Ela disse… Não

ELA DISSE... NÃO - Franklin S. Carter

PREFÁCIO
O CASAMENTO

– Pierre Luxier França, aceita Sara Albuquerque de Bragança como sua legítima esposa, para honrá-la e respeitá-la, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– Aceito!

– Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– E… eu… o senhor pode repetir, Pastor?

– Claro! Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– Eu… ac… ace… o senhor pode repetir uma última vez, Pastor?

– Está tudo bem, meu amor? Está se sentindo bem? Quer que eu pegue uma água, ou alguma coisa pra você? Gostaria de se sentar um pouco?

– Eu… eu… eu estou bem, Pierre… independente de qualquer coisa… eu… amo… você!

– Eu também te amo, meu amor, mas estou preocupado. Está mesmo tudo bem?

– Quer que eu pare a cerimônia, Sara?

– Não, Pastor, pode continuar.

– Pois, bem! Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– NÃO!


Eu me apaixonei por ela desde o primeiro instante que a vi. E, olha, foi há muito tempo. Nós ainda éramos crianças e não sabíamos ao certo o que aquilo viria a ser, mas eu a encontrei no jardim de infância, quando tínhamos seis anos, em nosso primeiro dia de aula. Ela sentou na minha frente, numa mesa onde continha eu, ela e mais um casal de crianças. Não consigo me lembrar o nome das outras duas crianças, mas o nome dela eu nunca esqueci, desde então: Sara.

Ela chegou na sala de aula muito tímida e com cara de choro. Soubemos depois que ela havia perdido o irmão há pouco tempo e ainda estava superando o trauma da partida do mesmo. Sara não sabia lidar muito bem com a partida do irmão, ela não entendia porque ele teve que abandonar a família e amigos; ela o amava demais para aceitar viver longe dele. Eu não sabia naquela época, mas Carlinhos era o herói de Sara. Ela sempre buscou abrigo e refúgio no irmão, e hoje eu sei o quanto deve ter sido difícil pra ela enfrentar o primeiro dia de aula sem a presença do irmão, pelo menos para segurar a mão dela e dizer que ia ficar tudo bem.

A professora fez com que todos nós nos apresentássemos, e quando chegou a vez de Sara, lembro que ela fez menção ao irmão dizendo que a cor preferida dela era vermelho, como a dele. A nossa professora chorou na hora, todos ficamos sem entender naquele momento, mas a professora era muito doce e meiga, e, naquele momento, ela se sensibilizou com a dor de Sara.

Da metade da aula em diante, ela já estava conversando com a menina que se sentou do meu lado e com o rapaz que estava do outro lado. Eles interagiram bastante; eu não falei muito. Eu já não sou de conversar muito hoje em dia, imagina naquela época, com seis anos de idade. Ainda mais que eu não me interessava em nada que a maioria dos meninos da minha idade se interessava, que, naquele tempo, era videogame e futebol.

Eu gostava de desenhar e de ouvir histórias de heróis. Era só isso que eu queria fazer. Lembro que teve uma hora que a professora pediu para a gente desenhar o nosso maior sonho, aquilo que a gente queria que se realizasse naquele momento. Eu vi a Sara desenhar uma menina, um menino e um cachorro, presumi que fosse o cachorrinho dela; ela havia chegado no colégio com ele e me lembro que foi muito difícil tirar o cachorrinho dela; ela deu muita birra nesse dia. Embora ela desconfiasse, somente muitos anos depois eu revelei à ela que eu a havia desenhado; na verdade, eu havia desenhado uma menina segurando um giz de cera e um coração.

A Sara sempre foi muito linda e determinada, desde criança. Achei lindo quando eu soube que ela escrevia cartinhas para o irmão que estava morando muito, muito longe, num lugar praticamente inacessível. Como ela não sabia escrever, pedia para o pai, mãe ou quem estivesse por perto para escrever as cartinhas enquanto ela ditava tudo; isso antes dela aprender a escrever suas próprias cartinhas.

Eu a amei. Corrigindo, eu a amo. Amo desde o primeiro instante, amo desde o primeiro olhar, amo desde que descobri que havia um coração batendo em meu peito, embora hoje eu acredite que esse coração só continua batendo porque eu a amo. Eu chorei bastante por ter sido deixado no altar daquela forma, mas hoje entendo suas razões. Hoje eu sei a que preço ela fez isso comigo, e hoje entendo que, naquele momento, era eu ou ela. Eu aprendi que podemos fazer o tempo ser eterno se assim acreditarmos. Não importa se você tem um minuto, trinta dias ou cem anos ao lado do seu grande amor. Se você amar essa pessoa com todo o seu coração e com toda sua intensidade, esse tempo será eterno.

CAPÍTULO 01
VOU ME CASAR

– Vou me casar!

Bastou essa frase para que meu pai cuspisse todo o café que estava tomando, em cima do jornal. E para que minha mãe deixasse cair no chão uma travessa de lasanha recém tirada do forno. Não entendi a reação deles. Pessoas se casam todos os dias. Amigos, vizinhos, parentes, até meu irmão caçula já tinha se casado, por que o espanto? Afinal… tenho vinte e seis anos, namoro há sete anos, e nada mais natural do que me casar, certo? Errado para eles.

– Você não pode se casar. Você é uma criança.

– Olhe para mim, pai, não sou uma criança. Eu tenho vinte e seis anos, já trabalho, já dirijo meu próprio carro, moro no meu apartamento, faço minhas próprias coisas, namoro o Pierre há sete anos, e além disso, vocês o amam.

– Sim, nós o amamos. Mas não significa que você tenha que se casar.

– Pai, olha pra você! A primeira coisa que deveria fazer era trocar essa camisa que tá toda suja de café, e você, mamãe, eu vou te ajudar a arrumar essa bagunça. Nessas horas eu sinto falta do Olaf. Esse seria um verdadeiro banquete para ele.

– Sara, eu vou me trocar, sim, mas não porque você falou. E, sim, porque minha blusa já está grudando na minha barriga; mas nossa conversa ainda não terminou. Quando eu voltar, iremos conversar. Aproveita e liga para o Pierre, quero ele aqui em cinco minutos.

– Não precisa.

– Claro que precisa. Quero conversar com ele.

– Ele já deve estar chegando, só foi comprar uma Coca-Cola para o almoço.

– Oi, família!

– Não falei!

– O que aconteceu aqui?

– Nada. Pai, vai logo se trocar enquanto ajudo a mãe. Acho que vamos ter que almoçar fora, amor.

– Tudo bem. O Olaf ia amar essa lasanha no chão.

– A sua noiva disse a mesma coisa, Pierre.

– Namorada, Nicole, namorada.

– Não foi se trocar ainda, Heitor?!

– Já vou! Já estou indo!

Enquanto ajudava minha mãe a recolher os cacos da travessa e a lasanha espalhada pelo chão, expliquei para o Pierre o que tinha acontecido. No início, ele quis rir, mas quando olhou o rosto sério da minha mãe, ele acompanhou o resto da história em silêncio. Não demorou muito até que o papai voltasse e ficasse nos encarando em silêncio. Eu e a mamãe terminamos de arrumar a cozinha, e fomos até a área dos fundos arrumar o lixo; era bem próxima da cozinha, então era fácil ouvir o que eles iriam conversar, mas os dois não trocaram uma só palavra.

– Então… Vamos?

– Claro, vou pegar a chave do carro.

– Melhor irmos no meu carro, senhor Heitor.

– Ah, é?! E por que, senhor Pierre?

Meu pai nunca foi de provocar ou de se irritar com Pierre, mas nesse dia ele estava uma pilha de nervos. Arrumou confusão por causa do carro, depois na escolha do refrigerante, na hora de pedir a sobremesa, e por fim na hora de pagar a conta. Eu até estranhei essa atitude, os dois sempre foram muito amigos, mesmo antes de eu começar a namorar Pierre, quando éramos apenas amigos. Meu pai costumava chamar o Pierre de filho em todo tempo, mas não hoje.

– Eu me diverti bastante, fazia tempo que não almoçávamos os quatro. Não foi divertido, amor? — perguntou minha mãe ao papai.

– Foi normal. Como qualquer outro almoço.

– Mas você tá rabugento hoje, hein, papai?!

– Olha a boca, Sara. Isso são modos de falar com seu pai?

– Mas é verdade. Que bicho te picou hoje, hein? Por acaso andou cruzando o caminho de algum Guaxibondo?

– É melhor entrarmos. Precisamos conversar sobre o namoro de vocês.

– É noivado, senhor Heitor.

