Existe Perdão Após a Traição?

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– Pronto para perder mais uma vez?

– Esse ano será diferente!

– Por que está tão confiante? Sua família já perde… deixe-me ver… cinco? Não, não… dez? Ah, sim, me lembrei… sua família já perde nas finais para mim há quinze anos. É muito tempo… você não acha, Tony?

– Hoje será diferente. Estou confiante em meu Cavalo Negro. Eu aprendi alguns truques novos, garanto que esse ano o seu cavalo vai comer poeira.

– Veremos…


Tony era um pequeno agricultor do município de Cafelândia no interior do Brasil. Sem nenhum tipo de estudo ou instrução, havia sido criado na roça desde pequeno, embora não dominasse humanas ou exatas. Tony sabia tudo do campo e animais. Seu pai conseguira o sítio em que morava após trabalhar mais de trinta anos para uma família muito rica e abastada. Como recompensa pelos fiéis serviços de seu caseiro e capataz, a nobre família recompensou seu pai ao se aposentar com vinte hectares de uma terra boa e produtiva, e ele recebeu o presente com tudo, ou como falam no interior do Goiás, de porteira fechada.

Tony era o mais velho de uma família de cinco irmãos. Na verdade, seriam sete, mas dois morreram antes de completarem o primeiro ano. Tony nunca frequentou a escola. Teve que desde cedo trabalhar para ajudar no sustento da família. Quando não estava ajudando o pai na lavoura, estava na cidade tentando ganhar uns trocados como engraxate ou empacotando comparas nas pequenas vendas.

Apesar da vida difícil, Tony tinha sempre um sorriso nos lábios. Ele sonhava em ser cantor sertanejo. Queria mudar de vida, ajudar a família e comparar uma televisão nova para a mãe. O pai de Tony, Senhor Caju, como costumava ser chamado, era muito respeitado na cidade, não por ser alguém importante, mas por ser um benzedor. Sempre que alguém estava doente na cidade ou nas comunidades rurais, eram trazidos ao Senhor Caju para que esse pudesse benzer a pessoa. E por mais incrível que isso possa parecer, a mesma se recuperava em uma ou duas horas, até os casos mais extremos, alguns contam que até mortos já voltaram à vida depois de serem benzidos pelo Senhor Caju.

Mas como toda pessoa normal, Sr Caju também tinha inimigos. Inimigos, não. Apenas um inimigo: Joaquim Vilela, mais conhecido como Coronel. Não que ele realmente fosse um coronel, apenas chamava a si próprio dessa forma. Andava sempre armado com uma garrucha e um punhal na cintura, além de um canivete que usava perto do tornozelo. O Coronel se achava o dono daquela cidade, também pudera, além de ser dono da maior fazenda da região, o Coronel também era dono do único açougue, a única padaria, as duas únicas vendas e possuía o único telefone da cidade. Querendo ou não, a cidade estava em suas mãos.

O ódio do Coronel por Senhor Caju e toda sua família começou muito antes de Tony nascer, na verdade, muito antes dos pais deles se casarem. O Coronel não era boa pessoa desde a adolescência e costumava aprontar muito na pequena cidade de Cafelândia. Seus pais já tinham bastante riqueza e poder, além de algumas influências políticas e com magistrados, sendo assim, muitas de suas peripécias não eram punidas com o rigor necessário.

Joaquim Vilela e Cássio Juvenal eram dois grandes amigos, quase como irmãos. Estavam sempre a correr por aí, plantando bananeira, subindo em cima de árvores, espantando a boiada, espiando as moças tomarem banho no rio. Onde tivesse qualquer tipo de confusão, os dois certamente estariam envolvidos. E o melhor de tudo, preferiam enfrentar as consequências juntos, do que acusar um ao outro quando eram pegos por alguém. Um sempre acobertava o outro, sempre.

