Cadeira Vazia

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– Já fazem muitos anos que eu não piso aqui.

– É, eu sei disso. Acho que ela ia querer que ficasse com isso.

– O que é isso?

– São as anotações dela.

– Anotações? Ela nunca me disse que fazia anotações.

– Como você mesmo disse, Ricardo, já fazem muitos anos que você não pisa aqui.


10 ANOS ANTES

– Vamos, mamãe, ou iremos nos atrasar!

– Não seja apressado, Ricardo. A festa só começa daqui a uma hora.

– Mesmo assim, vamos pegar trânsito daqui para lá. Melhor chegar mais cedo do que atrasado.

– Eu já estou indo. Já colocou tudo dentro do carro?

– Coloquei, sim. Está tudo pronto, só esperando a senhora descer.

– Eu só vou retocar a maquiagem e desço.

– Como se alguém fosse notar…

– O que disse, Ricardo?

– Nada, mamãe.

– Eu sei muito bem o que disse, e para a sua informação, o Dr. Alberto sempre é muito cavalheiro comigo.

– Dr. Alberto? Aquele velho babão, mamãe? Dr. Alberto tem idade para ser seu avô.

– Ricardo! Isso é modo de falar sobre alguém? Onde está a educação que eu te dei?

– Esqueci na faculdade. Ora, vamos, mamãe! Parece que a senhora só está tentando ganhar tempo. Além disso, preciso passar na casa da Bruna ainda para buscar a Victória.

– Você não me disse que pegaria a Victória hoje.

– É sábado, mamãe. Meu dia de ficar com ela.

– Agora que serei ofuscada, mesmo naquela festa, sempre que saio com a Victória, as pessoas só querem saber dela.

– Mamãe! Está com ciúmes da sua neta ou é impressão minha?

– Ciúmes? Da minha netinha “querida”? Não, não tenho ciúmes dela. E agora tenho até planos para ela.

– Por que fez “querida” entre aspas? E nem pense em usar minha filha num desses seus planos maquiavélicos.

– Querida porque é minha neta preferida. E mais respeito, menino! Desde quando eu tenho planos maquiavélicos?

– Ela é sua única neta, mamãe e você tem planos maquiavélicos desde sempre!

– Nem vou me preocupar em responder. E aí, o que achou?

– Nada mal para uma senhora de cento e vinte anos. Agora entendi porque demorou tanto. Tinha que passar reboco na cara, né?

– Cento e vinte anos tem sua avó, mãe de seu pai. Eu estou muito enxuta para uma modesta senhora de cinquenta e dois anos.

– Que seja, mamãe! Entre no carro e não me venha com essa de ir ao banheiro. Às vezes você parece criança, sempre que temos que sair de casa, você inventa de ir ao banheiro.

– Agora vai me proibir de ir ao banheiro também, Ricardo? Agora eu vi mesmo. Você não manda nem na sua filha e quer mandar em mim?

– Mamãe, já tivemos essa discussão e sabemos onde vai parar. A senhora pode fazer a gentileza de entrar no carro para que possamos prosseguir para a casa da Victória?

– Aí estão os modos que eu te ensinei. Agora, por favor, me chame de senhorita… já tem tempo que me divorciei do traste do seu pai.

– Falando nele, sabe que ele vai estar na festa, não sabe?

– Na festa? O que ele quer lá? Deu para me seguir agora?

– Mamãe, a senhora sabe muito bem que embora a tia Marlene e o tio Hepitácio sejam muito amigos seus, o tio Hepitácio é primo do meu pai. Nada mais justo do que ele estar na festa, na verdade, a família toda vai estar, então nesse caso a intrusa é a senhora.

– Intrusa? Eles vão ter a honra da minha presença! Agora vamos logo que você fala demais, Ricardo! Já passou da hora da gente sair e você está aí conversando asneira.

– Eu? Conversando asneira? A senhora que…

– A senhora, nada! Senhorita! Agora entre no carro que eu não quero chegar atrasada por sua causa.

– Por minha causa?


Ricardo ajudou sua mãe à entrar no carro e ambos saíram em direção à casa de Victória. Durante o percurso ainda tiveram mais três discussões, uma pelo tamanho do decote do vestido de Catarina, outra pelo fato dela sempre se dirigir ao pai dele com xingamentos e uma terceira por ela achar que Ricardo estava indo muito devagar. Quando chegaram à casa de Victória, ela já estava arrumada, calçava uma linda sapatilha com um pingente na ponta e um vestidinho rosa com detalhes em branco. Ela estava brincando em seu cachorro no quintal quando viu o carro de seu pai se aproximar. Largando o cachorro para lá, saiu correndo em direção ao carro.