– Tudo bem. Sobre o noivado, senhor Pierre.

– Papai!

– Foi ele quem começou.

Meus pais entraram na frente, e Pierre me puxou pelo braço para perguntar o que estava acontecendo, e por que meu pai estava agindo daquela forma. Eu sorri e disse que ele só estava com ciúmes. Eu era a única filha; ele não queria me perder. Pierre tentou argumentar que ele não estava perdendo uma filha, e, sim, ganhando um filho. Então eu respondi que eu sabia disso; o difícil era enfiar isso na cabeça do papai.

Papai e mamãe sempre se sentavam juntos na sala. Eram duas poltronas, uma ao lado da outra. Carlinhos (meu primeiro irmão, já falecido) e eu, sempre respeitamos isso. Depois que Hugo nasceu, continuamos respeitando. O único dia que Hugo se sentou na poltrona do papai, recebeu uma encarada da mamãe que perdeu até o rumo do quarto dele.

Porém, quando chegamos na sala a mamãe estava sentada na poltrona dela, e o papai estava sentado no meio do sofá de três lugares. O Pierre sabia da regra das poltronas, mas achou estranho o papai estar sentado no sofá, então foi caminhando rumo a outra poltrona que estava vazia.

– Não, senhor! Você senta aqui — papai apontou uma das quinas com o dedo. – E a senhorita, aqui. Um em cada ponta.

Eu nunca tinha visto o papai tão chato como naquele dia; nem quando eu e Pierre começamos a namorar. Pelo contrário, ele até incentivou o namoro e fez um churrasco na casa do vovô, para que Pierre se sentisse da família. Eu sabia que o papai estava com ciúmes do Pierre, mas aquilo já estava passando dos limites.

– E então? — perguntou papai a Pierre.

– E então, o quê? — respondeu Pierre, confuso.

– Como andam as coisas?

– Ah, sim! Andam bem, vamos inaugurar o segundo restaurante na semana que vem, tive que demitir um dos garçons porque ele estava tratando mal os clientes, e…

– Não mude de assunto, Pierre.

– Mas foi o senhor que me perguntou como andam as coisas.

– Eu quero saber em relação à minha filha, e essa atitude impensada de casamento.

– Com todo respeito, senhor Heitor, mas não foi uma atitude impensada. Eu e sua filha namoramos há sete anos. Nós não nos casamos antes porque estávamos esperando terminar nossos cursos e também o restaurante estabilizar. Mas, já estamos planejando isso há muito tempo. E desde que comecei a namorar sua filha, minha intenção sempre foi me casar com ela.

– Ah, quer dizer que estavam planejando isso há um bom tempo, Sara?!

– Sim, papai! — respondi de supetão, mas pensei que as coisas tinham engrossado para o meu lado.

– E quando pretendiam avisar eu e sua mãe?

– A mamãe já sabia!

– Você já sabia, Nicole? — papai deu uma encarada feia na mamãe. Ela só fez que sim com a cabeça e papai continuou: – Então quer dizer que é um complô contra mim? Todos estavam sabendo, menos eu?

– Para de drama, papai! É só um casamento!

– Não é só um casamento. É o casamento da minha princesa. Eu tinha o direito de saber. Eu tinha o direito de ajudar à planejar. 

Só quando papai disse essa frase que eu pude perceber que ele estava agindo estranho, não por ciúmes, e sim, por mágoa. Papai estava chateado por ter sido informado do noivado assim tão de repente. Ele sempre sonhou que algum dia, meu futuro esposo iria até ele pedir a mão de sua filha em casamento, que logo após o pedido iriam estourar uma champanhe e comemorar a situação. Ele sonhou que estaria presente quando o noivo se ajoelhasse e pedisse minha mão em casamento. Ele havia contado isso para mim e Pierre, centenas de vezes, como se fosse quase uma súplica para que Pierre fizesse isso. O engraçado, é que Pierre sempre me falava que iria surpreender meu pai com essa atitude, mas por algum motivo ele não tinha feito dessa forma. Não sei explicar como, e nem o porquê, mas Pierre e eu lembramos disso ao mesmo tempo, então me coloquei de pé, e Pierre ajoelhou-se entre mim e o papai, e disse:

– Senhor Heitor, dona Nicole… vocês fizeram um excelente trabalho ao educarem a Sara. Ela é uma menina doce, inteligente, alegre, carinhosa, educada, divertida, amável, linda, e nem todos adjetivos do mundo seriam capazes de qualificá-la. Sei que ela só é essa mulher tão exuberante e maravilhosa, porque teve pais maravilhosos. Pais que dedicaram à ela, muito mais do que tempo e atenção; dedicaram cuidado e amor. E ela cresceu, como uma bela rosa num jardim e desabrochou, e despertou em mim o interesse de amá-la e fazê-la feliz por todos os meus dias. Eu não estou aqui para colher a rosa de vocês e levar para longe, estou aqui para também criar raízes com a permissão de vocês nesse belo jardim que é o coração de vocês dois. Não pensem que estarão perdendo a filha de vocês com o nosso casamento, pelo contrário, estarão ganhando um filho que já ama vocês demais. Eu peço perdão por não ter feito dessa forma antes, eu não sei onde estava com a cabeça. Eu só queria o quanto antes pedir a Sara em casamento e acabei me precipitando, mas peço perdão aos dois por isso — Pierre respirou fundo, olhou fixamente nos olhos do meu pai e continuou. – Senhor Heitor, concede-me a mão de sua amada filha, em casamento?

– Eu a concedo — disse meu pai, se segurando para não chorar. Pierre virou para minha mãe, e perguntou: – Dona Nicole, concede-me a mão de sua amada filha em casamento?

– Eu a concedo — disse a mamãe. Pierre, então, olhou para mim e perguntou: – Sara Albuquerque de Bragança, aceita ser minha esposa e a única flor do meu jardim, desse momento e até meu último fôlego?

– Eu aceito! — ele se levantou, pegou na minha mão e ficou olhando para o papai, até que ele disse:

– Pode beijar a noiva!

CAPÍTULO 02
AINDA SOMOS AMIGOS?

– Ainda somos amigos?

– Não, agora somos noivos.

– Estou falando sério, Sara. Ainda somos amigos?

Eu não consegui pensar numa resposta, talvez não numa resposta que agradaria os ouvidos do Pierre. Parece que éramos apenas noivos, caminhando para um casamento. Mas, por quê? Por que eu deveria me casar com ele? Por que fomos amigos quase que por toda a vida? Por que Deus ou o destino queriam assim? Por que meus pais o amavam? Por que eu o amava? E eu, realmente, o amava? Ou amava sua companhia e a forma doce como ele me tratava?

Esses questionamentos ficaram em minha mente, pareciam horas, mas durou apenas três segundos e em tudo que pensei e repensei, não consegui encontrar a resposta. Era uma pergunta tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexa. E por que ele tinha que perguntar isso logo agora? Será que estou deixando a desejar como namorada ou noiva? O que tem passado na cabeça dele? Será que parei de demonstrar amor, carinho ou afeto? Será que deixei de ser amiga dele?

Enquanto eu me questionava, sentia os olhares de Pierre em minha direção e por mais que tenha durado tão pouco tempo, ele parecia assustado por eu não ter respondido imediatamente. Eu queria muito saber o que se passava na mente dele e também queria muito saber a resposta para a pergunta que ele fizera. Mas não sabia, e por não saber, eu tomei a atitude mais idiota e ao mesmo tempo mais sábia que eu tinha para aquele momento: eu simplesmente o beijei, mas beijei com tanta vontade que ele até esqueceu que tinha me feito uma pergunta, mas eu não esqueci que eu lhe devia uma resposta.

Passado esse momento e separado do beijo, eu pedi que ele me deixasse em casa, falei que não estava me sentindo muito bem e antes que ele pudesse me perguntar mais alguma coisa, eu o beijei novamente. Ele entendeu o recado. Quando o carro parou na frente da minha casa, eu o beijei no rosto e estava prestes a sair do carro quando ele me perguntou se eu não estava esquecendo nada. Eu pensei que ele estivesse falando da resposta à pergunta que fizera mais cedo e tive realmente medo de que fosse isso, mas olhei para ele com uma cara de desconfiada, como se estivesse dizendo: “Do que você está falando?”, e imediatamente ele abriu o porta-luvas do carro e me entregou meu celular, eu sorri desconcertada e agradeci. Ainda fiquei um tempo na calçada até que não pudesse mais ver o carro dele que se distanciava no horizonte, e, por fim, quando percebi que era uma distância segura, eu chorei.

