A Bailarina

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– Ei, mocinha, acorda… Tá na hora!

– Ai, mãe, só mais cinco minutinhos…

– Já faz quinze minutos que você vem pedindo mais cinco minutinhos, Anna Gabriella.

– Ai, mãe, tá bom. Já estou levantando. Não precisa falar meu nome todo. Você só me chama assim quando está com raiva.

– Também pudera, não é, Anna Gabriella?! Você  já está mega atrasada para o treino e ainda fica dando trabalho.

– Ok, mãe! Já me levantei!

– Então… já para o banho, mocinha! Temos menos de dez minutos para chegar na sala de ballet.

– Tá bom, mãe. Eu já tô indo tomar banho, se você me der licença.

Anna Gabriella, ou melhor, Bibi, saiu para tomar banho enquanto sua mãe olhava atentamente para sua sapatilha e para o tutu (nome dado à roupa da bailarina), recordando-se de quando sua filha começou as aulas de ballet, tão pequena. Assim que firmou os primeiros passinhos, sua mãe já fez questão de matricular a filha no melhor estúdio de dança que encontrou.

Conforme a menina crescia, mostrava muita aptidão para a dança. Ela sempre se destacara como a melhor bailarina e ganhava a maioria dos concursos que disputava. Mas, de uns anos para cá, ela não se dedicava tanto assim — mas isso tinha um motivo. Sua melhor amiga e companheira de ballet havia recebido um convite para integrar o “Ballet Bolshoi”. As duas sempre combinaram que um dia estariam naquela Cia juntas, mostrando ao mundo a sua arte. Mas, devido ao treinamento pesado e uma sequência de erros na primeira apresentação oficial com a Cia de Ballet Bolshoi, sua amiga sofreu um contusão grave na coluna que a obrigou à abandonar os palcos para sempre.

Bibi simpatizou-se muito com a dor da amiga e quis até convencê-la à processar a Cia de Ballet. A amiga, por sua vez, entendeu que não era culpa da Cia, e sim dela própria, por não ter se esforçado o bastante. Bibi sabia que não era verdade, mas não quis contrariar a amiga. Após esse incidente, Bibi entendeu que talvez o sonho de ingressar numa das maiores Cia de Ballet do mundo não fosse assim tão interessante, e que aquelas meninas que lá estavam, não passavam de produtos descartáveis ou com prazo de validade, e o pior, algumas delas estavam verdadeiramente deixando de viver suas vidas para entregar-se de corpo e alma à Cia.

Por essas e outras razões, Bibi simplesmente foi parando de se dedicar. Começou a participar menos de competições, e nas que ia, não se esforçava para ganhar, ficando sempre entre as dez primeiras. Sua mãe não entendia por que da filha agir daquele modo, na verdade, ela nunca perguntou o porquê, apenas cobrava cada dia mais da menina para que essa fosse uma estrela. Talvez, ela só queria projetar seus sonhos na filha, pois sempre quis ser uma bailarina, mas seus pais, na época, não tinham dinheiro para investir nela, então jurou a si mesma que quando tivesse uma filha, essa seria a melhor bailarina que esse mundo já conheceu.

– Mãe? Pode me passar o tutu?

– Claro, mas… você já vai vestida?

– Sim. É menos uma coisa para eu fazer quando chegar lá.

– Mas, pode amassar.

– Mãe, ninguém vai reparar nisso. Estarão lá para ver meus movimentos.

– Eu não sei onde você está com a cabeça, Anna Gabriella, mas estamos falando do Ballet Bolshoi, lembra? É o seu sonho!

– Era o seu sonho, mãe. Para mim é só mais uma Cia de Ballet.

A mãe de Bibi deu de ombros e preferiu não retrucar a filha. Enquanto a menina se trocava, ela começou a meditar nas palavras que há pouco escutara “Era o seu sonho mãe.” Ela teve medo de estar realmente projetando seu sonhos na filha, até porque, conhecia muito bem a história da Aline, a tal amiga da Bibi que sofre uma contusão. Ela sabia que a menina só se esforçava tanto para impressionar o pai que sempre a tratou com desprezo porque queria um menino. A menina se cobrava tanto que várias vezes teve que ser hospitalizada por não comer direito para manter a forma. Por alguns minutos ela teve medo de estar fazendo o mesmo com a filha…

– Ei? Tá pensando no quê?

– Hã… Quê? Ah… não, nada. Você está linda!

– Ah, qual é, mãe! Corta essa! Você sempre me vê assim. Estou normal.

– Não, você vai ser a bailarina mais linda daquele lugar, Bibi.

