sobrenome. O homem por sua vez respondeu para a mamãe que nunca se casaria com ela, que era somente um caso. E que ele não registraria um bastardo, que estava feliz pela mamãe ter encontrado um trouxa pra assumir a criança e que se soubesse que o Hugo era filho dele, teria abortado a criança mesmo sem o consentimento dela no primeiro pré-natal. A mamãe ficou arrasada nesse dia, ela chorou bastante, eu até quis me aproximar dela, mas ainda não estava disposta a conversar com ela. Eu falava somente o básico e ficava torcendo para chegar o fim de semana para que eu pudesse ver o papai.

Depois desse dia, a mamãe começou a querer voltar com o papai. Mas, ele estava machucado com tudo que tinha acontecido, o papai havia se mudado para a casa do vovô e da vovó, então vez por outra eles se encontravam em algum mercado, loteria ou padaria. A mamãe fez tudo que pôde para se aproximar do papai, mas ele realmente estava disposto a não voltar para ela. Só depois de conversar com o Pastor Alan que o papai resolveu aceitar um convite da mamãe para jantar com ela.

Naquele dia, Hugo e eu fomos para a casa do vovô e da vovó. O papai não deixava ninguém da família tratar o Hugo com indiferença, ele enchia a boca para falar pra todo mundo que o Hugo era seu filho e procurava semelhanças entre ele e a criança, mesmo que tivesse que inventar. Vez por outra ele falava frases do tipo: “Esse menino tem meus olhos” ou “Ele puxou os cabelos do vovô”, ou ainda “Ele sorri da mesma forma como eu sorria quando era criança”. O papai amava mesmo o Hugo, aliás… ama.

O papai perdoou a mamãe no dia do jantar. Ela fez o prato preferido dele: lasanha. A mamãe pediu perdão por tudo que tinha acontecido, e disse que não conseguia entender os motivos que a levaram à praticar tal coisa, ela até mesmo jogou a culpa na sua morte para se justificar. O papai se mostrou bastante compreensivo e apesar de estar machucado, ele acabou perdoando a mamãe, mas disse que só voltaria pra casa quando tivesse certeza que a mamãe não tinha mais contato nenhum com o ex-amante. Demorou oito meses para o papai voltar, não que a mamãe ainda estivesse de caso com o dono do hospital, mas o papai queria voltar pra casa, enterrar o passado e viver uma nova história com a mamãe, e é exatamente assim que eles têm vivido. 

Então, dos meus nove aos onze anos eu vivi dessa forma. A semana com a mamãe e o Hugo e os fins de semana com o papai, vovô e vovó. Só quando eu estava perto de completar doze anos que eles voltaram e graças a Deus estão juntos até hoje. Acho que eles não se largam mais, eles formam um casal bonito. No ano passado, o tal dono do hospital faleceu, esqueci de mencionar que ele era vinte e sete anos mais velho que a mamãe, mas não pense você que ela estava com ele por causa do dinheiro, na verdade, esse homem era pobre quando a mamãe o conheceu e só ficou rico porque era um empregado de confiança do antigo dono do hospital e outros patrimônios como casas no centro da cidade e fazendas no interior. Como seu ex-patrão não tinha filhos e nenhum parente vivo, ele resolveu deixar tudo para o ex-amante da mamãe, e foi assim, que do dia pra noite ele se tornou um homem muito rico.

Nos meus doze anos não aconteceu nada de muita relevância. Na verdade, foi um ano triste. Foi o ano que perdemos o Teddy, pai do Olaf. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias. Lembra que ele havia salvado a vida de uma moça que depois se casou com o dono dele? Pois é! Teddy era considerado um herói por aqui e todos sentiram muito sua perda, mas como diz o Hugo, ele foi para o céu dos cachorros.

Com treze anos eu dei meu primeiro beijo. Mas, não foi com o Pierre como você deve estar pensando. Foi um carinha idiota chamado Kenedy, na verdade, ele só queria brincar com meu coração. Mas, ele teve o que mereceu. No último dia de aula, ele e o Pierre saíram na porrada por minha causa. Pierre pegou ele me traindo e partiu pra cima dele, ele bateu nele até ele confessar pra mim que estava me traindo. Eu fiquei arrasada e chorei bastante, mas aquilo acabou sendo um mal que veio para o bem. Naquele dia eu tive certeza que Pierre era o cara certo.