Como vou me casar com ele? Eu não sei a resposta de uma pergunta tão simples. E quando tivermos questionamentos mais complexos como, por exemplo, onde passar a lua de mel, ou comprar casa, ou apartamento, ou ainda quais seriam os nomes dos nossos filhos? Eu não estava preparada, e sim, eu sei que disse aos meus pais que estava pronta, sei que fiz toda aquela cena para que eles entendessem que eu queria me casar com o Pierre, mas não… eu não estava pronta e eu não queria me casar dessa forma. “É só uma fase, vai passar” — eu pensei, mas não passou.

Naquele mesmo dia à tarde, minha mãe veio me visitar, ela ia me ajudar a escolher o vestido de noiva e iríamos jantar na casa da tia Jade. O marido dela estava viajando e nós teríamos a noite das meninas, pareceu legal quando foi dito a primeira vez, mas agora eu achava algo muito cafona. Faltando uma hora para minha mãe chegar, eu me levantei, joguei uma água no rosto e percebi que meus olhos estavam inchados. Aí, já viu, né?! Haja maquiagem para esconder tudo isso. Eu gastei uns quinze minutos no banho e chorei um monte novamente, depois fui arrumar o cabelo e foram mais vinte minutos, a maquiagem me tomou mais trinta e sete minutos, e por fim, a escolha da roupa perfeita consumiu outros quarenta minutos. Durou uma hora e cinquenta e dois minutos, a minha sorte era que seria minha mãe, e ela também se atrasou; se fosse meu pai ou o Pierre, eu estaria com sérios problemas.

Minha mãe chegou quando eu estava dando o retoque final nos cílios. Quando abri a porta, ela já foi logo dizendo que eu estava linda e pedindo desculpas pelo atraso. Eu ainda a repreendi dizendo que ela nunca chega no horário, mas ri por dentro ao lembrar de todo o apuro que eu tinha vivido nas últimas duas horas.

– Aconteceu um imprevisto. Sua tia não poderá estar conosco mais tarde!

– Ah, então já era, a noite das meninas? – disse com um olhar desapontado, mas comemorando por dentro. Eu não queria ir mesmo na noite das meninas.

– Nem tudo está perdido, minha filha. Eu expulsei seu pai de casa e ele, Pierre e o Vovô Otávio irão dormir no sítio do seu avô hoje. Enquanto eu, você e a vovó iremos dormir lá em casa, não é ótimo?! Ainda teremos a noite das meninas!

– Ah, sim… É ótimo. – falei com empolgação, mas no fundo eu achava aquilo um desastre. Se eu já não estava achando interessante uma noite das meninas com minha mãe e minha tia, imagina agora com a vovó e a mamãe. Ah… aquilo seria um verdadeiro tédio, mas mostrei-me empolgada para não entristecer ou decepcionar a mamãe.

– E então… Vamos? Aquele vestido não será escolhido sozinho.

– Sim, vamos!

Entrei no carro e fiquei imaginando que em poucos meses eu estaria casada e que um dia seria eu, expulsando o Pierre de casa para passar um tempo a mais com a minha filha. Mas, será que a vida é só isso? Apenas um ciclo sem começo nem fim? Onde somos a todo tempo conformados com o sistema que nos é imposto, sem questionar, sem quebrar barreiras, ou pior, sem viver. Será que eu tinha que me acostumar com a mesma vidinha da mamãe, da titia ou da vovó? Eu não queria ser assim e não queria que minha vida tomasse esse rumo. Cuidar da casa, dos filhos, do marido, ficar esperando por migalhas de afeto depois que ele assistisse uma partida de futebol com os amigos… A vida tinha que ser mais do que isso. Eu estava tão satisfeita em ser a amiga do Pierre ou a namorada dele, que comecei a ter medo de ser sua esposa. Espere… Amigos?

– Mãe?

– Pois, não, querida?

– Ainda somos amigas?

– É claro que somos, querida! Amigas pra sempre!

– E por que somos amigas? Você só é minha amiga porque é minha mãe ou tem algo a mais?

– Princesa, se eu não fosse sua mãe e um dia te conhecesse na rua, na fila do caixa do supermercado, ou até mesmo na padaria, eu faria questão de ser sua amiga.

– Por quê?

– Olhe para você, querida. Você é inteligente, bonita, elegante, carinhosa, educada, doce, sabe conversar sobre qualquer assunto, está sempre ajudando as pessoas, ama os animais, ama crianças, é sempre muito prestativa, coloca as necessidades de outras pessoas antes das suas. Qual pessoa não quer ter uma amiga assim por perto? E você ainda tem um plus!

– Um plus? E qual seria?

– Você é filha da mãe mais linda e orgulhosa do mundo.

– Ah, mãe… A senhora não existe!

Fiquei pensando nas palavras da mamãe sobre o que ela via em mim que a levava a querer ser minha amiga, mesmo sem querer, ela acabou me dando a resposta para a pergunta do Pierre. Eu comecei a relembrar todas as suas qualidades, ele era um rapaz humilde, educado, carinhoso, inteligente, perfeccionista, embora eu ainda não saiba se esse último é defeito ou qualidade; estava sempre me surpreendendo, ora com uma rosa recém-colhida ora com uma viagem inesperada… Ele conhecia todas as músicas que eu amava e entrou na aula de violão só para poder cantar pra mim. Ele sabia do meu amor por cartas e me pediu em namoro dessa forma, além de vez por outra me surpreender com uma carta enviada pelo correio, mesmo que a gente more apenas duas quadras de diferença. Ele sempre abria a porta do carro para eu entrar, me ensinou a dirigir, me consolou quando eu tive meu coração partido pelo idiota do Kenedy, aguentava minhas crises de choro, raiva, ansiedade, mesmo quando antes de namorarmos, e muitas outras coisas, e, sim… definitivamente nós éramos amigos, ou pelo menos, ele era meu amigo. Meu medo foi pensar que talvez eu não fosse mais amiga dele, o que teria o motivado a fazer àquela pergunta.

Visitamos onze lojas, até que eu, definitivamente, escolhesse o meu vestido. Em algumas lojas eu não gostava dos modelos, em outras não gostava das atendentes, e em outras eu não gostava dos modelos e das atendentes. Até que visitei uma chamada “Sonho de Amor”. Eu já gostei de cara do nome da loja e quando entramos, uma atendente veio com o sorriso mais brilhante que já conheci e soltou a frase: – “Fique à vontade, noivinha. A casa é sua”. Confesso que meu coração se derreteu naquele instante, – “Que moça simpática!” – pensei. Experimentei apenas dois modelos dessa loja, um tomara que caia lindo, mas que não combinava muito com minha ausência de seios; não que eles fossem apenas duas uvas, mas eu os considerava muito pequenos e não queria usar muito enchimento; e um outro lindo, rodado, cravejado de pedrinhas que simulavam diamantes, transparente na altura dos ombros, e com um singelo decote nas costas. No momento que o vi, eu pensei: É esse!

A atendente ainda me deu dois beijinhos no rosto antes de eu sair e desejou felicidades no casamento, disse que o meu futuro marido era um homem de muita sorte e que sentiu algo especial assim que entrei na loja. Não sei se ela fala isso para todas que entram naquela loja, mas senti verdade em suas palavras. Eu a agradeci e prometi enviar um convite para o dia do casamento. Quando entrei no carro, vi minha mãe com um sorriso que não cabia em seus lábios. Eu sabia que ela queria que eu fizesse aquela pergunta, então não hesitei:

– O que achou, mãe?

– Ah… é lindo! Você viu aqueles detalhes? E as pedras cravejadas? E você ficou tão linda nele!

– Sim! Eu amei aquele vestido!

Antes que nossa conversa continuasse, o celular da minha mãe tocou e ela parou o carro no acostamento. Vi a expressão do seu rosto mudar de feliz para triste em poucos segundos e vi quando as lágrimas se aglomeraram nos cantos dos seus olhos, até que uma pesada demais para ser suportada, rolou de sua face. Eu, sem entender o que estava acontecendo, apenas a abracei e tentei escutar o que estava se passando do outro lado da linha, e quando a pessoa repetiu, eu chorei…

CAPÍTULO 03
SEREI TEUS OLHOS

– Eles estão bem, mamãe?

– Um dos dois pode não resistir…

– Quem?

[DUAS HORAS ANTES]

– É costume isso acontecer, Seu Heitor?

– O quê? Minha esposa me expulsar de casa pra ficar com sua futura esposa? Não! É a primeira vez que isso acontece. E, honestamente? Espero que seja a última.

– O que vamos fazer hoje à noite?