As duas desceram em direção ao carro onde o motorista já as aguardava. Antes de entrar no carro, a mãe deu um demorado abraço na Bibi e a olhou por inteiro, em seguida, a abraçou de novo, mas dessa vez com os olhos cheios de lágrimas “Deve ser a realização do sonho dela” — pensou Bibi.

– Já podemos ir, Alfredo.

– Tudo bem, senhora.

O carro saiu e Bibi começou a sentir o mundo a sua volta caminhando mais devagar. Ela conseguia sentir uma pequena gota de suor frio que escorria pela lateral direita do seu rosto. Conseguia perceber o olhar orgulhoso que sua mãe lançava em sua direção, percebia para onde o motorista apontava sua vista, o portão da mansão abrindo lentamente, os carros passando na pista, os pássaros que voavam no céu, o movimento das nuvens impulsionadas pelo vento, e, por fim, o retrato do seu pai balançando no retrovisor interno do carro. Ao voltar o olhar para si, ela teve medo.

– Pare o carro! Eu não quero ir!

– Minha filha?! O que deu em você?

– Por favor, mamãe, eu não quero ir. Peça para o Alfredo parar o carro.

– Está tudo bem, minha filha. Pare o carro um instante, Alfredo.

– Sim, senhora.

Alfredo parou o carro no acostamento enquanto Bibi sentia o aconchego dos braços de sua mãe. A menina chorava descontroladamente, chorava tanto ao ponto de soluçar, agarrava a mãe bem forte, tentava tomar fôlego e desabava à chorar novamente.

– E… eu… eu nnnnn…. nnnnnããããããããooooo… não quero ir.

– Xiiiiiiiu, tá tudo bem, minha menina, tá tudo bem. A mamãe está aqui. Vai ficar tudo bem.

– Alfredo… me… le…. le…. me leva para casa?

– Senhora?!

– Sim, Alfredo, pode voltar para casa.

– Obr…. obri… Obrigada, mãe.

O motorista deu meia volta no carro e começou a fazer o caminho de volta até a Mansão Cerillo. A menina não parava de chorar nos braços da mãe, essa, por sua vez, tentava acalma-la como podia. Quando o carro estacionou na garagem, e antes mesmo que o motor fosse desligado, a bailarina saltou para fora do carro em direção ao seu quarto e se trancou lá dentro.

– Filha? Abre a porta… vamos conversar.

– Eu quero ficar sozinha, mãe!

– Por favor, filha, abra a porta.

– Eu já disse que quero ficar sozinha, mãe; me deixa ficar sozinha, por favor.

A mãe de Bibi preferiu respeitar o desejo da filha e desceu as escadas refletindo o que poderia ter deixado a filha naquele estado. Por fim, se lembrou de que a filha poderia estar assim por causa de Aline, pois as duas prometeram que um dia estariam juntas naquele palco, e sem pensar duas vezes, ela pegou o telefone na esperança que a filha pudesse se abrir com sua velha amiga.

[Três toques na porta…]

– Eu já disse que quero ficar sozinha, mãe!

– Não é sua mãe.

– A… Ali… Aline?

– Não! O presidente dos Estados Unidos. Anda, abre a porta.

Bibi abriu a porta e ao olhar para a amiga, desabou novamente à chorar. As duas não tinham se visto desde o acidente, conversavam apenas por telefone e mensagens, então foi um choque muito grande para Bibi ver sua amiga ali, de cadeira de rodas.

– E aí, vai continuar me olhando como se eu fosse uma ET?

– Não… não é isso; me per…. perdo…. perdoa.

– Pelo o quê? Por chorar que nem uma doida? Ou por abrir a porta e não me dar nenhum abraços?

– Você sabe. Eu ia naquele teste hoje, mas… mas aí eu lembrei de você e não tive coragem.

– Porque você é boba!

– Não. Porque eu amo você.

– Ih…. eu até gosto de você, Bibi, mas sai fora que meu negócio é homem mesmo.

– Ah… para! Você entendeu.

