A estrela cadente

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– Você fez um pedido?

– Ah, qual é, Caio! Você sabe muito bem que eu não acredito nessas coisas.

– Deveria.

– Ah, é?! Por quê?

– Porque foi por causa de uma estrela que eu conheci você.

10 ANOS ANTES…


– O que é isso na sua mão, meu filho?

– É um sapo, mamãe!

– Um sapo? Onde conseguiu isso?

– O vovô que me deu.

– Tenho que conversar seriamente com seu avô. Deixe o sapinho ir e vá lavar as mãos, o jantar está servido.

– Já vou, mamãe.

– Aproveita e avisa seu avô também.

Caio era uma criança alegre de nove anos — o garoto era magro e tinha cabelos enrolados da cor de ferrugem, algumas sardas pelo rosto e um sorriso muito esperto. Sempre brincava sozinho ou com seu avô; as outras crianças não costumavam chegar perto, algumas por preconceito por seu estado e também pelo fato da mãe ser separada do pai e viver sozinha com o avô de Caio.

Caio, apesar de sentir falta do pai, evitava falar do mesmo, na presença da mãe. Ele sabia que o assunto sempre a entristecia. Mas, quando estava com seu avô, o enchia de perguntas dos mais variados tipos, porém a mais comum delas era por que seu pai o havia abandonado. Será que ele tinha vergonha dele?

Seu avô sempre respondia que não. Que na verdade, o pai sentia vergonha de si mesmo. Para entender melhor os motivos que levaram o pai do Caio à sair de casa, temos que entender que desde o começo esse casamento estava fadado ao fracasso. Os pais de Caio se conheceram quando trabalharam juntos numa grande operadora de celular, ambos atuavam na área de vendas.

A mãe de Caio era uma linda jovem de cabelos ruivos naturais, media mais ou menos 1,65 de altura e andava sempre de vestido; usava um daqueles óculos fundo de garrafa, não por necessidade, e sim, por estilo — pelo menos o estilo dela. Já Ivan, pai de Caio, era um tipo moreno claro, corpo dividido, sempre com a barba por fazer, cabelo aparado na máquina e usava sempre as calças mostrando a ponta da cueca.

Notavelmente eles não eram feitos um para o outro. Ivan era do tipo pegador, gostava de balada e curtição, e Natália era uma típica menina tímida, criada na igreja e educada para ser uma dama. Até seus dezoito anos nunca tinha experimentado bebida alcoólica e muito menos cigarro. Entregava todo dinheiro do seu salário aos pais e sempre ajudava nas tarefas domésticas.

Mas, como ninguém manda no coração, Natália teve a infelicidade de se apaixonar por Ivan. O garanhão sabendo de tal situação, não perdeu tempo e engatou um namoro com a menina. A coisa ficou feia quando ele tentou avançar o sinal e recebeu uma espingarda, na cara, do pai da moça que o forçou a se casar com a filha, mesmo que eles ainda não tivessem tido nada.

Daí em diante, a vida da menina foi um verdadeiro inferno. Temendo a reação do sogro, os dois se mudaram para uma cidade distante e começaram uma vida. Natália foi obrigada a ver o marido a traindo com várias amantes, algumas ele tinha coragem de levar para casa. Ele se envolveu com drogas, jogatina e chegou a transmitir algumas DST’s não muito graves à esposa. Às vezes, quando chegava muito bêbado em casa, ele a agredia e a forçava a se deitar com ele.

A moça não voltava para casa com medo da reação dos pais, diante de tudo que lhe acontecia e sempre que recebia um telefonema do pai ou da mãe, fingia que estava tudo bem, contava histórias que nunca existiram e abria um sorriso falso ao falar do marido.

Numa tentativa frustrada de fazer seu casamento dar certo, ela acabou engravidando. Ela tinha lido relatos de algumas mulheres em revistas que tiveram seus casamentos transformados com a chegada de um bebê e ela acreditava que aquela seria a luz no fim do túnel para o seu relacionamento.

Ledo engano. O rapaz não só odiou a notícia como também começou a agredir com mais frequência. Até que um dia, ela resolveu dar um basta naquela situação, não aguentava mais tanto sofrimento e humilhação. Ela encarou o marido e disse decidida que sairia de casa e voltaria à morar com seus pais, na ocasião, Natália estava no sexto mês de gestação.

Inconformado com a afronta da esposa, Ivan socou-a na barriga várias vezes até que ela caísse no chão e continuou chutando a barriga da esposa até que ela começasse a sangrar, caindo em si e vendo a besteira que havia cometido, Ivan fugiu desesperado. Natália começou a gritar incessantemente até que um dos vizinhos ouviu seus gritos e foi socorrê-la.