Certa vez, os dois roubaram manga da fazenda do Seu Edir e venderam para o próprio na cidade. Na ocasião, os dois ainda se lembram de ouvir o velho Edir dizer: “Meninos, onde vocês conseguiram mangas assim tão doces? Nem em minha fazenda encontrei tamanha doçura”. Os dois riam que faltavam chorar. Dava para acreditar? Eles não somente roubaram mangas e venderam as mangas da fazenda do Seu Edir para o próprio, mas também o escutaram dizer que em sua fazenda não havia mangas tão doces. Até antes de deixarem de se falar, os dois riam muito dessa história.

Houve uma vez que Joaquim foi visitar Cássio e deu a ele uma fruta que mais parecia um pimentão em miniatura. Ela tinha uma estranha castanha na ponta, até então, Cássio nunca tinha comido daquela fruta. Mas você pode se perguntar: ele não morava numa fazenda? Sim, ele conhecia outros tipos de fruta como manga, goiaba, limão, laranja, seriguela, amora, mas definitivamente ele nunca tinha comido àquela fruta. Talvez já tivesse visto na feira, mas nunca havia experimentado, porque naquela época, apenas as famílias mais abastadas comiam a tal fruta.

– Que fruta estranha… Tem certeza que não é um pimentão pequenininho?

– Tenho, sim! Além disso, se fosse um pimentão pequenininho, não seria pimentão, seria pimentinha.

– Tem razão, Joaquim. Você é tão sabido!

– Anda, come!

– Não posso.

– Como assim não pode?

– Tudo que eu vou comer eu tenho que dar aos meus irmãos também. Nós somos cinco — com meu pai e minha mãe somos sete, e você só trouxe um.

– Mas come logo, assim ninguém vai ver.

– Mas eu vou saber que neguei a eles.

– Você não negou, até porque ninguém te pediu um pedaço. Anda, come logo! Eu fico aqui de vigia, se eu vir alguém te falo.

– Está bem!

Cássio deu uma mordida naquela fruta e sentiu o néctar escorrer por entre seus lábios. Ele não poderia acreditar que estava provando uma fruta de rico. Ele nunca havia comido nada tão delicioso assim. “É mais gostoso do que mil mangas doces” — pensou ele. Após isso, deu mais duas mordidas, acabando por inteiro com aquela deliciosa fruta.

– Que delícia! Qual é o nome dessa fruta?

– Caju!

– Caju? Que nome estranho!

– É… e então, gostou?

– Sim, eu gostei muito. Você poderia trazer mais caju para os meus irmãos e meu pai?

– Não sei, você pode voltar comigo e tentamos conseguir.

– Tudo bem, só preciso acabar meu serviço e irei.

– Eu te ajudo. Sabe o que eu reparei?

– O quê?

– Seu nome é Cássio Juvenal.

– Sim, mas isso eu já sabia!

– Não, não é isso.

– E o que é então?

– Se a gente pegar as duas primeiras letras dos seus dois nomes, dá Caju, assim como a fruta!

– É mesmo… você é mesmo muito sabido, Joaquim.

– Tá aí! Sempre achei o nome Cássio Juvenal muito grande; de hoje em diante, vou te chamar de Caju.

– Caju… gostei.

Após terminar na lavoura, Caju e Joaquim saíram rumo à fazenda do pai de Joaquim. Estavam em busca daquela deliciosa fruta e com a missão de levá-la para que os pais de Cássio pudessem prová-la. Ao chegarem à fazenda, o pai de Joaquim o esperava com uma vara de macieira na mão. Joaquim já temeu pelo pior, um pouco antes de ir ao encontro de Cássio, ele teria aprontado uma daquelas. Ele olhou por debaixo da saia da sua prima Tereza, que estava hospedada em sua casa. Claro que ele não ficou lá para ver o que ia acontecer. Assim que Tereza gritou, ele já passou rapidamente pela cozinha e saiu em direção à casa de Cássio. Mas agora, não tinha como escapar. Joaquim suava frio e tinha vontade de chorar.