– Pensei num churrasco pra começar. Meu velho pai é um churrasqueiro de primeira. E depois a gente pode contar algumas histórias ou jogar cartas, vai depender do humor do velho.

– Eu estou ouvindo isso, Heitor.

– Nossa! O seu Otávio tem ouvido biônico. Como ele consegue nos escutar a essa distância?

– Eu ouvi isso também, Pierre.

– Nossa, ele é bom mesmo!

– Escuta, porque vocês dois ao invés de ficarem aí conversando fiado, não vão até o mercado comprar mais carvão?

– Já estamos indo. Quer mais alguma coisa, ou só carvão?

– Traga mais carne também, e queijo, traga queijo, aliás, traga frios.

– O senhor já está abusando meu pai.

– Eu, abusando? Você tem que levantar as mãos para o alto e dar graças a Deus que alguém aqui sabe fazer churrasco, se não fosse por mim, iríamos todos morrer de fome ou comer aquele coquetel de gordura que vocês chamam de hambúrguer e batata frita. Agora vão logo ao mercado, aquela carne não vai assar sem carvão.

– Já estamos indo, Seu Otávio! Seu pai é um resmungão, hein?!

– Eu ainda estou ouvindo vocês.

– É melhor a gente ir. Quer dirigir, filho?

– Posso? O senhor nunca deixa ninguém dirigir a caminhonete.

– Hoje é um dia especial, ela é toda sua. Além disso, faz tempo que não aprecio a paisagem da janela do carona.

Os dois entraram no carro e Pierre sentiu-se extremamente feliz pela oportunidade de dirigir a caminhonete do sogro. Embora fosse um simples ato, para ele significava que enfim, ele era parte da família. Para algumas mulheres, isso pode parecer idiota, mas os homens sabem que dirigir o carro do sogro é uma grande honra e não importa se o carro é novo ou velho, feio ou bonito, não importa se ele gosta ou não, o que importa é aquela sensação de fazer parte, de ter encontrado o seu lugar, de não ser mais um estranho ou forasteiro, e sim, alguém que é estimado e respeitado.

– Você percebeu que o velocímetro vai até duzentos e vinte?

– Sim, percebi.

– Então por que está andando à quarenta?

– Desculpe, seu Heitor. Acho que estou nervoso. É a primeira vez que dirijo seu carro.

– E se continuar andando que nem uma tartaruga, vai ser a última. Pisa fundo, filho! Acelera! Essa máquina aqui tem motor! – disse ele, batendo com a mão na lateral do carro.

– O senhor quer que eu anda à oitenta ou à cem?

– Acho que você consegue mais, filho. Já está na hora de se tornar um homem. Vamos batizar o carro!

– Batizar o carro?

– Sim! Bem, na verdade eu já batizei sozinho, mas vou te dar a oportunidade de fazer também; ou você vai amarelar?

– N… N… Nã…. Não…. Não vou amarelar.

– Então, pisa fundo, garoto! Mas, eu fico com isso aqui!

– Devolve meus óculos, Seu Heitor! Não enxergo quase nada sem eles.

– Relaxa, filho… Serei teus olhos! Agora, acelera!!!

Pierre segurou bem firme na direção e pegou uma via alternativa que era uma BR e sem semáforos, pardais ou faixas de pedestres, ajustou o retrovisor interno, checou o cinto de segurança, colocou na sua rádio favorita, olhou de canto de olho para o sogro e percebeu que uma gota de suor rolava na sua face, mas um suor frio, de medo, então voltando os olhos para a direção, ele engatou a quinta marcha e acelerou, acelerou até o ponteiro do velocímetro atingir duzentos e vinte quilômetros por hora, após isso acontecer, ele soltou um grito bem alto, muito semelhante ao rugido de um leão e por um leve descuido, soltou as mãos da direção, mas não antes de desviar o carro para a esquerda, sem querer e antes que algo pudesse ser feito, o carro capotou diversas vezes até cair da ponte numa altura de dezoito metros rumo a um pequeno lago. O carro caiu na parte mais rasa do lago, impedindo que os dois morressem afogados; ambos já caíram desacordados.

Por sorte, um carro que vinha na via oposta a poucos metros dos dois, viu o acidente e chamou a ambulância que não tardou muito em chegar ao local. Pierre foi socorrido imediatamente, mas Seu Heitor ficou preso nas ferragens, foram quarenta e sete minutos angustiantes para a equipe de bombeiros. Ele permanecia desacordado e tinha pulsação fraca, seu rosto estava coberto de sangue e tinha estilhaços de vidro nele, os bombeiros temiam pelo pior e pediram reforços pelo helicóptero, ele precisava chegar ao hospital o quanto antes para continuar vivendo.

A família foi avisada pelo celular da própria vítima que, por incrível que pareça, permanecia intacto após o acidente. Levou apenas doze minutos para que o helicóptero chegasse ao mesmo hospital que seu genro estava. Ambos estavam gravemente feridos, mas o estado de Seu Heitor era ainda mais grave. Seu Otávio foi o primeiro a chegar no hospital, ele não acreditara no que estava acontecendo e se culpava. – “Se eu não tivesse pedido que ele fosse ao mercado buscar carvão, meu filho estaria bem” – ele ficava repetindo pra si, sem parar, ora baixinho ora gritando.

Uma das enfermeiras que estava no local tentou acalmá-lo, mas ele gritava ainda mais forte e agarrava os cabelos como se quisesse arrancá-los. Foi preciso aplicar um sedativo para que ele pudesse relaxar. Seu Otávio chorava sem parar e não conseguia parar de pensar no pior. Na cabeça dele, seu filho iria partir naquele dia e talvez o futuro esposo de sua única neta, também.

[AGORA]

– Me fala quem, mamãe, por favor!

– Ah… minha querida… O… O seu… O seu pai! 

CAPÍTULO 04
TRISTE DESPEDIDA

– Como ele está?

– Nicole… Ele está em coma induzido. Os médicos não deram muita esperança, pediram que chamássemos a família para estar próxima.

– Vovô, sabe notícias do Pierre?

– Ele está melhor, tiveram que lhe aplicar um sedativo porque ele não parava de repetir “Eu o matei, eu o matei”. Pelo que tudo indica, era Pierre quem estava na direção.

– Impossível, papai nunca deixa ninguém dirigir a caminhonete.

– Sim, mas dessa vez era ele quem estava dirigindo. E ele capotou a pick-up há 220 km.

– Não pode ser, vovô. Pierre sempre foi tão responsável, por que ele faria algo assim?

– Só saberemos quando ele acordar minha filha.

– E a vovó, onde está?

– Ela está com sua tia. Ela ainda não sabe do que aconteceu. Tenho medo de sua reação. Você não se lembra, mas foi muito duro para ela perder o Carlinhos.

– Foi duro para todos nós, vovô. E o Hugo? Ele já sabe?

– Sim, ele e a esposa estão vindo para cá.

– Os médicos disseram quando poderemos entrar para vê-lo?

– Ah, Nicole, ele vai passar por uma delicada cirurgia agora, para a retirada de alguns fragmentos que podem atingir o coração e alguns outros órgãos. A previsão é que a cirurgia dure mais de oito horas, e só depois poderemos vê-lo.

– Eu não quero perder meu esposo, Sr. Otávio! Eu não estou preparada pra isso!

– Você não vai perdê-lo. Nesse momento, temos que pensar positivo e unir forças. O melhor que podemos fazer é orar. Eu tomei a liberdade de ligar para o Pastor Alan, ele está a caminho.

Nicole abaixou a cabeça e chorou ainda mais forte, ela ficava se lamentando pelo estado de saúde do esposo. Sara estava abraçada ao avô e suas lágrimas banharam toda a camisa social que Sr. Otávio estava usando. Enquanto viam médicos, enfermeiros, pacientes e acompanhantes irem e virem por todos os lados, Sara se recordou das raras vezes em que pôde visitar seu irmão Carlinhos enquanto lutava contra um câncer que acabou vitimando-o. “Não quero perder meu pai. Não é justo com a nossa família. Por que todos que eu amo morrem, Deus? Já não basta o Senhor ter tirado o Carlinhos, a vovó Laura, o vovô Luís e o Olaf? Agora o Senhor quer tirar o meu pai e meu futuro esposo também? Por que o Senhor me odeia tanto? Por que odeia a nossa família?” Repetia a menina em voz alta. Ela só parou de repetir essas palavras quando sentiu uma mão parando sob seus ombros.