Com catorze anos, Pierre me pediu em namoro, como ele já sabia que eu escrevia cartinhas pra você (Papai e ele viraram amigos e o papai acabou contando), ele me pediu em namoro por uma cartinha, você acredita? E o melhor de tudo, ele mandou a cartinha pelo correio. Mesmo que a gente não more tão longe um do outro, ele se deu ao trabalho de mandar a cartinha pelo correio, eu ainda tenho ela aqui, vou ler pra você:

“Sara, eu sinto muito por não estar fazendo isso pessoalmente, mas você me conhece e sabe o quanto sou tímido. Essa é a melhor maneira que encontrei de ter coragem pra te falar tudo que sinto, eu já tentei por diversas vezes te falar isso pessoalmente, mas meu medo é muito grande e acabo não dizendo nada, por isso espero que essa cartinha encontre morada no seu coração.

Eu sou perdidamente apaixonado por você. Desde o primeiro momento que te vi, quando você estava lá na escola emburrada por não ter ficado com o Olaf na sala de aula. E quando a nossa professora pediu que fizéssemos um desenho, naquele momento eu desenhei você. Se você olhar dentro do envelope da carta, vai ver que te mandei o desenho que fiz e que guardo até hoje, quer dizer… guardava. Espero que você possa guardá-lo também para que um dia possamos mostrar aos nossos filhos.

Espera aí, eu disse filhos? Sim, eu disse! Sabe por quê? Porque eu me vejo ao teu lado pra sempre e é assim que quero que aconteça, claro, se for da sua vontade também. Eu consigo fechar os olhos e imaginar nós dois sentados na varanda vendo nossos filhos brincarem num lindo quintal onde possua um balanço e uma casa na árvore igual à essa que tem na sua casa. Mas, vamos falar do agora, não é?

Eu não quero mais que você sofra. Sei como deve ter doído pra você saber que o Kenedy estava te traindo e fiquei muito triste ao te ver chorar e saber que aquelas lágrimas estavam sendo derramadas por minha causa. Mas, eu te amo tanto que não poderia aceitar ver ele brincar assim com você. Enquanto você estava feliz nos braços dele, eu não me aproximei de ti pra falar o que eu sinto, mas agora que sei que você está sofrendo, eu resolvi contar toda a verdade.

Eu lamento ter sido o motivo das suas lágrimas, mas se me permitir quero ser também a pessoa que vai enxugar cada uma delas e compensar te arrancando mil sorrisos para cada lágrima que você derramou. Eu te amo muito, Sara, e como você diz: eu vou amar você pra sempre. Então, vou te fazer a pergunta que está engasgada dentro de mim: quer namorar comigo?”

É claro que eu disse: sim! Aquela cartinha foi a coisa mais linda que alguém já tinha feito por mim. Não tinha como dizer: não. Eu encontrei Pierre no dia seguinte que recebi a carta e não disse nada, apenas embrulhei minha resposta no mesmo envelope que ele havia me enviado a carta e entreguei bem séria pra ele. Ele me olhou quase chorando e abriu o envelope, por mais que só estivesse escrita uma única palavra no papel que eu lhe entregara, ele passou uns dois minutos lendo e relendo minha resposta e quando, por fim, levantou os olhos, ele me abraçou e nos beijamos ali mesmo na sala de aula. A turma toda gritou e alguns assobiaram enquanto outros batiam palmas. Eu não pude ver, mas uma colega me disse que o Kenedy estava com uma cara de triste. Não posso fazer nada por ele.

Chegamos aos meus quinze anos, mas precisamente ao dia de hoje, ou melhor, ontem. Já são uma e vinte e três da manhã. Minha festa de aniversário durou até agora pouco, foi a primeira vez que uma festinha minha passou das dez horas. E dessa vez foi tudo tão lindo, menos o seu presente, Carlos, mas já falamos sobre isso.

A vovó estava trabalhando num vestido desde os meus treze anos e nem eu, nem a mamãe e nem o papai sabíamos. Ela e o vovó arrumaram tudo escondido. Era um vestido lindo de um azul tão vivo e brilhante que praticamente refletia as luzes por onde quer que eu passasse. A tia Jade havia me dado uma tiara para prender meus cabelos e o Pierre um lindo colar de ouro que tinha uma foto minha e dele dentro de um coração e no outro lado do coração, a foto do Olaf que nessa altura do campeonato já chamávamos de nosso filho. 