– Papai!

– Oi, filhona, como está?

– Eu tô bem e você? – Oi, vovó!

– Oi, Victória, e já disse para não me chamar de vovó na frente dos outros.

– Mas só estamos eu, a senhora e o papai.

– Seu pai é “outros”.

– Tudo bem, mas por que “outros” entre aspas?

– Por nada! Entre logo no carro ou vamos nos atrasar. Mania que você e seu pai tem de ficar perguntando o porquê de entre aspas. Porque sim, eu gosto de falar entre aspas.

– Tudo bem, Dona Catarina. É que fica parecendo falso.

– Nunca mais na sua vida repita isso. “Dona” é título de pobre e eu sou madame.

– Entendido, “Madame” Catarina!

– Victória?! Por que fez o “Madame” entre aspas?

– Por nada, eu só aprendi com a senhora.

– Senhora, não, senhorita! Ricardo dá para ligar o carro ou ta esperando aparecer um disco voador e nos abduzir até à festa?

– Já estou indo, mamãe. Bem que seria legal sua família voltar para te buscar mesmo.

– O que disse, Ricardo?

– Eu disse: “pode colocar o cinto, Victória”.



Ricardo deu uma piscadinha para Victória antes de ligar o carro e olhou para a mãe pelo retrovisor interno. Catarina estava atrás porque como ela mesmo disse, ela é uma madame. Eles tentaram ouvir música, mas ela reclamava de tudo que tocava. Os dois preferiram conversar durante o trajeto, até porque pai e filha só tinham um tempo mais próximo aos fins de semana. Vez por outra Catarina se metia na conversa dos dois e tentava a todo custo rebaixar a neta, ela, por sua vez, dava de ombros e fingia não se importar com as investidas da avó.

Ricardo dirigiu por meia hora até parar num cruzamento. Ele estava distraído conversando com sua filha e não percebeu que um carro que vinha na contra mão aproximava-se rapidamente, próximo a colidir com o seu. Depois disso, Ricardo só se lembra de ver a sua filha sendo jogada para fora do carro através do para-brisa, sua mãe batendo a cabeça no banco da frente várias, várias vezes, e do carro capotando e parando numa árvore.

Os dias que se seguiram foram dias cruéis. Hospital, ver uma das mulheres que ele mais ama em coma, ligações do seguro, mensagens de apoio de amigos e familiares no orkut, e por fim… um doloroso velório. Ricardo tentava recordar-se de como aquele acidente havia acontecido, mas só conseguia ver as mesmas cenas passando pela sua cabeça. Lamentava-se por não ter prestado mais atenção ao trânsito, por ficar apressando sua mãe… Ele pensava que, talvez, se tivesse deixado ela se arrumar no tempo dela, aquele acidente não teria acontecido, ou se ele não respondesse às provocações dela, ou se tivesse pedido para Victória entrar logo no carro ao invés de conversarem um pouco do lado de fora… Se alguma dessas coisas não tivesse acontecido ou acontecido de uma forma diferente, talvez ela não teria morrido.



DIAS ATUAIS

– Já fazem muitos anos que eu não piso aqui.

– É, eu sei disso. Acho que ela ia querer que ficasse com isso.

– O que é isso?

– São as anotações dela.

– Anotações? Ela nunca me disse que fazia anotações.

– Como você mesmo disse, Ricardo, já fazem muitos anos que você não pisa aqui.

– Bruna… por quê? Por quê? Essa não é a ordem natural das coisas… os pais não devem enterrar seus filhos. Tinha que ser eu e não ela, é tudo minha culpa.

– Não é sua culpa, Ricardo. Não era você quem estava embriagado conduzindo um carro na contra mão. Não é sua culpa, é uma fatalidade.

– Mas eu estava lá, eu deveria ter protegido o meu bebê, já fazem dez anos… mas todos os dias eu sinto que a perdi naquele instante. Essa dor nunca vai passar? Como você consegue lidar com isso?

– Eu não consigo, Ricardo. Por isso estou vendendo a casa. Tudo aqui lembra nossa filha. O balanço na árvore, os riscos para marcar a altura dela na parede da área de serviço, o quartinho dela que ainda está do mesmo jeito e até aquela cadeira vazia onde ela costumava se sentar para fazer suas anotações.

– Anotações… eu nunca soube que minha filha escrevia. Eu deveria estar mais presente.

– Você foi um ótimo pai, Ricardo.

– Como sabe disso?

– Leia a página trinta e dois.