– Deus não odeia sua família, minha filha. Infelizmente, fatalidades como esta, acontecem, estamos sujeitos a isso. Mas acredite, há uma recompensa muito maior para aqueles que morreram em Cristo Jesus e tenho certeza que seus avós e seu irmão estão gozando da plenitude da vida eterna ao lado de Deus Pai.

– Pastor Alan. Desculpe, eu só estou nervosa e com medo. Duas das pessoas que mais amo estão deitadas naquelas macas lutando pela própria vida. Eu só queria que Deus olhasse um pouco por nós. Nossa família já sofreu tanto.

– Ele está olhando, minha filha, mas precisamos fazer a nossa parte aqui também. A primeira coisa a fazer é confiar em DEUS. Confiar que ELE é poderoso o suficiente para reverter essa situação. Confiar que ELE é o MÉDICO dos médicos e que é ELE quem vai operar seu pai utilizando as mãos dos médicos da terra. Você crê?

– Sim, eu creio, Pastor.

– E a segunda coisa que precisamos fazer é orar. Orar e crer na vitória e pedir que a vontade de Deus seja feita. E por mais que as vezes não entendamos os caminhos de Deus, ELE é dotado de infinita sabedoria, e ELE sabe o que é melhor para as nossas vidas.

– Nos ajude a orar, Pastor. Não estamos tendo forças.

– Claro. É para isso que estou aqui. Vamos todos dar as mãos?

A família se reuniu num pequeno círculo juntamente com o Pastor e começaram a orar ali mesmo num dos corredores daquele hospital. Somente um milagre poderia salvar a vida do Sr. Heitor e era justamente atrás daquele milagre que a família estava. Mesmo sem serem informadas oficialmente pela família, Clarinha e Jade chegaram até o hospital após assistirem ao noticiário sobre o acidente. Clarinha reconheceu a pick-up do seu filho na hora e seu sexto sentido de mãe falou mais alto. 

Após um breve período de conversa e esclarecimentos, a família voltou a se reunir em oração, dessa vez com um número bem maior com a adição de Clarinha, Jade, Hugo com sua esposa e filho, e os pais de Pierre. A família orou por uns quarenta minutos até receber a notícia de uma das enfermeiras que lá estavam. Após a notícia, todas as orações cessaram e o que reinou no ambiente foi um completo silêncio, e logo depois, apenas lágrimas.

CAPÍTULO 05
ELA DISSE… NÃO

[02 ANOS ANTES]

– Eu sinto muito, fizemos tudo que estava ao nosso alcance, mas seu pai… nós tentamos trazê-lo de volta, nossa equipe lutou até o último segundo, mas nós não conseguimos e infelizmente…

– Ele morreu?

– Não! Ele não morreu, mas está em coma e dessa vez não é em coma induzido, e, honestamente, nós não sabemos quando ele irá acordar, e se irá acordar. Não há como prever esse tipo de situação, mas ele vai para a UTI em trinta minutos, o Dr. permitiu a entrada dos pais, esposa e filhos. Eu sinto muito, nós todos sentimos muito, mas fizemos tudo que estava ao nosso alcance.

– N… Nó…. Nós agra… agradecemos.

– Eu preciso ir, tenho outros pacientes pra cuidar. Mas, volto assim que puder conduzi-los até a UTI.

A enfermeira saiu, e de certa forma, a família estava menos apreensiva. Não demorou muito até que Pierre acordasse e chamasse pelos pais e por Sara. Ela passou uns vinte minutos com ele antes que a enfermeira a conduzisse para ver seu pai. No tempo que passou com Pierre, ela evitou comentar sobre o acidente e só compreendeu como tudo aconteceu alguns meses depois. 

A família Albuquerque demorou a voltar para sua rotina, ou melhor, demorou a se acostumar com a nova rotina que incluía visitas semanais ao hospital. Pierre e Sara se distanciaram por algum tempo, mas acabaram retomando o namoro, e consequentemente, o noivado. Cada dia que passava, a família tinha menos esperança que Sr. Heitor acordasse. Pierre ainda se culpava pelo acidente e por dar ouvidos às provocações do sogro, logo ele, que era tão cauteloso, se deixou levar pelo calor do momento.

Mesmo com o pai em coma, Sara decidiu continuar com os preparativos para o casamento. Ela achava que era assim que o pai queria que ela fizesse. Mesmo sem ter o ânimo de antes, ela foi ajudada pela mãe, avós, tia, irmão, cunhada e primo. Todos ajudavam como podiam, embora acreditassem que com o pai dela em coma, ela não devesse se casar. “E se ele nunca acordar?” Ela sempre pensava.

Eles decidiram fazer uma cerimônia pequena, apenas para a família e os amigos mais próximos. Também decidiram se casar de dia, na verdade, no fim da tarde. O Pastor Alan iria realizar a cerimônia e o vovô Otávio conduziria a noiva até o altar no lugar do seu filho. A mãe e a tia seriam as responsáveis pelo buffet e também o cerimonial e Augusto Gabriel entraria com as alianças. Sara estava decidida, ela iria se casar!

[AGORA]

O casamento demorou um pouco mais do que o previsto para sair, mas passados dois anos do acidente e mesmo com o pai da Sara em coma, lá estava ela linda com seu vestido de noiva, adentrando às portas da igreja acompanhada de seu avô e ao som da marcha nupcial. Seu noivo a esperava ansioso no altar, vestindo seu fraque com a calça adaptada devido aos pinos que teve que colocar após o acidente. 

Nos convidados, havia um misto de alegria e tristeza, principalmente na família. Nicole era a que mais chorava, não se conformava da filha estar casando sem ser conduzida pelo pai. Quando Sara estava prestes a dar o quarto passo de sua caminhada, uma das madrinhas se aproximou lentamente e falou ao seu ouvido:

– Ele acordou!

Ela segurou as lágrimas e continuou a caminhada até o altar, ao chegar lá percebeu que a mesma madrinha estava dando a notícia para sua mãe e avó. Sara não sabia como reagir àquela situação. Embora estivesse certa de que Pierre era o amor da sua vida, a única vontade dela era de sair correndo daquele casamento para encontrar-se com seu pai que há pouco havia acordado do coma. Atordoada, ela não conseguia parar de pensar que seria muito humilhante para o noivo se ela o abandonasse ali no altar, mas era o seu pai, o seu pai com quem ela não conversava há dois anos, o seu pai de quem ela nunca mais havia escutado a voz. Ele acordara no meio do casamento dela, por mais que fosse uma loucura abandonar o casamento assim, ela só queria estar com ele naquele momento.

Mesmo sem que ela se desse conta, o casamento já havia começado. O Pastor lera todo o capítulo 13 da primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios e logo em seguida deu uma breve explicação sobre o amor, os deveres do matrimônio, a vida a dois e como eles a partir daquele momento formariam uma só carne. Sara não ouviu nada disso, ela sequer estava ali presente naquela cerimônia. Apenas o seu corpo estava ali, parado em frente a Pierre. Mas em seu pensamento, ela estava naquele hospital, parada na frente do pai, esperando para lhe dar um abraço, um longo abraço carregado com dois anos de saudade. 

O casamento prosseguia sem que Sara se desse conta do que acontecia. Vez por outra ela fazia que sim com a cabeça, apenas para fingir que estava prestando atenção. Ela queria se ver livre daquela situação, mas não conseguia pensar numa maneira justa de sair daquele casamento, uma maneira que não ferisse os sentimentos de seu noivo, mas por mais que se esforçasse, ela não conseguiu pensar em nada, e quando caiu em si, percebeu que já era tarde demais para tentar algo.

– Pierre Luxier França, aceita Sara Albuquerque de Bragança como sua legítima esposa, para honrá-la e respeitá-la, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– Aceito!

– Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– E… eu… o senhor pode repetir, Pastor?

– Claro! Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– Eu… ac… ace… o senhor pode repetir uma última vez, Pastor?

– Está tudo bem, meu amor? Está se sentindo bem? Quer que eu pegue uma água, ou alguma coisa pra você? Gostaria de se sentar um pouco?

– Eu… eu… eu estou bem, Pierre… independente de qualquer coisa… eu… amo… você!

– Eu também te amo, meu amor, mas estou preocupado. Está mesmo tudo bem?

– Quer que eu pare a cerimônia, Sara?

– Não, Pastor, pode continuar.

– Pois, bem! Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– NÃO! 