Se você não conhece vara de macieira, meu conselho é que você nem queira conhecer, principalmente nessa ocasião. A vara de macieira é conhecida por envergar e não quebrar; ela é extremamente flexível, e quando você leva uma surra com essa vara, os vergões sobem na mesma hora, além de causar uma ardência sem igual. Agora você já sabe o que se passava na cabeça do pobre Joaquim naquele momento. Temendo pelo pior, Joaquim fez a pior coisa que poderia ter feito naquele momento.

– Que bom que já preparou a vara, Pai. Eu peguei o Cássio roubando na nossa fazenda.

– Eu?

– Nem venha falar comigo seu ladrão. Pai, cheire as mãos dele, verás que ainda têm cheiro de Caju.

– M… mas… mas você me deu o Caju.

– É mentira, pai. Quando eu peguei alguma coisa aqui de casa sem pedir permissão?

Naquele momento, o pai de Joaquim se encheu ainda mais de fúria — agora não pelo filho, pelo contrário, ele estava orgulhoso do filho. Mas estava furioso por ter um ladrão parado ali na sua frente. Sem nem tentar se controlar, sua atitude foi bater no pobre Cássio com a vara de macieira até que o menino caísse no chão e se contorcesse de tanta dor. Ao terminar, ele ordenou que um de seus capatazes levasse o menino até os pais dele. Quando chegou ao sítio, Cássio estava muito ferido, ensanguentado, e havia desmaiado de tanta dor. O capataz com compaixão do pobre garoto e tendo certeza de que o filho do patrão mentia, deu à família um vidro de arnica para os machucados e alguns trocados para compararem remédio na cidade.

Demorou muito até que Cássio se recuperasse, e quando por fim aconteceu, ele recebeu uma visita inusitada. Ele mal podia acreditar no que seus olhos estavam vendo, mas bem ali, parados à sua porta, estavam seu agressor e seu antigo amigo. Os olhos da criança lacrimejavam e seu agressor mantinha os olhos firmes em Cássio, quando por fim disse:

– Meu filho tem algo a lhe dizer.

– Me desculpe.

– Fale mais alto!

– Me desculpe.

– Mais alto!

– Me Desculpe!

– Diga mais alto! Ele ainda não pode ouvir.

– DESCULPE-ME! POR FAVOR, ME PERDOE, CAJU, ME PERDOE!

Joaquim começou a chorar e Cássio ficou sem entender o porquê. Embora não quisesse ver nenhum dos dois ali na sua frente, a cena de Joaquim chorando e lhe pedindo perdão fazia com que o garoto se sentisse ainda mais triste, sem saber ao certo o que falar, ele apenas disse:

– Está tudo bem. Não precisa chorar. Eu já te perdoei.

Após as palavras de Cássio, o pai de Joaquim pegou o filho pela mão e saiu, mas não antes de conversar com os pais de Cássio e deixar uma boa quantia em dinheiro para os dois, de certo para acobertarem o que tinha ocorrido. Depois disso, Cássio e Joaquim não se falaram por quase três décadas. Embora morassem bem perto um dos outros, os dois evitavam caminhos em que haveria a possibilidade de se cruzarem, e quando isso acontecia, um dos dois sempre saía de perto do outro. Eu queria poder contar que Joaquim aprendeu a lição depois do que fez com Cássio, mas não foi bem assim. Ele continuou piorando e piorando. E quando tirou a carta de motorista, andava para cima e para baixo, desfilando na caminhonete de seu pai. Ele se achava melhor do que todo mundo. Sempre humilhava os trabalhadores de seu pai, os moradores da cidade, e até a sua prima com quem se casara anos depois.

Mesmo não sendo flor que se cheire, Joaquim ainda tinha muito amor e respeito por seu pai. Embora nunca tenha escutado seus conselhos, e apesar do episódio com Cássio, seu pai era um homem muito certo e honrado, sempre correto em seus negócios; íntegro e de boa índole, respeitado por seu caráter. Sempre que podia, saía para cavalgar com a família. Nunca fora um pai ausente, nunca levantou a mão para sua mãe. Ele o admirava e o amava mais que tudo nessa vida.