– Página trinta e dois? O que tem na página trinta e dois?

– Leia… Eu vou te dar uns minutinhos enquanto termino de encaixotar o material da cozinha.


Brasília, 22 de Março de 2005

Nem dá para acreditar, mas já estou fazendo treze anos… Como o tempo passa rápido. A mamãe está lá embaixo fazendo um bolo e o papai está se arrumando, ele disse que vamos ter um dia só nosso e que só vai me trazer para casa quando for a hora da festa.

A mamãe queria que fosse uma festa surpresa, mas o papai não sabe guardar segredo, ele me contou assim que eu acordei e a mamãe ficou uma fera. Perguntei ao papai onde vamos e ele disse: minha princesa, você escolhe. Ele sempre me chama assim, de princesa. Não somente chama, ele também me trata como uma princesa, eu não sei como são os outros pais, mas eu não trocaria o meu por nada nesse mundo, meu pai é meu herói.

Vou ter que dar uma pausa nessa anotação, meu pai já está me chamando lá embaixo. Eu volto mais tarde e conto como foi o resto do dia, ok? Eu quero me lembrar bem desse dia, papai falou que já sou uma mocinha e que no meu aniversário de quinze anos eu terei a maior festa de todas. Dessa vez ele me contou a surpresa com dois anos de antecedência, o papai não aprende mesmo.

Voltei. Uau, eu tive um dia fantástico. Papai me perguntou onde eu queria ir e eu disse que queria ver uma exposição de robôs dinossauros que estava tendo aqui na cidade. Eu pensei em assistir uns filmes no cinema, mas com o meu pai do lado, ia ficar esquisito, kkk.

Vocês já viram dinossauros robôs? Eles são gigantes e chegam a dar medo de verdade. Teve um que o dente dele se enroscou no meu cabelo e o papai foi tirar, mas não de qualquer forma. O papai fingiu que ele era um grande aventureiro, subiu nos bancos, pediu o chapéu emprestado de um homem, ficou parecendo o protagonista do filme Jurassic Park. E aí ele começou a confrontar o dinossauro, falando: “Solte minha filha, sua fera, ou eu mato você!” Foi a maior festa, todas as crianças e seus pais riam enquanto meu pai fingia que estava brigando com o dinossauro. Depois que ele desenroscou meu cabelo do dente do dinossauro, ele me pegou no colo e foi aplaudido por todo mundo que estava ali presente.

Sabe, meu pai pode até não ser um herói como esses de filmes. Mas ele é um herói de verdade, não porque ele tirou meu cabelo da boca de um robô dinossauro, mas porque ele me faz sorrir todo dia, ele sempre tem uma surpresa, sempre faz eu me sentir como uma verdadeira princesa e até quando ele briga comigo. Eu sinto todo amor e cuidado dele — o papai sempre tenta me proteger dos perigos. 

Eu sei que o papai não vai durar para sempre, na verdade nem eu vou. Mas sou grata a Deus por cada segundo que passamos juntos, eu fico triste quando vejo minhas amigas falando mal de seus pais, xingando e até mesmo desejando a morte deles. Eu, pelo contrário, queria que meu pai fosse eterno. Mas, mesmo no dia que a gente se separar para sempre, vamos continuar nos amando, porque nós somos uma equipe, eu e o papai… A mamãe também, mas ela fala que ela é a técnica da equipe. Mas eu e o papai, bem… nós somos a equipe do amor, e é por isso que esteja onde estiver, eu sempre vou amar o papai e jamais vou me esquecer dele.

Se um dia você ler isso, papai, quero que saiba de duas coisas: primeiro, que você está muito encrencado por ler meu diário sem a minha permissão e segundo: obrigada por me fazer a garota mais feliz do mundo. Você não errou em nenhum momento, tudo que você fez foi por amor, foi para me proteger. Mesmo que um dia você pense que você errou, por favor, não se sinta assim. Você foi, é e sempre será o meu herói, meu primeiro e único grande amor.

Te amo, papai, mas isso não muda o fato de você está encrencado.



Ricardo leu toda a anotação com as lágrimas pingando, ao terminar ele abraçou bem forte aquele caderninho de maneira que ele ficasse na altura de seu coração. Com os olhos fechados, ele mentalizou a imagem de sua filha, quando sentiu-se abraçado, ele sabia que era o abraço de Bruna e não de sua filha, mas naquele momento ele entendeu que era hora de recomeçar, e naquele instante, ele conseguiu se perdoar pelo que aconteceu, e o melhor de tudo, naquele instante, ele se sentiu completamente amado.

 

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