Após proferir sua resposta, Sara saiu correndo pela igreja sem olhar para trás. Pierre ficou atônito no altar sem entender o que estava acontecendo, enquanto Nicole dirigia-se rapidamente ao seu encontro para explicar para o genro porque Sara havia saído daquela forma. Os convidados olhavam com uma cara surpresa para a noiva em fuga e para o noivo abandonado. Cada um tratou de formular uma explicação diferente para o acontecido. Alguns diziam que ela havia descoberto uma traição do noivo e por isso quis se vingar, outros acreditavam que era ela quem estava fugindo para se encontrar com seu grande amor, alguns ainda acreditavam que ela estava sendo forçada a se casar com o rapaz, eram várias teorias diferentes, cada um queria saber mais do que o outro. Mas, o que poucos sabiam era que aquele era o dia mais feliz da vida de Sara e que, naquele momento, seria Pierre ou seu pai.

– On… Ond… Onde ele está? Eu posso vê-lo?

– Ele está no quarto. Já chamou por você.

– Eu p… po… posso vê-lo?

– Claro que sim, venha…

CAPÍTULO 06
UM NOVO COMEÇO

– Pai?

Sara entrou no quarto e percebeu quando uma lágrima rolou no olho esquerdo do seu pai. Sem conseguir segurar o choro, ela saiu correndo em direção ao seu pai, segurando a barra do vestido de noiva com as mãos e se lançou sobre ele. Ela o abraçou tão forte que o tubo de soro que estava ligado ao seu braço se soltou. Ele a abraçou de volta com a mesma intensidade. Apesar de ter acordado há pouco tempo, Heitor tinha domínio sobre a maioria dos seus movimentos, com exceção de parte da face que estava totalmente paralisada, isso dificultava um pouco a fala. Mas, para alegria dele e da família, os médicos afirmaram que aquela paralisia seria passageira, e que, após alguns meses e algumas sessões de fisioterapia, tudo voltaria ao normal.

Enquanto Sara explicava ao pai tudo que acontecia, e porque estava ali no hospital vestida de noiva, o resto da família chegou ao hospital, bem como Pierre com seus pais. Ao olhar para Pierre, Sara quis chorar mais uma vez, mas ele fez que “sim” com a cabeça e a abraçou por alguns minutos, depois correu ao encontro do sogro e lhe entregou o abraço mais carinhoso que alguém poderia dar. Para sua surpresa, o sogro o retribuiu com um beijo na face direita, seguido de mais um abraço e após isso um aperto de mão.

Nicole deitou na maca ao lado do esposo e ficava repetindo para ele: – “É você mesmo? Me diga que eu não estou sonhando, é você?”. Ele sorria e afirmava que “sim” com a cabeça para a esposa. Tudo foi muito comovente, mas o ápice daquele momento foi quando os pais de Heitor se ajoelharam ao lado da cama do filho e fizeram uma oração de gratidão a Deus. Eles disseram:

– “Deus! Glorificado e exaltado seja o Teu nome para todo sempre! Nós Te adoramos e a Ti rendemos louvores porque o Senhor se compadeceu de nós e fez com que nosso filho renascesse hoje, dia nove de setembro. Nós seremos eternamente gratos a Ti por esse poderoso feito, pois onde a medicina não pôde chegar com sua cura, o Senhor entrou com sua provisão. Para a medicina, não havia mais salvação para nosso filho e nem esperança para nós. Mas, o Senhor provou mais uma vez que a Ti pertence a decisão final e que o Senhor trabalha para aqueles que esperam em Ti. Hoje, nossa família testemunhou um milagre. Um milagre que será contado de geração em geração, para que toda nossa família se lembre dos teus maravilhosos feitos, pois o Senhor é um Deus sempre presente. Louvamos e engrandecemos o teu Santo nome e agradecemos mais uma vez pelo dom da vida e pelo sacrifício do teu filho amado, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, amém.”

Todos disseram amém em coro e após os pais de Pierre abraçarem Heitor, foram se retirando do quarto um a um até que sobrassem somente Nicole, Pierre e Sara. 

– Eu vou indo também?

– Não! Fica mais um pouco, por favor!

– É melhor você ficar com seu pai, Sara, ele acabou de acordar. Conversamos amanhã, curta esse momento. Como seus avós disseram, é um verdadeiro milagre.

Sara concordou com as palavras de Pierre e foi dar-lhe um beijo de despedida, mas ele virou o rosto e o beijo acabou pegando no cantinho da boca em direção a bochecha. Os dois se olharam por meio segundo e Sara abaixou a cabeça, e em seguida, Pierre saiu. Mesmo sem conseguir se expressar direito, Heitor sentiu a dor da filha e esboçou um “Sinto muito”. 

Heitor ainda permaneceu no hospital por mais três semanas para ficar em observação. Durante esse tempo, Pierre sempre ia visitá-lo, mas procurava fazê-lo nos horários que sabia que Sara não estaria. Quando estavam juntos, eles evitavam falar de dois assuntos; o acidente e o “quase” casamento. Pierre era quem mais falava, contava as novidades, os planos para o futuro (quase sempre sem mencionar nada a respeito de Sara), falava da pescaria que fariam juntos assim que Heitor saísse do hospital. O sogro, por sua vez, falava bem pouco e, na maioria das vezes, era pra pedir algo como um copo de água ou para abaixar o volume da televisão. 

Desde o dia do casamento Sara e Pierre se falaram poucas vezes e grande parte dela pelo WhatsApp; a única vez que conversaram por voz foi quando Pierre quis saber para qual quarto o pai dela havia sido transferido e mesmo assim, trocaram algumas palavras e logo ele desligou, praticamente batendo o telefone na cara dela. A filha se mudou temporariamente para a casa da mãe, a fim de ajudá-la com as tarefas domésticas e também para dar um apoio assim que seu pai recebesse alta. 

Num dos dias que Pierre foi visitar Heitor, Hugo estava lá e mesmo querendo voltar para trás, ele prosseguiu e após deixar flores sobre o criado mudo, seguiu para cumprimentar o cunhado. Os três conversaram por alguns minutos e enquanto a enfermeira entrava no quarto para ministrar algumas medicações, Hugo chamou o cunhado num canto:

– Olha, sei que não tenho nada a ver com a vida de vocês. Mas, deveria falar com minha irmã, ela está sofrendo muito.

– Eu sei que deveria, Hugo, mas ainda está doendo muito. Ser deixado no altar é algo muito cruel, mesmo que tenha sido por um bom motivo. Ela poderia ter dito: sim.

– Cunhado, você já deveria ter percebido como funciona a mente de uma mulher. Elas são muito emocionais, naquele momento tudo que a mana queria era estar com o papai. Ela não estava pensando em mais nada, acredito que a única resposta que veio na cabeça dela naquele momento foi “não”. Pensa bem, se ela tivesse dito sim, o casamento seguiria normalmente, vocês iriam para recepção, fotos, danças e iria atrapalhar a lua de mel de vocês, aliás, não teria clima para nada…

– Eu sei disso! Mas, ela poderia ter ao menos me avisado. Eu passei vergonha na frente da minha família, da sua família, dos meus amigos… Foi humilhante aquela situação.

– Sim! Mas Sara foi avisada a caminho do altar. Eu tenho certeza que naquele momento ela pensou na solução mais rápida. O papai havia acordado e estava chamando por ela. Sei que você está entristecido e chateado pela forma como ela saiu da igreja, mas talvez se ela tivesse dito “sim” naquela hora, teria sido bem pior. Nós estávamos nos revezando e sempre tinha alguém com o papai para a hora que ele acordasse, não se sentir sozinho, mas de alguma maneira, Deus permitiu que ele acordasse no dia do seu casamento. Há um motivo para isso, cunhado. Não há erros nos planos de Deus. Talvez Ele tenha feito isso, porque quer dar a vocês o casamento perfeito. A mana sempre sonhou em se casar entrando na igreja com o papai, e você se lembra como meu pai ficou sentido por você não ter feito o pedido a ele antes de fazer à ela? Agora imagina como ele iria se sentir se a única filha dele se casasse sem que ele pudesse conduzi-la ao altar?

– Nossa! Eu ainda não tinha parado pra pensar nisso. Você tem razão, cunhado! Mas eu a tratei tão friamente esses dias, eu acredito que a machuquei demais. Agora eu entendo que naquele momento era ela ou eu. Ou melhor, ela estava entre seu pai e eu. Por mais que tenha sido vergonhoso para mim, ser deixado no altar daquela forma, analisando bem, acredito que eu teria feito a mesma coisa.

– Todos nós teríamos. Então, aproveita que a mamãe está vindo pra cá e corre lá pra casa. A Sara vai estar sozinha. Vá encontrar o amor da sua vida! Ela te ama Pierre, sempre te amou e conhecendo minha irmã como conheço, posso afirmar que ela vai amar você pra sempre. Já combinei com a mamãe e a Sara acha que não pode vir com a mamãe porque a tia Jade está indo lá pra casa, então, corre lá, campeão! Vá ao encontro da sua princesa!

