Amor a Prova

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– Papai, o que é parapepdio?

– Parapepdio?

– Sim, o que é?

– Olha princesa, papai confessa que não sabe do que você está falando. Onde ouviu essa palavra?

– A tia “tela falô” na sala essa manhã.

– E de que forma ela falou essa palavra?

– Ela “dixe que o parapepdio” da escolinha foi pintado de azul.

– Ah sim, paralelepípedo.

– “Ixo” papai. Foi o que eu “dixe”.

– Sim, foi o que você disse. O papai que não soube entender. Então princesa, paralelepípedo são pequenos blocos de concreto que separam a calçada do asfalto.

– E o que é “conqueto” papai?

– Concreto, é um tipo de massa que a gente faz com areia, brita e cimento.

– Um tipo de massa? Como massa de bolo?

– Mais ou menos isso. Só que não pode comer.

– “Puquê” papai?

– Porque faz mal princesa. Veja, lá está a mamãe. Vamos apostar uma corrida até ela?

– “Vamô” se “voxê pedê, quelo sovete”.

– Apostado!

Os dois saíram disparado e é claro que Henrique deixou a filha ganhar, a menina chegou aos braços da mãe com pelo menos dez passos de vantagem. Os três se abraçaram e em seguida Henrique colocou as compras no porta-malas enquanto Larissa ajustava a cadeirinha de Camila no banco de trás. Normalmente Henrique tiraria um “Ímpar, Par” com a esposa para ver quem iria dirigir, mas naquele dia estava muito cansado para isso e já sentou direto no banco do carona.

– Estão todos prontos? – Perguntou Larissa.

– Sim mamãe! – Responderam em coro.

Larissa ligou o carro rumo à casa de sua mãe, era sexta e toda semana neste mesmo dia, almoçavam com ela. A mãe de Larissa era uma senhora de sessenta e poucos anos que adorava cozinhar. Ela morava um pouco afastado da cidade numa pequena província rural e desde que se divorciou do pai de Larissa, vira e mexe aparecia com um namoradinho pelo menos trinta anos mais novo do que ela. Isso deixava Larissa uma fera e vira e mexe era usado como arma contra ela por Henrique quando os dois tinham uma discussão.

Dona Ana amava a netinha. Ela fazia todos os seus gostos e isso deixava os pais da menina preocupados. Henrique costumava dizer que a filha estava virando uma bolinha por causa da avó. E de certa forma, o pai tinha razão. Camila apresentava lindas dobrinhas nos bracinhos e perninhas e tinha as bochechas mais gordinhas que alguém na idade dela poderia ter. Ela não era uma criança obesa, mas estava um pouco acima do peso ideal para a idade dela. E se dependesse dos quitutes da avó, ela continuaria assim por muito tempo.

Os pais de Henrique moravam em outro estado, este por sua vez, bem que queria ser filho único. Mas era o quarto de uma família de sete irmão, com três homens e quatro mulheres. Henrique visitava os pais duas vezes por ano, geralmente em período de férias escolares, não somente por causa de Camila que ainda estava no jardim de infância, mas porque ele e Larissa eram dono de uma escola de médio porte na cidade. Larissa havia largado o quadro há muitos anos e atuava apenas na diretoria, enquanto Henrique ainda dava aulas de educação física e vez por outra recebia uma intimação da diretora para comparecer a sua sala após a última aula, quando estaria completamente suado e com a camiseta regata colando em seu corpo definido.

Os dois eram conhecidos por serem bastante generosos, tanto que separavam todos os anos bolsas de estudo integral para alunos de baixa renda. Além de não pagarem para estudarem num dos mais conceituados colégios do estado, os alunos ainda recebiam uniforme, materiais de estudo e lanche totalmente grátis e ainda recebiam a chance de estagiar no colégio no turno contrário e receberem um salário para complementarem a renda de suas famílias. Tal gesto, dentre tantos outros, faziam com que Henrique e Larissa fossem o casal mais amado da cidade, por isso, ninguém jamais poderia prever o que em breve lhes aconteceria.

Numa noite de sexta, enquanto estavam voltando da casa de dona Ana, o casal teve que parar no posto para abastecer o carro e Larissa pediu ao esposo que guiasse o carro dali para frente, pois estava sentindo-se indisposta. O esposo assentiu com a cabeça e assim que desceu do carro sentiu quando um ferro gelado encostou em sua nuca e uma voz ao fundo gritava o tempo todo para ele e sua esposa: “- Deita no chão! Deita no chão!” – Henrique, sem saber o que fazer lançou um olhar para direção da esposa e os dois deitaram no chão. Os bandidos pediram as chaves do carro, carteira, joias e dinheiro, não era a primeira vez que haviam sido assaltados, sempre ouviram dizer que nunca deveriam reagir a um assalto, que o melhor era perder tudo do que perder a vida.  Mas, aquele dia era diferente, pois o maior bem do casal estava sentadinha no banco detrás. Quando eles se preparavam para sair com o carro, Larissa gritou desesperada para que deixassem sua filha que chorava sem parar no banco de trás, o carro foi ligado, um dos bandidos olhou para trás em direção à criança, apontou o revólver para ela e em seguida ouviu-se o disparo de dois tiros.

Larissa gritou e ficou se debatendo no chão enquanto Henrique corria em direção ao carro que após os disparos andou mais uns dez ou quinze metros e parou. Ao chegar lá Henrique se deparou com uma cena pesada demais para se descrever. Ele lembra de ter visto sangue espalhado por todos os cantos do carro e sua filha, sua amada filha totalmente encolhida, coberta de sangue e chorando sem parar.

Para a sorte do casal, um policial que estava à paisana presenciou toda ação dos bandidos e agiu assim que julgou ser seguro por causa da criança. Ele deu um tiro certeiro na direção de cada bandido os matando na mesma hora. Graças a Deus nenhum dos tiros acertaram à criança que estava apenas coberta do sangue dos bandidos que jorrara em sua direção.

Larissa estava em choque e foi preciso alguns minutos para recobrasse a consciência e percebesse que sua filha estava viva e bem e de que tudo não passava de um susto. Passado algum tempo a família foi agradecer ao policial e ofereceram o dinheiro e joias que os bandidos queriam levar, o policial agradeceu o gesto mas insistiu que não tinha feito nada além de suas obrigações.

A polícia identificou os bandidos e para a infelicidade do casal, um deles havia sido aluno de Larissa no tempo que esta dava aulas de matemática. Henrique ainda brincou de que talvez ele não gostasse de equações de segundo grau, mesmo em meio a todo aquele pavor, os dois ainda conseguiram rir da ocasião, enquanto abraçavam sua pequena princesa.


Henrique e o policial Jorge viraram grandes amigos daquele dia em diante, daquele tipo de amigo que visita sua casa e tem liberdade de abrir a geladeira e escolher o que quer comer ou beber. Depois do incidente, Henrique e Larissa decidiram vender a casa e se mudaram para a casa da dona Ana, na verdade não na casa dela, como ela morava numa pequena fazendinha, os dois construíram uma casa e passaram a morar lá, Camila amou isso, pois assim conseguia ficar mais perto da vovó e de suas delícias.

 

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