Cássio havia crescido, e se tornado um homem. Havia se casado com o amor da sua vida após cortejá-la por mais de três anos — o que fora totalmente incomum, já que na época os casamentos eram arranjados. Sua esposa já tinha engravidado duas vezes e perdido ambas as crianças, foi aí que Cássio decidiu que não permitiria mais que aquilo acontecesse. Ele começou a se aproximar dos mais sábios e foi aprendendo o segredo das ervas medicinais. Fez amizade com um curandeiro de uma cidade vizinha e com ele aprendeu ainda mais sobre a cura da natureza. Ele estudou tanto sobre plantas, rezas e algumas coisas um tanto quanto místicas, que se tornou benzedor e seu primeiro grande desafio foi justamente o ventre de sua amada esposa.

Pouco tempo após perder o segundo filho, Dona Maria reparou que alguns caroços cresciam em sua barriga, mais ou menos na altura onde ficaria o útero. Ela temeu pelo pior. Pensava que se não pudesse mais engravidar seu marido, iria deixá-la, já que seu grande sonho era ser pai. Maria não acreditava em rezas, curandeiros e benzedores. Para ela, a pessoa tinha que ser Doutor, mas mesmo assim ela permitiu que o marido a benzesse. Após todo o procedimento, ela pegou no sono e quando acordou, os caroços haviam desaparecido. Mas o maior milagre veio alguns meses depois quando no dia 13 de junho — dia de Santo Antônio — ela dava à luz ao seu filho primogênito, e para homenagear o santo casamenteiro, o primeiro filho recebera o nome de Antônio, ou Tony, para os íntimos.

A notícia de que Senhor Caju havia benzido a esposa e curado o seu ventre que não segurava gestação havia se espalhado em pouquíssimo tempo. Pessoas de todo Goiás, e depois de todo Brasil, iam ter com Senhor Caju para que esse pudesse lhes curar alguma enfermidade. E por mais que tentassem retribuir Senhor Caju, ele nunca aceitou pagamento. Ele não queria receber por ajudar as pessoas.

Numa noite chuvosa por volta das duas da manhã, Senhor Caju ouviu alguém bater desesperadamente em sua porta. A pessoa batia com tanta força que parece que a porta iria cair ao chão. Ele levantou-se da cama e disse à esposa que pegasse o pequeno Tony e se escondesse. Antes de abrir a porta, ele pegou a espingarda que ficava pendurada na parede e gritou:

– Quem é?

– Por favor, abra a porta Caju.

– Quem é?

– Sou eu… o Coronel!

Passaram mil coisas na cabeça de Senhor Caju em pouco menos de dez segundos. Ele não sabia se deveria ou não abrir a porta. Já era tarde, os dois não se falavam há anos, mas se ele estava ali na chuva batendo em sua porta, é porque alguma coisa tinha acontecido. Mesmo lutando contra si mesmo, ele abriu a porta.

– Vamos, entre!

– Não temos tempo… meu pai está morrendo.

Novamente Senhor Caju ficou perdido em seus pensamentos. Ele soube naquele momento que o Coronel estava ali para levá-lo para benzer o pai dele. Mas justamente aquele homem, aquele que havia batido nele até desmaiar, que o tinha tratado como bandido sem ao menos escutar sua versão… Ele sabia que o certo a se fazer era benzer àquele homem, mas ele não queria.

– Sinto muito por isso.

– Preciso que venha benzer meu pai. Já o levamos aos melhores médicos do Brasil e ninguém consegue salvá-lo. Mas sei que você pode, eu sei. Não importa quanto vai custar, apenas venha.

– Não irei.

– Não faça isso, Caju. Por favor, tenha compaixão.