– Eu já estou indo. Obrigado pela conversa, cunhado, eu nunca vou me esquecer disso. – Sogrão, eu volto mais tarde com sua filha, não sai daí.

– Como se eu pudesse ir a algum lugar. – Resmungou Heitor.

Pierre entrou no carro e assim que saiu do estacionamento do hospital, deu de cara com sua sogra, ela deu uma buzinada e uma piscada como se dissesse: “Vai lá, ela está te esperando”. Pierre buzinou de volta e acelerou o carro. O hospital não ficava muito longe da casa dos pais de Sara, mas ele ficou dando voltas na quadra anterior à da sua noiva, tentando pensar no que dizer à ela. Então percebeu que não queria chegar lá de mãos vazias, foi aí que ele voltou para o centro, comprou o bombom que ela mais gostava, um botão de rosa branca ainda por desabrochar e dirigiu novamente para a casa de sua amada, parando o carro na calçada, respirando fundo e caminhando em direção à porta que se abriu antes mesmo que ele tocasse a campanhia, como se de alguma forma, ela pressentisse sua chegada.

– Você?

– Eu!

Os dois ficaram se olhando por alguns minutos sem dizer uma só palavra. Eles estavam adiando aquele momento há bastante tempo, embora Pierre tivesse ensaiado exatamente tudo que falaria para Sara, ao ver sua amada ali, parada em sua frente, ele não conseguiu se lembrar de absolutamente nada. Sara por sua vez sentia vergonha pelo que tinha feito e não conseguia sequer olhar dentro dos olhos de Pierre. Reunindo forças dentro de si ela, respirou bem fundo e antes que pudesse dizer algo, Pierre falou:

– São para você!

– A rosa é linda, e, você comprou o chocolate que amo! Quer entrar?

– Eu adoraria, mas antes preciso te falar algumas palavras e quero lhe pedir que preste bastante atenção e que desde já me perdoe se eu gaguejar ou perder as palavras, mas me escute, por favor, apenas me escute, tudo bem?

– Sim.

– Eu tenho sido um insensível ultimamente. Ser deixado no altar daquela forma acabou comigo. Eu não conseguia entender o porquê você tinha deixado o nosso casamento ir tão longe pra me abandonar no altar. Mas, agora há pouco, enquanto estava visitando seu pai, tive uma conversa com seu irmão e ele me fez enxergar coisas que estavam estampadas na minha cara e eu não conseguia ver. Sara, eu lhe devo um pedido de desculpas, mais do que isso, eu lhe devo um pedido de perdão. Perdoe-me por ter sido tão cruel e covarde com você. Perdoe-me por não estar lá pra te abraçar, pra enxugar suas lágrimas, pra te dar apoio; me perdoe por não ter sido sensível ao ponto de entender sua dor, seu momento… Eu sei que naquele momento era seu pai ou eu, e agora eu sei que eu, no seu lugar, teria feito a mesma coisa. Você foi uma heroína por ter agido daquela forma. Você foi forte o suficiente para olhar nos olhos da pessoa que você ama e dizer “não”. Você foi forte por ter saído correndo sem olhar para trás apenas para estar com seu pai. Perdoe-me por sentir raiva de você, aliás, me perdoe por sentir ódio de você. Perdoe-me por não ter sido seu apoio, seu porto seguro, seu alicerce. Eu sei que você precisava do meu abraço, do meu carinho, do meu conforto, sei que você queria dividir sua alegria comigo, afinal de contas, foram dois anos de sofrimento pelo coma do seu pai, e quando ele enfim despertou, eu estava tão preso na minha própria dor, que não fui capaz de dividir essa alegria com você. Perdoe-me por ter sido tão egoísta…

Ele se ajoelhou em frente à ela, mas não antes de enxugar as lágrimas que escorriam nos olhos de sua amada. Pegou a mão dela que estava com a aliança de noivado, beijou-a delicadamente, olhou para sua amada noiva com os olhos lacrimejando, suspirou bem fundo e continuou:

– Hoje um pássaro pousou em minha janela e eu fiquei observando seus esforços para atravessar o vidro transparente. Ele chegava perto e tentava entrar, mas não conseguia, então rapidamente abria suas asas diversas vezes pra tentar se livrar dos pingos de chuva que caiam sobre seu corpo e daí a pouco mais uma vez tentava passar pelo vidro.

Eu tinha vontade de abrir a janela para que ele pudesse voar para dentro da minha casa e se abrigar, mas ao mesmo tempo, pensava que se eu me levantasse ele sairia fugindo assustado. Então nós ficamos nos olhando por algum tempo, talvez uns dois minutos. E só então, eu entendi.

Fui ao encontro da janela e reparei que ele não se mexeu, quando coloquei minhas mãos no puxador da janela ele começou a cantar como que agradecendo aquele meu gesto. Eu abri a janela e ele passou por cima dos meus ombros voando para dentro da casa e parando em cima da pia da cozinha onde ficou passeando de um lado para o outro sempre sacudindo suas asas para se livrar do excesso de água sobre seu corpo.

Eu fiquei ali observando seus movimentos por algum tempo, e depois vim aqui te escrever. Quando comecei a escrever as primeiras palavras que vieram à minha mente, que aquele pássaro era eu que estava preso do lado de fora do seu coração sem poder entrar. Ao menos que você me desse permissão, eu continuaria ali me molhando, me machucando e sofrendo. E por mais que você quisesse abrir a porta, ou nesse caso, a janela, no fundo você tinha muitos medos e um deles era que eu voasse para longe.

Sorte a nossa que vencemos nossos medos, por isso que todas as vezes que estou contigo, eu canto. Eu canto pra você para que se lembre que sou grato por ter aberto a janela do seu coração e me permitido entrar para o seu interior; sou grato por ter tido coragem de se levantar e dar um passo na minha direção, mesmo que o tenha feito com muito medo e acima de tudo, eu sou grato porque você é o meu maior motivo pra cantar.

Cada dia mais… Amo Você! Sara Albuquerque de Bragança, você ainda quer ser minha esposa?

– Sim!

CAPÍTULO 07
ELA DISSE… SIM!

Quatro meses haviam se passado desde o dia em que Pierre foi ao hospital para buscar o sogro, que tinha recebido alta. O sogro fez questão de que fosse Pierre quem o conduzisse para casa. A família sabia o significado daquele gesto. Era Pierre também quem levava e buscava o sogro das sessões de fisioterapia e foi com Pierre também que o sogro deu a primeira volta dirigindo o seu novo carro que o seguro pagara após o acidente. A rotina da família Albuquerque de Bragança estava voltando ao normal e foi o próprio Heitor que interrogou a filha e o genro para saber quando seria formada uma família Bragança & França. Os dois engoliram seco.

Desde que Sara tinha deixado Pierre no altar, os dois não haviam conversado ainda sobre casamento, claro ele havia feito um novo pedido na casa dela, mas os dois não haviam sentado pra conversar e planejar novamente. Mas, acharam que seria o momento perfeito. Heitor já estava praticamente recuperado do acidente, a família havia voltado à sua rotina, Pierre já havia retirado os pinos da perna, mantendo apenas uma chapa que dava sustentação ao osso, enfim… Tudo estava bem, pela primeira vez, em anos. Pela primeira vez desde a morte de Carlinhos, tudo estava perfeitamente bem.

Naquele mesmo dia, começaram a planejar novamente o casamento. Heitor fez questão de que seu pai o acompanhasse na hora da entrada da noiva e que os dois juntos a conduziriam até o altar. Seu Otávio ficou emocionado com o convite do filho e mais emocionado ainda ao se lembrar de que há dois anos atrás, ele estava conduzindo a neta, enquanto seu filho estava de coma num leito de hospital. A neta ao ver o avô chorando, correu ao seu encontro e o abraçou bem forte.

Após longas conversas e quase que por um concílio, os dois decidiram se casar no dia do aniversário de Sara: dia vinte e oito de junho. Os dois tinham apenas cinco meses para preparar o casamento. Mas, empolgados da forma como estavam, não seria nada difícil. As mulheres foram as primeiras a se organizarem. Clarinha, Nicole e Jade iriam tomar conta da decoração, buffet e cerimonial, enquanto Heitor e Seu Otávio iriam patrocinar o evento. Eles costumavam brincar que as mulheres escolhiam e eles pagavam. Hugo juntamente com sua esposa, revolveram patrocinar a lua de mel.