A ambulância chegou alguns minutos depois e Natália teve que fazer um parto às pressas, pois o bebê corria risco de morte. Os médicos fizeram o possível para salvar a criança; tentaram diminuir ao máximo as sequelas na vida do pobre rapaz, mas infelizmente o bebê nasceu paraplégico. Aquele foi um dia marcado por fatalidades. Ao saber do que havia ocorrido com a filha, a mãe de Natália teve um ataque cardíaco fulminante que a vitimou.

Ivan foi preso algum tempo depois, mas não sem antes tacar fogo na casa onde o casal vivia. Ele foi condenado a vinte anos de prisão e cumpre pena já há nove anos. Na única visita que Natália fez, ele se mostrava arrependido e desejava ter a oportunidade de conhecer o filho. Ambos conversaram por horas e decidiram que para o bem da criança, era melhor ele se manter afastado. Natália ocultou de Caio toda essa história e também a prisão do pai e preferia falar que o mesmo a havia abandonado assim que a criança nasceu.

– Amanhã é meu aniversário?

– Sério? Se você não falasse a mamãe nunca ia saber.

– Ah, corta essa! Você comprou um presente para mim, vovô?

– Que isso, menino! Que modos são esses?!

– Desculpa, mamãe.

– Deixa o menino, Natália. O vovô comprou, sim, quer ver? Está lá dentro.

– Quero!

– Não, senhor! Vai ver só amanhã depois dos parabéns.

– Não sei por que vocês fazem festa todo ano, ninguém nunca vem.

– Esse ano vão vir, meu amor. A mamãe tem certeza.

– Você fala isso todo ano e nunca aparece ninguém.

– Vem cá, meu amor… Você também, pai.

Natália levou os dois até a varanda de onde era possível ter uma ampla visão do céu e sentou-se com os dois. Ela contou ao filho, que sempre que avistamos uma estrela cadente, se fizermos um desejo, ele se realizará. O menino ficou encantado com a história e ficou parado olhando para o céu em busca de uma estrela cadente. Eles ficaram lá por mais de duas horas, até que avô e neto adormeceram. Natália carregou Caio no colo e o colocou na cama e voltou para acordar seu pai. Após se despedir dos dois com um beijo na face de cada um, Natália deu uma última olhada no céu e foi se deitar.

Caio acordou algum tempo depois impressionado com a história da mãe. Não conseguia parar de pensar que se visse uma estrela cadente, pelo menos uma criança iria aparecer na sua festa de aniversário. Esforçando-se ao máximo, ele sentou na cama e ficou olhando pela janela do seu quarto para o céu. O menino olhou tão fixamente e com tanta fé que viu nitidamente quando uma linda estrela cadente cortou o céu até se dissipar na terra, então, ele fechou os olhos e fez um único pedido: “Papai do céu, manda pelo menos uma criança para minha festa de aniversário amanhã? Eu quero ter pelo menos um amigo”. Após dizer essas palavras, ajeitou-se na cama e dormiu.

Na manhã seguinte, após o café da manhã, e como de costume, ele foi até a oficina do seu avô que ficava na garagem para brincar com ele e ficou com os olhos arregalados quando viu Ana, a filha do casal que havia se mudado para a casa dez, fazia poucos dias.

– Ei? Não fique parado aí. Onde estão os modos que eu e sua mãe te ensinamos? Venha falar um “oi” para a Ana.

O menino deu meia volta na sua cadeira de rodas e começou a sair acelerado, quando escutou Ana com uma voz parecendo de choro:

– O que eu fiz, vovô Lucas? Por que seu neto não quer falar comigo?

– Você não fez nada, pequena Ana. Ele que é bobão.

– Eu não sou bobão!

– Ah, apareceu!

– É, apareci.

– Venha cumprimentar a Ana.

– Oi, Ana, quer vir na minha festa de aniversário hoje à noite?

– Claro! Seria um parazer.

AGORA…


– Então quer dizer que foi assim que aconteceu?

– Sim!

– E por que nunca me contou nada?

– Achei que não precisasse.

– E por que me contou agora?

– Porque você precisa acreditar: sem aquela estrela cadente, eu jamais teria conhecido você. Anda, faz logo um pedido, ainda dá tempo.

– Eu não preciso, meu desejo já se realizou.

– Ah, é?! E qual era?

– Esse! — ela colocou a mão dele em sua barriga e completou: — Parabéns, papai, vamos ter um bebê!


MÚSICA TEMA: CASSIOPEA – FRANCK BARRÉ

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