– Igual seu pai teve de mim, quando estava me contorcendo de dor enquanto ele me batia?

– Há mais de trinta anos que isso aconteceu, Caju! Por favor…

– Não. Eu não irei.

– O que você quer em troca? Carro? Casa? Dinheiro? Eu soube que teve um filho. Posso pagar todos os estudos dele até se formar. Seu filho poderá ser doutor um dia, mas, por favor, venha.

– Já está tarde, Joaquim. Volte para sua casa. Daqui eu não saio, além disso… seu pai merece pagar pelo que fez.

Cássio bateu a porta na cara do antigo amigo, mas ficou escutando por detrás da porta. Ele pode ouvir alguns minutos de choro; um choro desesperado, um choro de dor, um choro tão profundo que nem mesmo a alma era capaz de suportar. Ele pôde ouvir o carro ligar e demorar a sair, e quando não era possível escutar mais nada além do barulho da chuva, ele voltou à sua cama. O pai do Coronel morreu naquela mesma noite.

Após a morte de seu pai, Joaquim ficou ainda pior, e começou a sentir um ódio sem igual por Cássio, fazendo tudo que podia para destruí-lo. O ódio foi tão grande que alcançou sua esposa, filhos e filhas. Ele queria ver todos mortos — todos, sem exceção. Mas não queria fazê-lo, não queria sujar as mãos. Ele começou a provocar a família do Senhor Caju em tudo que podia. Sempre que ele ou um de seus filhos se interessava por algo, ele conseguia um jeito de superá-los. Foi assim com a produção de ovos caipira, hortaliças, e até obrigou que uma de suas filhas se formasse em pedagogia só para poder ser diretora da escola onde a filha do Senhor Caju iria lecionar.

Quando descobriu que o filho mais velho de Senhor Caju havia herdado a paixão do pai por cavalos, ele tratou de contratar os melhores profissionais para que pudesse ensinar ele e seu filho a superarem Tony, afinal de contas, seu filho era um Vilela e não seria vencido por nenhum pião, e ele… bem, ele era o Coronel. A cidade de Cafelândia promovia todos os anos um torneio onde cada um dos participantes apresentava seu melhor cavalo e todos disputavam entre si. A família Vilela havia ganhado todas as quinze edições do torneio até aquele ano, em todas as ocasiões. O próprio Coronel era quem disputava as finais com a família do Senhor Caju. Ele e Caju chegaram a disputar dez anos juntos e, nos últimos cinco, Tony substituía o pai. Mas aquele ia ser um ano atípico, pois dessa vez, quem defenderia a honra e o trono dos Vilela, seria Arthur Vilela: filho caçula do Coronel.

– Jogadores, em suas marcas! Quando eu contar até três…

– Você já era, pião!

– Eu não contaria com isso, Vilela.

– Um… dois… três… comecem!

Foi uma partida disputada minuto a minuto. Os dois digladiavam como se estivessem defendendo suas vidas. A cada movimento, um lançava o olhar para o outro como se estivesse querendo prever seus movimentos. O suor escorria de ambos os rostos. Dava para perceber que Arthur estava ligeiramente mais cansado e aflito; ele sempre mordia os lábios inferiores quando estava nervoso, e dessa vez ele tinha que honrar o nome Vilela. O juiz prestava atenção em cada detalhe, cada movimento, cada olhar entre os dois. Embora todos ali pensassem, aquele juiz não aceitara o suborno dos Vilela e estava ali para julgar de forma honesta e imparcial.

A disputa durou bem mais do que todos os outros anos; pelo menos uma hora a mais. Antes de terminar, Arthur soltou uma ofensa desesperada:

– Seu cavalo é negro. Os negros são inferiores, nasceram para perder. Meu cavalo é branco, nós somos a supremacia, e você… você não passa de um peão.