Os pais de Pierre pagaram o vestido de noiva, fraque, daminha e noivinho e ajudaram a mobiliar o apartamento. Até o Pastor Alan Mazeratti entrou na festa. Ele conversou com um dos fiéis da igreja e conseguiu que a noiva fosse conduzida de limousine até a igreja e depois os noivos, até o aeroporto onde embarcariam para a lua de mel em Porto de Galinhas.

Com a família e amigos envolvidos, e ajudando os noivos, todos os preparativos ficaram prontos em três meses e os meses finais que antecediam ao casamento, serviram para que os dois pudessem reformar o apartamento, comprar o resto dos móveis e viajar em família por quatro dias aproveitando o feriado de páscoa. 

Quando chegou por fim o dia do casamento, Sara insistiu em fazer tudo diferente da primeira vez. Dessa vez, ela escolhera casar-se à noite e trocou a marcha nupcial pela música “A Thousand Years” da Christina Perri. Mas, para a surpresa dela, assim que a música começou a tocar e ela foi caminhando em direção ao altar acompanhada de seu pai e seu avô, Sara reparou que seu noivo não estava no altar onde ele deveria estar esperando por ela. Naquele momento, o coração de Sara parou por um instante. “Ele deve estar se vingando!” – pensou, querendo não acreditar que Pierre estava fazendo aquilo com ela. Seus olhos se encheram de lágrimas e quando o pai e o avô a soltaram, ela tentou segurar nos braços de ambos, na esperança de que aquilo não fosse real, tentando acordar daquele pesadelo… Foi quando uma voz que vinha do fundo despertou sua atenção e fez seu coração parar mais uma vez. Pierre caminhava lentamente em sua direção, quase que contando os passos e cantando a música da entrada da noiva:

“Heart beats fast

Colors and promises

How to be brave

How can I love when I’m afraid to fall

But watching you stand alone

All of my doubt suddenly goes away somehow

One step closer

I have died everyday waiting for you

Darling don’t be afraid I have loved you

For a thousand years

I’ll love you for a thousand more

Time stands still

Beauty in all she is

I will be brave

I will not let anything take away

What’s standing in front of me

Every breath

Every hour has come to this

One step closer

I have died everyday waiting for you

Darling don’t be afraid I have loved you

For a thousand years

I’ll love you for a thousand more

And all along I believed I would find you

Time has brought your heart to me

I have loved you for a thousand years

I love you for a thousand more

One step closer

One step closer

I have died everyday waiting for you

Darling don’t be afraid I have loved you

For a thousand years

I’ll love you for a thousand more

And all along I believed I would find you

Time has brought your heart to me

I have loved you for a thousand years

I’ll love you for a thousand more.

Pierre cantou a última estrofe da música de mãos dadas com sua amada e olhando profundamente nos olhos dela. Ela não conseguia parar de chorar e sorrir de alegria, a maquiagem à essa altura já estava começando a borrar e ela tentava se controlar para não pular no colo de Pierre. Ela não podia acreditar no que estava acontecendo, aquilo não estava previsto, e como Pierre aprendera a cantar tão bem? Como ele ensaiou aquela música sem ela perceber? Nos últimos meses, eles praticamente se separavam só na hora de dormir, como ele aprendera à cantar? Mesmo que ela o amasse profundamente, ela sabia que Pierre era muito desafinado.

Pastor Alan Mazeratti que o diga. Ele foi cúmplice em toda essa história. Foi ele quem perdeu madrugadas ajudando Pierre a se preparar para a ocasião. Foram tantas noites sem dormir, que houve vários dias que ele dirigia o culto com olheiras, e algumas vezes, até bocejando. Mas, após quatro meses de ensaio duro, ele finalmente havia conseguido. Pierre estava afinado, cantando no tom certo e conseguiu até mesmo fazer alguns falsetes que a música exigia.

Após terminar a música, Pierre disse a Sara bem baixinho: “Eu vou amar você pra sempre”; ela, por sua vez, respondeu com a mesma frase. Os dois sabiam a importância daquela frase na vida da família Albuquerque e já que estavam naquele momento iniciando sua própria família, Pierre sabia que era o momento certo para dizê-la. Enquanto os dois se olhavam, Pastor Alan Mazeratti fez a leitura do texto da primeira carta aos Coríntios e após finalizada ele passou o microfone para que os noivos trocassem os votos. Sara iniciou:

– Um dia você me perguntou se ainda éramos amigos, eu não te respondi naquele dia, mas resolvi fazê-lo hoje, bem aqui, na presença dos nossos amigos, familiares, do nosso Pastor e principalmente, na presença de Deus. Pierre, você não somente é meu amigo, como também é meu melhor amigo. Você é minha base quando estou sem chão, é meu guia quando estou sem rumo, é minha cabana quando me sinto desprotegida, é meu sol quando tudo fica escuro e nublado, e, sobretudo, você é meu anjo quando nada mais parece fazer sentido. Por mais que seja difícil entender algo assim, eu te amei desde o primeiro dia que te vi, lá no meu primeiro dia de aula, enquanto eu estava dando birra porque a professora não queria deixar eu ficar com meu cachorrinho Olaf. Você foi sempre um ótimo amigo, namorado, noivo e tenho certeza que será um ótimo esposo, e vou além disso… Eu não começaria uma família com outra pessoa nesse mundo, porque é com você que quero ter meus filhos e é ao seu lado que quero envelhecer. E mesmo quando eu estiver bem velhinha, ainda assim vou olhar nos teus olhos com bastante ternura e te dizer… Eu vou amar você pra sempre!

Foi necessário que o Pastor Alan entregasse um lenço para Pierre antes que ele pudesse falar seus votos. Ele enxugou bem as lágrimas e quando foi suspirar para começar a falar seus votos, foi interrompido por uma nova enxurrada de lágrimas. Ele chorou durante uns três minutos, chorou de soluçar, e só parou quando encontrou refúgio nos braços de seu pai que por sua vez acariciava o cabelo do filho e tentava acalmá-lo. Quando, por fim, Pierre conseguiu se recompor, lançou um olhar para a futura esposa, pegou o microfone das mãos do Pastor, suspirou bem fundo e começou:

– Mesmo que eu viva um milhão de anos, não poderei agradecer a Deus pelo presente que Ele me deu. Você é muito mais do que eu sonhei e muito mais do que eu mereço. Você é a prova viva de que existe amor à primeira vista. Pois foi assim que aconteceu. Eu me apaixono por você todos os dias. Cada vez que escuto sua voz, cada vez que vejo as covinhas que aparecem nas suas bochechas quando você sorri, cada vez que você joga o cabelo de lado ou o puxa para detrás de suas orelhas, cada vez que você ganha de mim no videogame, cada vez que a gente briga pra saber quem vai lavar a louça ou quem vai comer a última colher de brigadeiro. Eu me apaixono cada vez que nós brigamos e temos que fazer as pazes depois; me apaixono cada vez que você me manda embora e me liga cinco segundos depois me pedindo pra ficar. Eu me apaixono por você ser tão forte e ao mesmo tempo tão delicada. Por ser tão carinhosa, tão sorridente… Eu me apaixono, por você sempre ter uma palavra de carinho e incentivo pra me dar, mesmo quando eu me sinto a pior pessoa do mundo. Eu sou grato por ter te conhecido, sou grato por ter me dado a oportunidade de te amar e sou grato por você ter me amado mesmo quando eu não merecia. E, é por essas e tantas outras razões, que te digo, Sara… Eu vou amar você pra sempre!

Mais uma vez o casamento foi interrompido por alguns minutos para que a noiva pudesse se recuperar. Ela rejeitou o lenço oferecido pelo Pastor com medo de borrar ainda mais a maquiagem, muitas lágrimas rolaram de seu rosto, ela chorava e soluçava, foi preciso trazer um copo de água para que ela parasse de soluçar. E quando ela se recuperou, foi vez do Pastor se emocionar — também pudera, ele conhecia Sara desde o dia do funeral do seu irmão, tinha praticamente visto a menina crescer e ela era como uma filha para ele. O Pastor controlou-se mais facilmente do que os noivos, e, por fim, prosseguiu para o final do casamento:

– Pierre Luxier França, aceita Sara Albuquerque de Bragança como sua legítima esposa, para honrá-la e respeitá-la, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– Aceito!

– Sara Albuquerque de Bragança, aceita Pierre Luxier França como seu legítimo esposo, para honrá-lo e respeitá-lo, desse dia em diante, até o último dia de sua vida?

– SIM!

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