Todos nossos amigos estavam presentes, familiares e conheci tantos primos que eu nunca tinha ouvido falar. A festa foi linda e eu dancei valsa com o vovô, papai, Hugo e Pierre. Na verdade, eu dancei duas músicas com o Pierre e numa delas ele cantou pra mim. Ele canta muito mal, mas o que vale é a intenção, não é verdade?! Achei lindo ele querer cantar pra mim, meus ouvidos que não gostaram muito. 

E aí, após a festa encerrar, como da outra vez, a mamãe me chamou no quarto para me dar o seu presente, e adivinha só? Era um álbum com todas as fotos que tiramos juntos, algumas antes mesmo de eu nascer. Ela disse que você insistiu para que ela fizesse aquele álbum para que eu nunca me esquecesse de você, como se isso fosse possível. Eu nunca vou me esquecer de você, Carlinhos, eu já te disse isso inúmeras vezes. 

Eu comecei a folhear o álbum e a mamãe me deixou sozinha no quarto; ela fez bem. Não gosto de chorar na frente de ninguém, a mamãe sabe disso. Então, antes de sair, ela colocou uma caixinha de lenços umedecidos em cima da cama e saiu. Quando eu vi a primeira foto, eu já comecei a chorar, era sua mãozinha na barriga da mamãe enquanto ela estava me esperando no seu terceiro mês de gestação. Em outra foto, provavelmente tirada no mesmo dia, você estava beijando a barriga da mamãe. Prossegui folheando o álbum e vi uma foto onde você me segurava no colo um pouco depois de eu sair da maternidade e em outra foto você fazia cara feia porque eu tinha sujado as fraldas. Continuei olhando o álbum e lá estava você segurando a minha mamadeira e olhando pra mim com olhos de amor. Mais pra frente, eu um pouco maior, vi você servindo de cavalinho para mim, e em outra foto você me pegava no colo e me levantava para que eu pudesse triscar no lustre que ficava na sala da nossa antiga casa. Eu fui olhando foto por foto e cada nova foto me derrubava inúmeras lágrimas, daí parei na última foto e confesso que devo ter ficado uns trinta minutos nela. Foi a última foto que tiramos juntos, no dia das bodas de ouro do vovô e a vovó. Você e eu estávamos parados e abraçados em frente a bicicleta vermelha que o vovô resgatara pra vovó. Eu ainda me lembro que você me prometeu que iríamos andar juntos naquela bicicleta quando você saísse do hospital, mas você nunca saiu.

Foi muito doloroso, pra mim, ver esse álbum de fotos. Mas, foi bom também. Eu quase não me lembrava perfeitamente das suas feições. Dizem que recordar é viver e hoje me sinto mais viva, ou melhor, sinto você vivo dentro de mim. Eu fiquei uma fera porque queria tirar um monte de fotos toda maquiada, mas agora não tem mais como, porque as lágrimas que você me fez derramar, acabaram com toda minha maquiagem. Espero que esteja feliz. Eu não tenho o direito de ficar com raiva de você, eu sei que só queria me alegrar, e falo honestamente, você me deu o melhor presente de todos. Fico me perguntando como você tão novo, foi capaz de pensar nisso tudo?! Primeiro o vídeo e agora esse álbum de fotos, mesmo atravessando uma doença tão terrível, você foi capaz de pensar em mim. 

O que você fez hoje foi lindo! Eu nunca vou me esquecer disso e já guardei o álbum. Um dia vou mostrar para os meus filhos. Eles não vão conhecer você pessoalmente, mas vou fazer questão de falar de você em todo tempo, eles vão saber o quão legal o tio deles era. Obrigado por isso, aliás, obrigado por tudo. A próxima carta que vou te escrever será no dia do meu casamento, espero que não demore muito, estou ansiosa por isso, mas também sei que sou muito nova pra pensar nisso agora. A única certeza que tenho é que o Pierre é o cara certo e que ele vai me fazer muito feliz. Obrigada pelo presente e obrigada por mesmo tão longe, você ter sido presente na minha vida no dia de hoje… Eu vou amar você pra sempre!

Com Amor,
Sara 

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