– E é justamente para esse pião que seu cavalo vai se ajoelhar — Tony alisou a crina de seu alazão e apertou o arreio, seu cavalo disparou ainda com mais velocidade, até que o juiz disparou um tiro para cima. Estava encerrado, o cavalo negro de Tony havia vencido a supremacia dos Vilela, dando fim a uma era de humilhações e derrotas sofridas por seu pai e por ele mesmo.

As pessoas que estavam na arena aplaudiam de pé. Pela primeira vez, um peão vencia um campeonato de corrida de cavalos no estado de Goiás, e acima disso, ele havia desbancado a soberania dos Vilela. Tony soltou um urro que era misto de alegria e parazer, olhou para o seu pai que o aplaudia emocionado, seus amigos correram ao encontro dele, o pegaram no colo e jogaram para cima umas três vezes, e quando o desceram, esse saiu correndo ao encontro de seu pai que o abraçou intensamente.

– Eu falei que ia ganhar, pai. Eu falei!

– Você falou sim, meu filho, parabéns!

– Agora eles não vão mais mexer com a gente, pai. A cidade toda viu eles serem humilhados, pai. Estamos livres. Eu venci! Um analfabeto venceu um Doutor, um analfabeto, pai!

– Você venceu, meu filho, mas não é porque é analfabeto; a questão não é estudo. Você venceu porque é um bom menino; é persistente, honesto, trabalhador… você merecia vencer.

– Pai, com um pangaré nós vencemos! – Tony se dirigiu ao cabalo que montara ainda a pouco; o mesmo encontrava-se bebendo água. Ele beijou-lhe o focinho, esfregou sua crina e lhe deu um abraço bem apertado e demorado. Ele só soltou o companheiro quando seus pais se aproximaram.

– Você merece, meu filho.

– Mãe, eu vou comparar uma televisão nova para a senhora. Mãe, agora a senhora vai poder assistir o Silvio Santos a cores.

– Obrigada, meu filho! Agora vá festejar!

– Eu vou, mas eu volto. Vigia meu alazão, pai.

Tony entregou as rédeas que prendiam o cavalo negro da família ao pai e saiu para festejar com os amigos. Dona Maria aproveitou a deixa e foi conversar com algumas amigas que lá estavam. Como num passe de mágica, Cássio e Joaquim estavam ali cara a cara. Eles se olharam com um olhar firme durante um ou dois minutos, até que Joaquim estendeu a mão:

– Parabéns pela vitória do seu filho, ele mereceu!

– Obrigado. Mereceu, sim.

– Mas se fosse eu sentado ali, eu teria ganhado.

– Certamente teria.

– Não teria, não. Você subestima seu filho, Caju. O rapaz é ótimo, eu não teria tido chance, assim como meu menino não teve.

– Ele é um bom rapaz.

– Eu lamento por tudo que aconteceu entre a gente. Era para nossos filhos serem como irmãos, nossas esposas, comadres, e nós dois, bom… não existem palavras para definir o que éramos para ser.

– Tudo acontece por um motivo.

– Sim, hoje eu entendo isso. Perdoa-me por ter mentido para o seu pai e ter feito você levar a culpa.

– Perdoe-me também por não ter ido benzer seu pai.

– São águas passadas, meu amigo… águas passadas.

Os dois se abraçaram e choraram muito juntos ali. A cidade inteira ficou de pé e aplaudiram àquela cena. As esposas de Cássio e Joaquim que já eram amigas em segredo, puderam por fim se abraçarem à vista de todos, sem nenhum tipo de medo e preocupação. O sonho delas estava se realizando. Quando se separaram do abraço, Joaquim perguntou a Cássio:

– Você pode me acompanhar numa dose?

– É claro, isso merece um brinde… E o que vamos beber?

– Ah, meu amigo, eu guardei uma garrafa de pinga de caju justamente para essa ocasião.

– Pinga de Caju?

– Sim, que você come? eu sei que come, mas vamos ver se bebe também.

– Pode descer que eu não vou deixar você sentir nem o cheiro.

– Veremos…

 

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