Final Alternativo

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– Afaste-se, eu vou pular!

Disse uma voz feminina trêmula e medrosa.

Ela tinha treze ou quinze anos, não mais do que isso. Cabelos curtos, um pouco acima dos ombros, a pele de tão branca chegava à mostrar as veias de seu corpo. Estava magra, muito magra, como se não comesse há dias; mesmo estando vestido de uma blusa de frio era possível ver o desenho de suas costelas, seus braços estavam pingando sangue, ela já tinha tentado um método diferente antes, mas o insucesso a fez pensar em algo definitivo, algo que realmente arrancasse toda àquela dor. Ela pensou que aquela era a melhor forma, que aquele era o único jeito.

– Se você pular, eu pulo junto!

– Você não teria coragem… Não se aproxime, fique onde está… Se chegar mais perto, eu pulo!

– Espere, por favor, não faça isso! Apenas me ouça ou pelo menos deixe-me entender por que quer fazer isso?

– Porque ninguém me ama…

– Isso não é verdade!

– Eu não me sinto amada, minha mãe só dá atenção para a minha irmã de cinco anos. Meu namorado me trocou por uma menina mais bonita…

– Não existe ninguém mais bonita do que você. Seu ex-namorado foi um bobo de te deixar. E com certeza sua mãe não fazia ideia que você se sentia assim.

– Não fazia ideia porque ela nunca conversa comigo, nunca tem tempo para mim, só fala comigo quando meu boletim chega ou quando deixo de arrumar a casa. É sempre brigando, brigando e brigando. Minha mãe tomou meu celular na frente das minhas amigas e disse que não criou filha vagabunda para ficar se exibindo no Whatsapp…

– Olha, não foi uma atitude muito sábia da sua mãe. Mas a vida não vem com um manual de instruções. Você já parou para pensar que ela pode não saber como agir com você?

– Como assim?

– Você está crescendo, os tempos são outros. Sua mãe foi mãe solteira, ela teve que praticamente te criar sozinha até seis anos atrás, e a infância dela foi muito difícil, você sabe. Sua avó teve dezessete filhos, sua mãe não recebia carinho dos seus avós, mas mesmo assim, ela procura dar o melhor a vocês duas, mas nem sempre ela vai acertar.

– Mas e meu pai? Meu pai não me quis, ele não me ama, ele nem sabe que eu existo.

– Tem certeza? Seu pai está bem aqui na sua frente, falando que se você pular, ele pula junto.

– Você não é meu pai! Você só me criou… cuidou de mim… me consolou quando eu chorei… esteve presente na minha apresentação do primeiro ano… busca meus boletins no colégio… me alerta quando um rapaz não é bom para mim… contava histórias para eu dormir… me dá um beijo na testa todas as noites e me chama de Princesa… (enquanto dizia essas palavras, Emily começava a refletir sobre o peso delas e sobre como um homem que não tinha absolutamente nenhuma obrigação de cuidar dela ou demonstrar carinho, o fazia todos os dias, de alguma forma, ele sempre o fazia. Foi aí então que ela percebeu que era realmente amada, muito amada por sua família. Ela até se lembrou que sua pequena irmãzinha sempre lhe oferecia metade de tudo que ia comer, e que sua mãe vez por outra lhe dava um vestido que ela gostava muito, mas o que mais lhe intrigava era por que seu padrasto fazia tanto por ela… Aquele homem não era seu pai, por que demonstrava tanto amor e carinho?). Sempre me dá um caloroso abraço quando chega do serviço… faz questão de comer a asa ou o pescoço do frango só para que eu e minha irmã possamos comer a coxa ou o peito… compara sempre os melhores presentes… aguenta minhas crises quando estou de TPM…  Você não é meu pai, mas mesmo assim você resolveu carregar um fardo que não é seu, por quê?

– Porque eu te amo, Emily! Eu te amei desde o primeiro momento em que eu te vi. Você era só uma criança de sete aninhos, e naquele dia que te conheci, você me olhou com olhos tão puros, olhos tão inocentes, que ali mesmo eu soube o significado de ser pai. Não foi a Eduarda que me fez ser pai, Emily, foi você. Eu aprendi a ser pai com você e aprendo um pouco mais a cada dia, você sempre será a minha menininha, me perdoe se eu erro com você, me perdoe se não estou te dando aten…

Emily desceu do parapeito da ponte e correu na direção do pai, lançando-se em seus braços e o apertando com todas as suas forças e chorando de soluçar.

– Perdoe-me, pai, me perdoe… perdoe-me por ser uma filha tão ruim, por favor, me perdoe.

Carlos apertou-a com a mesma intensidade. Ele realmente amava àquela menina e falou sério quando disse que se ela pulasse, ele pularia junto. Os dois sempre estiveram conectados por toda vida, mas sem perceber, eles tinham se distanciado após o nascimento da Duda, a filha caçula. Embora amasse as duas com a mesma vontade, força e intensidade, Carlos dedicava mais tempo a Duda, por ela ser menor, mas esforçava-se ao máximo para estar sempre presente na vida de Emily, demonstrando amor e protegendo-a com todas as forças.

– Não há o que perdoar, minha filha. Você é uma ótima filha. Só está um pouco perdida, acontece… Como eu disse, a vida não vem com um manual de instruções. Estamos todos aprendendo a todo momento. Eu aprendo com você e você aprende comigo, e juntos aprendemos com a sua mãe ou com a Duda. A vida é um constante aprendizado.

– Pai… pai, nossa… como é bom falar essa palavra! Por que eu nunca o chamei assim antes? Pai… eu tenho um pai… Eu te amo, pai, me perdoa por ser uma filha tão boba.

– Pode usar sempre que sentir vontade.

– Como o senhor me achou pai?

– Eu sou um Pai, esqueceu filha? Eu senti seu coração e te procurei por toda a cidade, pelos possíveis lugares onde você estaria, onde gostaria de estar para se sentir sozinha, para pensar e até mesmo para…

– Você me conhece mesmo. Eu te amo pai, eu te amo!

– Eu também te amo filha, te amo pra sempre.

– E mais um dia…

– Sim… e mais um dia, minha filha!

Ela foi se acalmando, parando aos poucos de chorar e ficou ali, perdida naquele abraço, sentindo a barba do seu pai se encostando em seu rosto e sentindo-se agradecida por ter o melhor pai do mundo. Ele cada vez a abraçava mais forte e mais forte. Ela sentia-se protegida, e sentia que sua vida a partir daquele momento teria um final alternativo. E ele sentia-se o homem mais feliz do mundo por poder segurar sua filha, sua princesinha, em seus braços…

 

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