– Entendi, sim. Olha, eu entendo que você tenha ficado com medo pelo que aconteceu comigo, e se sentido triste por eu estar assim também. Mas, eu estou amargando as consequências das minhas escolhas. Fui eu que fiz isso comigo mesma e não a companhia. Na época, você não quis entender, mas isso aconteceu porque eu me cobrava demais para agradar meu pai, para que ele me notasse. A Cia não teve culpa. Os ensaios são puxados? Sim, claro que são. Treinos de doze ou quatorze horas por dia, mas eu conseguiria suportar numa boa se não estivesse psicologicamente abalada e se me alimentasse direito. O erro foi todo meu, a Cia vem me dando toda a assistência desde então, eles pagaram todo o tratamento na época, nos melhores hospitais, deram uma alta quantia em dinheiro para minha família sem sequer estarem errados e vem me apoiando desde então. Sabia que eu sou a representante oficial da inclusão na Cia? Pois é, você não sabia. Porque você tem tomado para si um peso que não é seu. Assim como eu, você só quer agradar sua mãe e talvez você tenha ficado tanto tempo assim no ballet porque éramos parceiras de dança e você de certa forma não queria me decepcionar também, mas agora que tudo acabou para mim, pelo menos da forma como estávamos acostumadas, você está sentindo medo, porque no fundo você sabe que não é isso que quer. Você tem que fazer aquilo que ama e não se prender a algo só para impressionar alguém, só para ser notada. Você ainda joga futebol?

– Só escondido! Às vezes eu falo que vou para o ballet para minha mãe, mas vou para quadra jogar com as meninas. Se minha mãe descobrir, ela me mata. Ela paga caríssimo por essas aulas de ballet.

– Eu acho que você deveria contar à ela. Tenho certeza que sua mãe vai entender.

– Você não conhece minha mãe, ela nunca entenderia.

– Tenho certeza que você está errada, tenta.

– Como pode ter tanta certeza assim?

– É porque ela está nos ouvindo atrás da porta. Pode sair agora, tia.

– Como você sabia?

– Ah, tia, quando a gente “perde” alguma função do corpo, todo o resto trabalha de uma forma mais acelerada e inteligente para compensar a função danificada. Eu escutei sua respiração.

– UAU! – falaram as duas em coro.

– Bom, acredito que minha presença aqui já não é mais necessária.

– Não! Fica para o jantar, por favor!

– Ah, linda, eu não posso. Vou sair com o boy hoje à noite, mas prometo que venho te ver mais vezes e vou estar na primeira fila torcendo por você no seu primeiro jogo de futebol. A tia vai passar lá na minha casa para me buscar, não vai, tia?

– É… v… vo… vou sim. Sim, claro, vou!

– Viu? Você está em boas mãos. Vocês precisam conversar. Beijos, amiga, e se cuida. Ah, só mais uma coisa: tira esse tutu que ele tá todo amassado.

A mãe de Bibi lançou um olhar para a filha como se dissesse: “Eu te avisei”. E a filha lançou um de volta como se respondesse: “A senhora estava certa”. A mãe de Bibi foi se despedir de Aline e recomendar cuidados ao motorista antes de regressar ao quarto da filha. Antes de subir as escadas, ela tomou um pouco de água e pegou dois bombons na geladeira, então, respirando fundo, subiu as escadas e entrou no quarto de Bibi.

– São para você!

– Mas, a senhora só me deixa comer chocolate aos domingos.

– Isso era antes, filha. Agora você pode comer quando quiser.

– Então, não está brava comigo?

– Não. Na verdade, estou brava comigo.

– Com a senhora?

– Sim, me perdoa, filha. Eu estava tão cega tentando fazer com que você realizasse meu sonho de ser bailarina, que não reparei que você tinha sonhos e vontades.

– Desculpa, mãe. Eu não queria decepcionar a senhora.

– Você não me decepcionou, querida. Pelo contrário, hoje você provou o quão forte você é. Estou orgulhosa de você.

– Forte? Mas, eu só chorei nos seus braços e depois nos da Aline.

– Sim! E quem disse que chorar é sinal de fraqueza? Muitas vezes, quando choramos nos mostramos muito mais fortes, porque mostramos nosso lado humano.

– Eu não sei o que dizer…

– Que tal começar me explicando que história é essa de futebol?

– Vai ficar brava comigo?

– Não! Eu só quero entender para poder passar para as minhas amigas que minha filha vai ser a melhor jogadora de futebol que esse mundo já viu.

– Ah, mãe, só a senhora mesmo…

As duas se abraçaram e conversaram muito a tarde toda. De longe era possível escutar as gargalhadas que as duas davam; a ocasião causou até estranhamento por parte dos empregados que não viam as duas tão felizes assim desde os tempos em que o patrão ainda era vivo. Não muitos sábados depois, Bibi estreava como titular no time da sua cidade e na ocasião marcara dois gols, um para sua mãe e outro para sua amiga Aline. O Ballet pode não ter sido a profissão escolhida por Bibi para exercer, mas sem dúvida foi o pivô de uma das lições mais importantes que aquela família aprendeu: amem-se e apoiem-se, o amor supera tudo.

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